Depois de afundar a trilogia de Sam Raimi com um terceiro episódio desastroso, a Sony relançou o Homem-Aranha nos cinemas meio de que qualquer jeito em dois filmes que, apesar de contarem com um elenco competente, nunca encontraram seu tom. E lá vai o estúdio procurar outra maneira de manter os direitos sobre o personagem — a solução acabou vindo na forma de um acordo com a Marvel. Isso tudo nos leva a este Homem-Aranha: De Volta ao Lar, que oficialmente introduz Peter Parker ao Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) após apresentar o jovem herói em uma pequena participação em Capitão América: Guerra Civil. A boa notícia é que este é o melhor filme do Aranha desde a sequência lançada por Raimi em 2004.

Peter Parker é um jovem inteligente e pouco popular que, certa vez, é picado por uma aranha radioativa e, assim, consegue superpoderes. A morte de seu tio B…. ok, ok, você já está cansado de ouvir essa história. Com a ajuda da Marvel, a Sony parece ter aprendido a lição, pois De Volta ao Lar muito acertadamente começa sua ação com Peter já acostumado com seus poderes e com o hábito de patrulhar as ruas de Nova York à procura de pessoas para ajudar — estejam elas precisando livrar-se de um bandido ou de direções para chegar a algum lugar.

Em Guerra Civil, Peter (Tom Holland) é chamado por Tony Stark (Robert Downey Jr.) para ajudar os Vingadores na batalha do aeroporto de Berlim. Assim, agora, o conflito do garoto é encontrar seu lugar nesse novo mundo de supervilões, criaturas fantásticas e alienígenas. Enquanto isso, ainda enfrenta os dilemas de qualquer outro adolescente de 15 anos: a falta de popularidade na escola, a paixonite por uma menina mais velha, as provocações de um colega… Peter percorre tudo isso ao lado de seu melhor amigo, Ned (Jacob Batalon), sob a supervisão de May (Marisa Tomei) e sendo acompanhado de perto por Stark e Happy Hogan (John Fraveau) — que parecem vigiá-lo mesmo sem intenção alguma de chamá-lo para missões.

Nesse contexto, De Volta ao Lar se estabelece como um filme centrado mais em Peter Parker do que no Homem-Aranha; sem a necessidade de servir como história de origem, o longa é livre para explorar as motivações e obstáculos do personagem, criando um arco narrativo eficiente para o protagonista. Entendemos suas ações e, ao final do filme, compreendemos o que o levou a tomar tal decisão. Para tanto, chega a ser uma surpresa o fato de o roteiro ser creditado a seis escritores (Jonathan Goldstein, John Francis Daley, o diretor Jon Watts, Christopher Ford, Chris McKenna e Erik Sommers), algo que não costuma ser um bom sinal. Mantendo-se envolvente, coeso e dinâmico ao longo de toda a projeção, o roteiro abre caminho para que a direção de Watts e a montagem de Debbie Berman e Dan Lebental criem um longa fluido, com um tom uniforme e com uma evolução bem definida.

Entretanto, se De Volta ao Lar brilha com seus diálogos e nos pequenos momentos de Peter usando seus poderes, o mesmo não pode ser dito das cenas de ação. Nenhuma delas é particularmente memorável, ainda que aquela que se passa em Washington, DC. chegue bem perto — mas o problema que permeia todas elas é a óbvia inexperiência de Watts no comando de tais sequências, já que ele investe em cortes rápidos e em uma mise-en-scène confusa que faz com que o espectador não consiga compreender a espacialidade da cena.

Outro problema pontual é o desespero do longa de estabelecer May, que surge aqui mais nova do que estamos acostumados, como uma mulher atraente. Ora, ela é vivida por Marisa Tomei, uma atriz lindíssima, charmosa e carismática — sendo assim, as constantes menções a sua beleza por parte de diversos personagens masculinos tornam-se um tanto pedestres, especialmente considerando que May não tem muita coisa para fazer além disso — sua última frase, por outro lado, é excelente, assim como a sequência em que ela ajuda Peter a se preparar para o baile da escola.

Homem-Aranha: De Volta ao Lar Crítica

Downey Jr. e Favreau desempenham papéis importantes na trama (Stark chega a efetivamente se estabelecer como mentor de Peter), mas suas aparições são orgânicas e pontuais. Zendaya, por sua vez, demonstra um bom timing cômico, ainda que sua personagem esteja obviamente destinada a ganhar destaque em futuras produções. Vivendo o interesse romântico do protagonista, Laura Harrier faz de Liz uma jovem doce e inteligente, conseguindo demonstrar também que, apesar de ser mais velha do que Peter, ela também é uma adolescente com sua própria dose de insegurança. Tony Revolori diverte como o irritante e convencido Flash, enquanto o Ned de Jacob Batalon é um ótimo braço-direito para Peter, tornando-se mais hilário quanto mais se envolve com as aventuras do Aranha.

Que, por sinal, encontrou em Tom Holland um intérprete perfeito para trazê-lo à vida nesta versão do personagem. Holland imprime jovialidade e energia a Peter, fazendo com que o estoque inesgotável de piadinhas sarcásticas e autodepreciativas do Homem-Aranha sejam entregues com uma pitada de ingenuidade (nesse sentido, os olhos expressivos de seu uniforme também contribuem bastante). Conquistando-nos desde o início da projeção, quando é introduzido na obra através de um filminho amador que Peter grava em Berlim com seu celular, o ator também faz um bom trabalho nos momentos mais introspectivos do personagem, criando esta que pode se tornar sua encarnação definitiva nos cinemas.

Quanto ao senso de humor, que não fica centrado só no protagonista, é admirável o quanto o filme consegue rir de si mesmo, especialmente ao colocar Peter nos subúrbios da cidade (onde, portanto, os arranha-céus dão lugar às casas) e através de uma referência a um momento icônico da trilogia de Raimi.

Mas todo herói precisa de um vilão a sua altura, algo com o qual a Marvel ainda ocasionalmente encontra dificuldades. Não é o caso de De Volta ao Lar. Um dos maiores trunfos do longa é realmente estabelecer a diferença entre Peter e os Vingadores, demonstrando também porque precisamos de heróis preocupados com o “cara comum”(algo muito acima do “salário do time VIP”, como declara Stark). Assim, um assalto a um banco ganha dimensões ainda maiores quando os bandidos atingem um estabelecimento que Peter frequenta sempre, enquanto dois “sumiços” do garoto ganham mais urgência por colocarem seu heroísmo como obstáculo a suas experiências como adolescente (a festa e a final do decathlon). Sendo assim, Adrian Toomes, o Abutre, é ele próprio um homem comum, com conflitos e motivações com as quais podemos nos identificar, mesmo que não concordemos com seus métodos. Afinal, sua “história de origem” é nada mais, nada menos do que o fato de que, após as batalhas de gigantes que os super-heróis protagonizam, sobra para figuras miseráveis como ele limpar a bagunça e colocar tudo em ordem — pelo menos enquanto os engravatados não aparecem e decidem que nem para isso eles servem. Michael Keaton (encerrando aqui sua própria trilogia de “heróis alados” que iniciou com Batman e Birdman) é fundamental para que Toomes seja realmente um cara comum motivado principalmente por sua família, e não por desejos de poder, que o transformariam em um vilão mais típico.

Centrado, humano e seguro na maneira com que estabelece o tom da narrativa e seu senso de humor, Homem-Aranha: De Volta ao Lar é um filme que sabe o que quer dizer, que entende seu protagonista melhor do que seus antecessores e que acerta em cheio na maneira com que diferencia o garoto dos demais super-heróis com quem ele ainda está aprendendo a conviver. Portanto, Peter Parker, bem-vindo ao MCU!


“Spider-Man: Homecoming” (EUA, 2017), escrito por Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Jon Watts, Christopher Ford, Chris McKenna e Erik Sommers, dirigido por Jon Watts, com Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Jacob Batalon, Marisa Tomei, Laura Harrier, Jon Favreau, Zendaya, Donald Glover, Tony Revolori e (com a voz de) Jennifer Connelly.


Trailer – Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Uma resposta

  1. Henrique

    Assisti ontem…ótimo filme. ótimo vilão, adorei o Flash. O aranha eu não gosto muito. Como foi falado no texto não é a historia de origem , aqui o tio já morreu, o herói já aprendeu – ou deveria ter aprendido – sobre suas responsabilidades. E é isso que deixa estranho a personalidade dele. Não gostei como no guerra civil ele não para e pensa por si só, não decide qual lado tem razão e enfrenta capitão América pq ordenaram ele a fazer isso. Nesse, ele fala em agir e enfrentar os vilões para ‘chamar atenção do homem de ferro’, provar seu valor. Parece o Aranha atras de fama antes da morte do tio, antes das responsabilidades…que tal enfrentar os vilões pq é o certo a fazer? Ele chega nesse estagio no final do filme, o que é ótimo. Mas fica estranho a morte do tio não ter tido esse impacto.

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