Meu primeiro contato com Invasão Zumbi surgiu durante a gravação de um ODCast sobre os Melhores Filmes do Ano. “Train to Buzan” (o nome original é “Busanhaeng”, mas em inglês é bem mais fácil de pronunciar) foi lembrado pelo meu companheiro de podcast, Vebis Jr.. Dias depois vi o trailer no cinema e logo na sequência, junto com o crítico André Azenha (Cinezen), entramos em negociação com a Paris Filmes para contar com esse filme coreano para abrir o Nerd Cine Fest.

E estou fazendo esse texto de modo tão pessoal (contrariando meu próprio estilo), porque “Invasão Zumbi” é um filme de terror pessoal. Que se importa com aqueles seres humanos em uma situação tão violenta e maluca.

Como fica fácil de imaginar, a tal “situação” é uma “invasão zumbi”, mais precisamente na Coreia. E não leve em conta o início bobinho sobre o veado zumbi atropelado, Invasão Zumbi é sobre um pai que precisará rever todo seus conceitos para salvar a filha ao descobrirem que o país está sob uma espécie de epidemia zumbi enquanto estão em um trem com destino a Buzan, onde mora a mãe, recentemente separada.

O que era uma viagem curta de uma hora se transforma então em um filme de terror incrível, sutil, inteligente e que irá fazer os fãs acreditarem que o gênero está mais “vivo” do que nunca. Ainda que o grande sucesso da TV mundial sejam os zumbis de The Walking Dead, aqui vamos muito mais de encontro ao cerne desses mortos-vivos. Uma bem vinda mistura entre o clássico de George Romero e o “zumbis corredores” que surgiram no cinema nas últimas décadas.

Do que é novo, fora a correria, vem um zumbi violento, que não mede esforços físicos e nem barreiras para encontrar suas vítimas. Que para a conveniência do roteiro se descobre municiado de algum ponto fraco que permite que seus protagonistas escapem da morte certa dentro desses vagões. Do lado físico, algo que parece ser uma versão melhorada e mais “romântica” da horda de zumbis que atacaram Brad Pitt em Guerra Mundial Z, do outro lado, nada que atrapalhe muito na imersão e nem uma desculpa para que algum roteiro furado funcione. Apenas um detalhe que acrescenta uma camada a mais na trama.

E o que não faltam são camadas. De cara a óbvia, do pai mau caráter e afastado da filha que precisa se redimir, não um personagem que se torne um herói do gênero, mas sim um que aprende que sobreviver é importante, mas sobreviver em comunidade é muito mais importante ainda. Mas, mais que isso, um filme que chega até a uma robusta e psicologicamente poderosa analogia de um cenário mundial onde mais do que a razão, é o medo e o egoísmo que move uma camada da sociedade movida por um discurso que afasta àqueles que são “diferentes”. Mesmo que essa diferença soe mais como uma igualdade.

Sim, existirá um momento em Invasão Zumbi que o cinema ficará em silêncio olhando para aquilo com a impressão de já ter visto todo aquele discurso de desmembramento social em algum lugar bem próximo a todos. Seja nos conflitos tribais do continente Africano, seja no crescimento de uma xenofobia e de um nacionalismo tanto na Europa quanto na América ou até na divisão entre as Coreias. Pessoas iguais que só se tornam diferentes pelo medo do desconhecido.

Invasão Zumbi Crítica

E inda que essa profundidade que deixaria George A. Romero feliz da vida dê ao filme o status de imperdível, principalmente por ainda por cima tratar seus personagens com uma baita sensibilidade e, com certeza, levando muito marmanjo às lágrimas um punhado de vezes, a grande estrela de Invasão Zumbi é sua ideia.

E isso é isso é até uma grande lição para o gênero. Principalmente se ele pretende fugir da mesmice formuláica de The Walking Dead e tentar ser algo novo. Nada em Invasão Zumbi é novo, as mortes e sacrifícios são aqueles mesmos, assim como boa parte dos conflitos entre os personagens, mas tudo isso se passar em um trem e a presença de um diretor sutil e habilidoso no controle é um presente enorme para os fãs.

À começar por um cenário construído com sutileza (esqueça o veado) e alguns primeiros ataques surpreendentes. Na sequência de acertos, uma transformação que foge do óbvio e aposta não só no incomodo dos estalos e contorcionismos, como em um movimento que mais lembra uma marionete nas mãos do caos e da violência.

Em seu primeiro filme live action, Sang-ho Yeoh ainda parece se divertir tanto em momentos inesperados como quando param em uma estação de trem, como quando usa slow motion com requintes de crueldade para “se vingar” de um grupo de passageiros de um dos vagões.

Sensível, violento, cheio de surpresas e em um ambiente que ninguém espera, Invasão Zumbi é um exemplo de que o gênero ainda consegue se recriar a cada parada que esse trem dá. Para mim, sobra apenas o agradecimento a todos que me permitiram experimentar essa pequena obra-prima do mundo dos zumbis.


“Busanhaeng” (Cor, 2016), escrito e dirigido por Sang-ho Yeon, com Yoo Gong, Soon-an Kim, Yu-mi Jung, Dong-seok Ma, Sohee, Eui-sung Kim e Gwi-hwa Choi.


Trailer – Invasão Zumbi

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2 Respostas

  1. cris

    A parte que TODAS as mulheres são inúteis no filme vocês não consideram? Achei legal. Mas esse fator me deixou mt frustrado em relação ao mesmo.

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    • Vinicius Carlos Vieira

      Cris…. na época que vi o filme isso não me chamou a atenção, mas agora que você apontou isso, concordo plenamente. E isso talvez seja um problema maior até que o filme, já que o gênero repete bastante esse problema. Ainda que o terror sempre tenha as “final girls” a maioria delas é sempre sobrevivente que pouco age na trama a não ser fugir (ainda que existam raras exceções). “Invasão Zumbi” não foge disso, e pior ainda, na maioria do tempo usa as mulheres apenas como motivação para os personagens masculinos através de sua morte ou perigo.
      Mas talvez ai também tenha um outro detalhe, já que mostra que as mulheres sempre sobrevivem enquanto “os caras” tentam ser heróis (risos).

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