Kevin Wendell Crumb (James McAvoy) possui 23 identidades distintas, e nem mesmo sua psiquiatra, a Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley), conhece todas elas. Certo dia, uma dessas personalidades, Dennis, sequestra três garotas no estacionamento de um shopping: Casey (Anya Taylor-Joy), Claire (Haley Lu Richardson) e Marcia (Jessica Sula). A partir daí, Fragmentado busca não apenas criar uma situação de extremo suspense quanto ao destino das garotas e do objetivo de Kevin com elas, mas também explorar o transtorno dissociativo de identidade de seu protagonista.

Pois Dennis, Patricia e Hedwig têm um destino em mente para elas. Dennis e Patricia são as personalidades “líderes” da horda de identidades de Kevin, enquanto Hedwig é um garoto de nove anos determinado a fazer de tudo para agradar os dois. Outra das principais personalidades é o carismático e inteligente Barry, que é quem tem um maior contato com a Dra. Fletcher. É ele quem decide qual das identidades “virá à luz” a cada momento, mas os planos de Dennis e Patricia vêm ameaçando sua identidade.

Tratam-se, certamente, de conceitos interessantes, que o diretor e roteirista M. Night Shyamalan explora bem na maior parte do tempo. A imagem do grupo de identidades conversando entre si e aguardando pacientemente sua vez de comandar o corpo de Kevin, por exemplo, é intrigante. Para isso funcionar, é claro, o trabalho de James McAvoy é fundamental: entregando-se com intensidade ao papel, o ator demonstra seu talento ao conseguir diferenciar cada identidade através principalmente de seu tom de voz e linguagem corporal. Nesse sentido, o melhor momento é, sem dúvidas, aquele que traz uma das identidades se passando por outra — é fascinante como, apenas através do jeito com que McAvoy fala e se move, podemos perceber que há algo errado ali.

Anya Taylor-Joy, que se mostrou uma revelação A Bruxa, também faz um ótimo trabalho. Casey é uma jovem calada, introvertida e atormentada por seus próprios demônios. Assim, Taylor-Joy investe em uma performance silenciosa, demonstrando força quando necessário e tentando derrotar seu captor com sua inteligência. Seu melhor momento é quando, já na conclusão do filme, ela responde à pergunta de alguém com um olhar que revela com sutileza o turbilhão de emoções ali dentro.

Ambientado em um cenário bastante limitado, Fragmentado é beneficiado pela direção segura de M. Night Shyamalan, que explora a locação com energia. Nesse sentido, a fotografia de Mike Gioulakis (do imperdível Corrente do Mal) é fundamental para estabelecer o perigo que percorre esses ambientes, algo alcançado através do uso de cores quentes, sombras e movimentos de câmera dinâmicos. Assim, durante seus segundo e terceiro atos, Shyamalan consegue criar um clima de tensão constante e crescente, mantendo o espectador envolvido.

Fragmentado Crítica

Entretanto, esse objetivo quase é destruído logo no início da projeção, quando o cineasta utiliza o suspense de forma barata e sem satisfação alguma para a plateia (ou seja: ele cria expectativa mesmo quando não há nada para acontecer). Assim, quando Casey percebe pelo espelho retrovisor do carro que o pai de sua amiga foi atacado, ela demora um tempo irritantemente longo para virar-se para o homem que acabou de entrar no veículo. Isso se torna ainda pior quando, depois de constatar que o novo motorista é realmente um estranho, a jovem mantém a lentidão em sua tentativa de fuga — que, é claro, não funciona. Da mesma forma, o uso da câmera subjetiva mostra-se incoerente e sem significado narrativo, pois logo deixa de ser privilégio apenas da protagonista para mostrar o ponto de vista de sua amiga, algo que não volta a acontecer de novo e que, em uma questão de segundos, estraga a linguagem empregada até então.

Outro problema é a forma nada sutil com que Shyamalan tenta criar paralelos entre as infâncias trágicas de Kevin e de Casey e, pior, utilizando a pedofilia como ferramenta para isso. Assim, o abuso sofrido por Casey estabelece-se como simples motivo para que Kevin a enxergue como alguém tão “diferente” e “danificada” como ele. Mas, pelo menos, Anya Taylor-Joy consegue capturar as consequências duradouras desse abuso, mesmo que o roteiro não o faça de forma particularmente complexa.

Com uma conclusão curiosa (vale a pena manter-se longe de spoilers), Fragmentado é um terror envolvente com um antagonista bem construído, ainda que os dois personagens centrais dependam bastante do talento de seus intérpretes para estabelecerem sua complexidade. O suspense e a tensão funcionam mais do que falham, e a forma com que Shyamalan aborda o transtorno de Kevin é interessante ao mesclar psicologia e sobrenatural. O cineasta abandona a coesão em determinados momentos, o que rende furos; mesmo intrigante, este não é um filme que revelará novas camadas ao ser revisitado. Mesmo assim, trata-se de um bom trabalho, capaz de envolver e surpreender.


“Split” (EUA, 2016), escrito e dirigido por M. Night Shyamalan, com James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica Sula, Izzie Coffey, Brad William Henke e Sebastian Arcelus.


Trailer – Fragmentado

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