Em 2014, De Volta ao Jogo estabeleceu-se como uma das melhores surpresas do ano. Agora, John Wick: Um Novo Dia Para Matar é o exemplo perfeito de como uma sequência de ação deve ser: ainda mais eletrizante, irreverente e ousado. Uma nova obra que ainda apresenta uma trama mais complexa e nos leva mais longe por entre os labirintos da sociedade assassina pela qual o protagonista navega.

O diretor Chad Stahelski e o roteirista Derek Kolstad, retornando às “cadeiras” do original, não perdem tempo amarrando as pontas soltas. Assim, no melhor estilo James Bond, a projeção começa com uma sequência de tirar o fôlego onde John Wick (Keanu Reeves) vai atrás de seu carro roubado no primeiro filme e que, atualmente, encontra-se nas mãos de Abram Tarasov (Peter Stormare), irmão do mafioso morto pelo protagonista no original.

Enquanto Wick derrota seus capangas utilizando apenas as mãos, Abram escuta a ação atentamente de seu escritório, criando humor e, além disso, contribuindo para o status lendário de Wick. Da mesma forma, antes de o protagonista chegar ao local, o mafioso conversa com um subordinado sobre o chamado “Bicho Papão”, descrevendo-o como “um homem com foco, comprometimento e pura força de vontade” e, então, recontando a ocasião em que ele matou dois homens com um lápis. Trata-se de uma repetição exata de um diálogo do filme original, com a exceção de que, aqui, o ouvinte interrompe e declara: “Eu ouvi a história”. Dessa maneira, Stahelski e Kolstad imprimem poder e mito ao protagonista.

Tendo retomado a posse de seu veículo, Wick acredita finalmente ter concluído esse último trabalho, estando então pronto para voltar para a tranquilidade da aposentadoria e para o luto por sua esposa, Helen (Bridget Moynahan) — sempre ao lado de seu buldogue não-nomeado. Entretanto, o herói logo se vê diante de um desafio ainda maior quando Santino D’Antonio (Riccardo Scamarcio) bate a sua porta.

Quando Wick quis sair da máfia e recebeu uma última missão para conquistar esse direito, D’Antonio o ajudou e, por isso, Wick concedeu-lhe uma dívida de sangue. O italiano quer usar essa dívida para que Wick assassine sua irmã e, assim, D’Antonio possa herdar seu assento no Conselho que reúne as maiores famílias da máfia. Depois de recusar e de ter sua casa incendiada e totalmente destruída, o protagonista relutantemente embarca na missão. Entretanto, sua conclusão está longe de significar o sossego para Wick.

Um dos maiores trunfos de De Volta ao Jogo era sua surpreendente construção de mundo, nos apresentando a um universo em que assassinos profissionais reúnem-se no Hotel Continental, pagam por serviços com cobiçadas moedas de ouro e seguem as regras concebidas por Winston (Ian McShane). John Wick: Um Novo Dia Para Matar entende isso e, portanto, nos oferece detalhes ainda mais fascinantes desse submundo — tudo de maneira sutil e natural, sem a necessidade de diálogos expositivos ou coincidências forçadas. A missão de Wick é apenas maior e, portanto, conhecemos outras facetas dessa sociedade, como a filial italiana do Continental.

Nesse sentido, duas das melhores e mais divertidas sequências da obra são as montagens que, respectivamente, acompanham Wick adquirindo os suplementos necessários para sua missão (que incluem um terno para o dia e um para a noite, feitos sob medida, e armas escolhidas utilizando termos de restaurantes de luxo) e retratam o que acontece imediatamente após alguém oferecer uma recompensa valiosa pelo assassinato do protagonista. Dentro desse vasto cenário, as participações de atores talentosos também merecem destaque, pois contribuem fortemente para estabelecer o universo de John Wick como uma sociedade repleta de história. Cada um traz uma energia diferente para o conjunto da obra, desde o energético mecânico de John Leguizamo até a poderosa e sedutora Gianna D’Antonio, vivida por Claudia Gerini.

John Wick: Um Novo Dia Para Matar Crítica

Mas a melhor ponta, sem sombra de dúvidas, fica por conta de Laurence Fishburne, contracenando com Keanu Reeves pela primeira vez após Matrix. Claramente divertindo-se à beça por fazer parte do projeto, Fishburne comanda uma faceta surpreendente da sociedade dos assassinos. Protagonizando ainda outro momento de destaque do longa, quando sua risada imponente estende-se para além do esperado mesmo quando Stahelski corta a ação e nos leva para o próximo cenário.

Sem perder o fôlego por um único segundo, a trama jamais para de avançar. Mas isso não quer dizer que não tenhamos espaço para o desenvolvimento dos personagens — muito pelo contrário, pois os coadjuvantes de John Wick: Um Novo Dia Para Matar revelam-se mais complexos e interessantes do que os do longa anterior, e rostos familiares retornam com ainda mais força.

Assim, o guarda-costas vivido por Common estabelece-se como um rival à altura de Wick, lutando com precisão e economia de movimentos onde o protagonista investe na elegância e na fluidez. Da mesma forma, a guerreira muda de Ruby Rose é uma figura surpreendente que, jovem e repleta de energia, luta com a ferocidade de um animal selvagem. Toda essa variedade de movimentos e estilos de luta, é claro, são resultado da longa experiência de Stahelski como dublê (e como diretor de dublê), assim como agora sua maior segurança como diretor. Afinal, para conseguir estabelecer John Wick como a figura mítica que ele é no universo que habita, é fundamental que o espectador consiga perceber as diferenças entre o protagonista e seus oponentes.

E, para tanto, o trabalho admirável de Keanu Reeves é igualmente imprescindível. O ator veste a persona de Wick como uma luva, movendo-se com graciosidade e sensualidade e, assim, mostrando-se ainda mais fatal e imprevisível. Wick é um homem de poucas palavras e, portanto, Reeves investe em uma performance baseada no movimento corporal, no olhar e em um tom de voz sereno que apenas ocasionalmente expõem suas emoções. Quando D’Antonio se entrega a um discurso sobre como Wick não tem nada na vida além de seu desejo de vingança e, por isso, não quer realmente se aposentar, sabemos que há verdades ali — mas Wick segue em frente sem hesitar.

Mergulhadas em azul, cinza, preto e luzes neon, a fotografia de Dan Laustsen eleva ainda mais as fascinantes sequências de ação, cuja mise-em-scène coloca o espectador no meio do embate e o mantém sempre ciente dos movimentos dos combatentes e do espaçamento ao seu redor. A montagem de Evan Schiff também é importante para isso, pois investe em planos longos e em cortes certeiros, que permitem que apreciemos todo o cuidadoso trabalho e dedicação envolvidos nas lutas.

Assim, John Wick: Um Novo Dia Para Matar estabelece-se não apenas como uma das melhores sequências dos últimos anos, mas também como um dos melhores, mais divertidos e mais originais filmes de ação do cinema recente. Só nos resta torcer para que o protagonista continue longe da aposentadoria.


“John Wick: Chapter 2” (EUA, 2017), escrito por Derek Kolstad, dirigido por Chad Stahelski, com Keanu Reeves, Riccardo Scamarcio, Ian McShane, Ruby Rose, Common, Lance Reddick e Laurence Fishburne


Trailer – John Wick: Um Novo Dia Para Matar

Outros artigos interessantes:

Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.