Você já conviveu intimamente com alguém que possui muito medo do desconhecido? Uma ansiedade angustiante e que não consegue deixar de falar sobre todas as terríveis possibilidades (para essas pessoas é uma certeza) que o futuro nos espera? Se sim, talvez Histórias de Amor Que Não Pertencem a Este Mundo o ajude a entender melhor essa pessoa, e a entender que, apesar de tanto fatalismo, há por trás um ser humano que deseja ser feliz à sua maneira.

O problema é que o filme de Francesca Comencini não parece estar muito interessada em humanizar uma condição humana lamentável. Ou é a atriz Lucia Mascino, a despeito de seu visível talento em caracterizar Claudia como uma mulher em seus quarenta anos e com a insegurança em seus ossos. De qualquer forma, aqui temos uma história que se leva sozinha graças à direção competente de Francesca, nos impedindo perder em detalhes de uma história convencional.

Mas esta é sim uma história convencional, muito embora não contada de maneira linear. Claudia tem um problema: sua produção excessiva de ocitocina, a droga do amor, mas também a droga do medo. Ela se apaixona perdidamente por Flavio (Thomas Trabacchi) e já o imagina como o homem de seus sonhos realizando todos os seus desejos pueris, como casar e ter filhos.

A relação entre ambos é plausível, cheira a familiar, e ao mesmo tempo possui seus toques charmosos, como morarem em uma quase choupana isolada do mundo. O apartamento que dividem na cidade também não é dos melhores, com mofo e paredes precisando de uma pintura. Mas não haverá reforma, pois Claudia é “irreformável”. Ela é o que é, goste ou não. Note como sua melhor amiga nem tenta mais “consertá-la” ou aconselhá-la. Ela apenas ouve. Em breve seu companheiro fará o mesmo, e será o início do fim. Como a própria Claudia aponta. Ela tem o dom, ou a maldição, de prever o futuro ou causá-lo.

O medo e o amor incontroláveis de Claudia a permitem viver uma vida mais intensa, completa? Duvido disso. O filme também. A vemos preenchendo o desconhecido com certezas de sua cabeça. No primeiro almoço com Flavio ela já se declara. Ela não vê como falar que o ama em outro momento pode ser melhor. E talvez esteja certa, o que torna tudo mais doloroso. As regras sociais nos fazem enxergar seu comportamento como inapropriado. Mas será, mesmo?

Há uma guerra sendo travada, e Claudia sabe disso. Ela se recusa a dividir a história ou a literatura em guerras e amor. Para ela o amor é uma guerra. E ela luta pelo seu amor como se estivesse em uma guerra. Contra si mesma e contra todos. Tudo é contado através de momentos, pequenas janelas, oportunas, que nos permitem ir entendendo seu humor aos poucos. Quando chegamos à metade, uma nova personagem aparece, e embora a história, como falei, não seja linear, fica claro que este é o anúncio que Claudia temia. Ela é apenas um fantasma agora nas memórias de Flavio.

O que é mais fascinante em Histórias de Amor… é que o filme não se preocupa nem um pouco em pontuar quando cada acontecimento pode ter acontecido, nem a sequência de eventos. E para Claudia isso também pouco importa. Ela consegue se lembrar de tudo o que viu, de todas as pessoas que conheceu, e seus detalhes, mesmo que tenha visto há 10 anos atrás. O filme nos entrega a sua visão, da maneira mais ou menos caótica e difusa com que enxerga.

Não há muita participação de qualquer outro personagem além de Claudia. Nem Flavio pode ser considerado um personagem de peso. Ele só existe para satisfazer a imaginação de Claudia. E ela tem uma imaginação tão forte que entendemos que, mesmo ausente, ela ainda é a perfeita narradora em off.

Entregando uma trilha sonora internacional e momentos “pop” bem embalados em um formato comercial, Histórias de Amor… fala sobre um tema sério sem nos fazer chorar, mas rir. É uma confusão de sentimentos com o gostinho de como é entender uma pessoa como Claudia. Talvez nunca saberemos, pois conhecemos apenas os efeitos de suas ações. E talvez ela nunca saberá como a vemos. É o muro intransponível da comunicação entre homens e mulheres. De uma maneira particular, o muro que separa cada ser humano do próximo. Ninguém nunca nos entende quando enxergamos o futuro.


“Amori Che Non Sanno Stare al Mondo” (Ita, 2017), escrito por Francesca Manieri e Laura Paolucci, dirigido por Francesca Comencini, com Lucia Mascino, Thomas Trabacchi, Valentina Bellè, Iaia Forte, Carlotta Natoli


Trailer – Histórias de Amor Que Não Pertencem a Este Mundo

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