por Mariana González
29 de março de 2018

Ok, é inegável que Jogador Nº 1 tem um gostinho especial para quem cresceu nos anos 80, já que a cultura pop daquela época é parte intrínseca do universo que visitamos aqui. Mas não se preocupe: a década de 80 foi tão icônica que qualquer pessoa que se interesse por cultura pop, mesmo que tenha chegado ao mundo apenas mais tarde (como é o meu caso), vai reconhecer e se encantar com as homenagens feitas aqui. Além disso, o longa não se sustenta apenas nelas, já que cria uma realidade verdadeiramente fascinante e visualmente original — e cujas qualidades fazem com que relevemos os diversos problemas da produção.

Columbus, Ohio, 2045. A humanidade está um caos — falta comida, falta moradia decente, faltam oportunidades — e, em meio a tudo isso, o OASIS reina absoluto: uma realidade virtual em que os jogadores podem basicamente fazer e ser o que quiserem nos mais variados universos. O OASIS, é claro, é recheado de referências pop, especialmente à década de 80 na qual seu criador, James Halliday (Mark Rylance), cresceu.

Quando Jogador Nº 1 começa, Halliday morreu há alguns anos, mas não sem antes deixar uma missão para os “habitantes” do OASIS: ele escondeu um “easter egg” na realidade virtual, que poderá ser conquistado depois que um jogador completar três desafios e, com isso, reunir três chaves. O “easter egg” dará uma fortuna ao vencedor e, mais importante ainda, controle completo sobre o OASIS.

Nosso protagonista, o Wade Watts (Tye Sheridan) — ou Parzival, como seu avatar no OASIS é chamado —, é um dos jogadores autodenominados gunters, que se dedicam quase que integralmente à caçada pelo “easter egg”. O melhor amigo dele, Aech, também participa da missão, e os dois logo conhecem Art3mis, uma celebrada gunter por quem Wade rapidamente se encanta. Órfão e pobre, Wade enxerga no prêmio sua única chance de mudar de vida e de ser alguém não apenas no mundo virtual, mas também fora dele.

Ao contrário dele e dos demais jogadores, o que move Art3mis não é a possibilidade de fama e fortuna, mas a chance de preservar o OASIS das mãos da IOI, uma megacorporação maligna que, sempre em segundo lugar, deseja conquistar a realidade virtual para, basicamente, dominar o mundo (virtual e real). Para isso, a empresa envia seus funcionários, conhecidos como Sixers, para competir ativamente dentro do OASIS.

E se a cultura pop dos anos 80 tem a importância e a influência que tem até hoje, muito disso deve-se inegavelmente a Steven Spielberg. Assim, tê-lo como diretor de Jogador Nº 1 é um prazer por si só, que torna-se ainda melhor pelo fato de que, aqui, vemos em ação o mesmo Spielberg que nos presenteou com Jurassic Park, Tubarão, E.T. e tantas outras obras icônicas — ou seja, um cineasta imaginativo, ágil, envolvente e divertidíssimo, que sabe trabalhar como ninguém as imagens fascinantes (nascidas, principalmente, de efeitos especiais) que vemos em tela.

Jogador N° 1 Crítica

Para começar, é claro, o OASIS é um deleite. Criado a partir de efeitos digitais impecáveis, o universo virtual nos apresenta a um mundo em que “os limites da realidade são os limites da imaginação”, onde Spielberg pode soltar-se totalmente em cenas de ação empolgantes e repletas de energia, que exploram as possibilidades infinitas do OASIS sem deixar de empregar uma “mise-en-scène” que faça sentido para o espectador. Merece aplausos também a montagem de Sarah Broshar e Michael Kahn, especialmente no que diz respeito às belas transições entre o mundo virtual e o real.

Em meio a tudo isso, as referências funcionam muito bem por mostrarem-se orgânicas à narrativa, já que elas não são apenas uma das bases do OASIS, mas também motivo de interesse para os gunters interessados em entender tudo sobre Halliday. Entretanto, nesse sentido, é uma pena que o roteiro de Zak Penn e Ernest Cline, baseado no livro homônimo de autoria deste último, não confie no espectador — ou em si mesmo — quanto a essas homenagens. As mais óbvias (como O Iluminado, que rende uma sequência bizarramente divertida) são tratadas com naturalidade, mas sempre há um personagem disposto a escancarar as que possam ser desconhecidas do grande público, como quando vemos Art3mis dirigindo a moto de Kaneda, protagonista de Akira, o que tira essa naturalidade dos “easter eggs” (e que, portanto, deixam de ser “easter eggs”).

E o caráter expositivo do roteiro definitivamente não se limita às referências. Frequentemente vemos personagens explicando coisas que ambos já sabem e, muitas vezes, sequer se trata de algo que já não tenhamos compreendido por nós mesmos — o momento mais incômodo é quando Wade estende-se ao explicar uma estratégia para questionar Sorrento (Ben Mendelsohn), o CEO da IOI.

Outro problema enfrentado por Jogador Nº 1 é a forma rasa com que o longa aborda qualquer discussão mais profunda que se propõe a ter, como aquela envolvendo o fato de que, no OASIS, qualquer pessoa pode fugir dos limites de sua aparência física para ter o visual que quiser. Porém, quando Art3mis diz que Percival se decepcionaria caso a conhecesse pessoalmente, ela está apenas se referindo a uma mancha de nascença que tem no rosto — e que não elimina a beleza tradicional de Olivia Cook. Enquanto isso, descobrimos que Aech é, na verdade, uma jovem negra lésbica (Lena Waithe), mas a conversa sobre o racismo, o machismo e a homofobia que a levaram a tomar a decisão de apresentar-se como homem no OASIS jamais chega a lugar nenhum. Pouco explorada também é a ganância das grandes corporações, que deveria ser um dos pilares do longa.

E Wade pode ser um protagonista bastante genérico, mas o jovem torna-se carismático nas mãos de Tye Sheridan, que usa seu tom de voz e linguagem corporal para transmitir com talento o contraste entre a autoconfiança de Pearzival e a timidez de Wade — algo que se mistura um pouco quando ele está com Art3mis. É interessante perceber também como a coragem e a rebeldia de Parzival vão tornando-se cada vez mais parte de Wade, como quando o avatar dele conversa com Sorrento em uma cena em que Spielberg acerta em cheio ao mostrar-nos não o visual digital de Parzival, mas o rosto verdadeiro de Wade.

Enquanto isso, a garota recusa-se a ser apenas um interesse romântico, já que é multifacetada e possui uma missão só sua. Por outro lado, é inegável que Art3mis é uma personagem muito mais interessante e heroica do que Wade e que, se a cultura nerd não fosse tão machista, daria uma protagonista icônica. Mark Rylance diverte-se no papel de mentor/guia e, no lado oposto da moeda, Ben Mendelsohn faz de Sorrento um vilão propositalmente cartunesco.

Os problemas do longa não estragam a experiência fascinante que é Jogador Nº 1, apesar de impedi-la de chegar ao mesmo patamar das obras de Spielberg que citei anteriormente. O fato é que o que mais importa aqui é o encantamento de mergulhar em um universo verdadeiramente original em que algumas de nossas obras e personagens favoritos ganham uma nova roupagem, e Spielberg nos guia por essa aventura como o mestre que é.


“Ready Player One” (EUA, 2018), escrito por Zak Penn e Ernest Cline, dirigido por Steven Spielberg, com Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, Mark Rylance, Lena Waithe, Simon Pegg, Philip Zhao, Win Morisaki, Hannah John-Kamen e Perdita Weeks.


Trailer – Jogador N° 1

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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