O prolífero trabalho de Stephen King já rendeu diversas produções audiovisuais descartáveis e até mesmo desastrosas, mas também outras tantas obras marcantes. Apenas quatro anos depois da publicação de It: A Coisa, a ABC adaptou o livro em uma minissérie bastante irregular, mas que nos apresentou à icônica performance de Tim Curry como Pennywise. Agora, a obra ganha uma adaptação coesa, assustadora, surpreendentemente divertida e que, sim, traz uma versão eficiente — e ainda mais monstruosa — do palhaço assassino.

Você provavelmente conhece a história, mas vamos lá: chove forte lá fora quando o pequeno Georgie (Jackson Robert Scott) sai para brincar com o barquinho que fez ao lado de seu irmão mais velho, Bill (Jaeden Lieberher). O brinquedo cai em um bueiro e, procurando-o desesperado, Georgie avista um palhaço bizarro de olhos brilhantes que, depois de tentar atrair o garoto, finalmente arrasta-o para dentro do esgoto. No verão seguinte, Bill e seus amigos Richie (Finn Wolfhard) e Stanley (Wyatt Oleff) investigam o desaparecimento de Georgie e outros mistérios que rondam a cidade de Derry. À missão, juntam-se Ben (Jeremy Ray Taylor), um novo aluno da escola que documentou todas as bizarrices que aconteceram na cidade ao longo das décadas, Beverly (Sophia Lillis), que enfrenta problemas graves com o pai enquanto ainda lida com alguns cruéis rumores sobre ela, e Mike (Chosen Jacobs), jovem que estuda em casa e que é o mais recente alvo da gangue de bullies psicopatas liderada por Henry (Nicholas Hamilton).

De início, duas mudanças já estabelecem It: A Coisa como obra que funciona por si só. Lançado em 1986, o livro acompanha duas linhas do tempo: o presente, em que os personagens centrais são adultos, e 27 anos atrás, quando o grupo enfrentou A Coisa pela primeira vez. Aqui, com exceção do prólogo, a trama se passa inteiramente em 1989 — ou seja, quando se passarem mais 27 anos (a importância do número é clara para quem conhece o personagem), estaremos em 2016, quase nos dias atuais. Além disso, em vez de intercalar as vozes adultas e infantis, este longa concentra-se apenas na primeira metade da história. Mas não se preocupe: enquanto há, sim, abertura para um novo volume, It: A Coisa funciona muito bem por si só, tanto como adaptação quanto como gênese de uma possível nova saga.

Afinal, o diretor Andy Muschietti, trabalhando a partir do roteiro assinado por Chase Paulmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman, é hábil ao estabelecer a dinâmica natural e confortável entre seus personagens centrais, que é de certa forma bagunçada com as chegadas de Ben, Mike e, principalmente, de Beverly. Dessa forma, o quase triângulo amoroso que ensaia formar-se aqui é tratado com delicadeza, mas ainda assim semeia as bases das diferentes relações que encontraríamos entre aquelas pessoas caso voltemos a encontrá-las daqui a 27 anos.

E para isso, é claro, o carisma e a energia dos atores mirins são fundamentais. Lieberher, Taylor, Lillis, Wolfhard e Jacobs desenvolvem bem seus personagens, que são individualizados e multifacetados. Cada um deles lida com seus próprios traumas e demônios internos, mas isso não impede, é claro, que os garotos fiquem um tanto embasbacados com a presença de Beverly, ou que Richie insista em sempre ter uma resposta “engraçada” na ponta da língua. O “Losers Club”, ou Clube dos Perdedores, como o grupo se autointitula, nasce da amizade entre crianças que, cada uma a sua maneira, são deslocadas das demais — e, nesse sentido, uma boa parte do arco dramático dos garotos envolve a compreensão de que eles são mais fortes e corajosos juntos.

It: A Coisa Crítica

Como deu para perceber, It: A Coisa preocupa-se bastante em estabelecer seus personagens e as relações entre eles. Isso forma a base para que o icônico vilão da história possa fazer seu trabalho, já que um dos motivos que tornam Pennywise tão assustador é o fato de que ele tira forças do medo de suas vítimas e, assim, pode se apresentar da forma mais adequada para aterrorizar cada alvo. Em 1989, A Coisa vai atrás de crianças e, por isso, sua aparência mais recorrente é a de um palhaço. É curioso perceber como esta caracterização de Pennywise é bem mais assustadora do que a da minissérie, algo que Bill Skarsgård “contorna” ao empregar um tom de voz suave que lhe dá um ar quase lúdico e infantil, que rapidamente se transforma em agressividade e intimação quando necessário. Assim, o ator estabelece-se como mais uma versão memorável d’A Coisa ao criar uma performance totalmente sua, bastante distante do que vimos Tim Curry fazer — não apenas visualmente, mas também na maneira como ele fala e se movimenta.

Pois se Muschietti se sai bem no desenvolvimento dos personagens, o mesmo vale para os momentos de puro horror fundamentais à história. Desde o início, é admirável a maneira com que o pavor sentido pelos personagens é palpável, e como o longa extende esse medo para o espectador — quando Georgie desce para o porão, por exemplo, não há nada de particularmente assustador ali; a trilha sonora e a tensão da câmera só nos alcançam porque refletem a ansiedade do garotinho. Nesse sentido, outro toque admirável é a naturalidade com que Stanley cobre seus olhos ao passar na frente de uma pintura que o assusta, momento que nos leva a um subsequente plano subjetivo em que assumimos o ponto de vista da mulher no quadro.

Posso mencionar, também, o desespero com que Ben folheia um livro sobre a história de Derry, sabendo que chegará a uma imagem horrível, mas sem ser capaz de deixar de olhar; ou a conversa entre Bill e Charlie que se estabelece como um dos momentos mais fortes do filme; ou a agonia presente no momento em que Beverly é encontrada por seu pai no banheiro. Além disso, It: A Coisa entende que existem monstros reais entre nós e que somos perfeitamente capazes de atos de extrema crueldade, o que é representado aqui pelo sadismo crescente de Henry.

Equilibrando com louvor sua missão de aterrorizar ao mesmo tempo em que precisa estabelecer o coração de sua história, o longa consegue tanto causar medo quanto fazer rir e encantar, sem que uma coisa prejudique a outra. Tudo isso enquanto nos apresenta à uma memorável encarnação do Clube dos Perdedores e de seu monstro. It: A Coisa, portanto, já pode tomar seu lugar na lista de excelentes adaptações de Stephen King.


“It” (EUA, 2017), escrito por Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman, dirigido por Andy Muschietti, com Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Bill Skarsgård, Nicholas Hamilton e Jackson Robert Scott.


Trailer – It: A Coisa

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