por Wanderley Caloni
30 de janeiro de 2018

Se você gosta de biografias que contam a história de esportistas com uma infância difícil, uma carreira rodeada de percalços, uma dose sadia de ironia, um final tragicômico e uma trilha sonora com os hits da época, então Eu, Tonya talvez seja para você o filme do ano. Do início, pelo menos, com certeza.

Ambientado entre as décadas de 80 e 90, a história real de Tonya Harding, a primeira patinadora a fazer uma espécie de salto triplo “de costas” no gelo, é marcada profundamente pelos seus traços culturais norte-americanos. Nas palavras de sua ex-treinadora, o que ninguém pode negar é que Tonya é “muito americana”. E por americana ela quis dizer a típica família caipira “red neck”, com direito a saber atirar em coelhos desde criança, cortar lenha e se esforçar ao máximo em seu sonho: patinar no gelo.

Com uma mãe insuportável, mas que suporta seu sonho (Allison Janney, ácida e meio irritante), Tonya tem sua infância e adolescência à base de tapas e abuso psicológico. Isso, sem parecer nunca receber um elogio de sua mãe, que acredita que diminuí-la é um incentivo para que ela dê seu melhor. A questão é que, por bem ou por mal, Tonya se torna uma exímia patinadora, muito acima da média de suas colegas.

Mas isso não é suficiente. Existem valores tradicionais pudicos de família que impedem que ela, apesar de realizar as manobras mais ousadas no gelo, ganhe o reconhecimento do júri. O que permite filme ser parte crítica social… mas só um pouquinho. Não fica sequer muito claro a relação entre as roupas de dança confeccionadas por ela mesma significam para um grupo de jurados basicamente invisível. E o resto da história se torna um drama bem-humorado, já que hoje em dia o que resta é rir dos costumes selvagens daquela época (ainda que saibamos que não se trata de um comportamento já superado em todos os lugares).

Mas esta também é uma comédia de confusões, uma versão (bem) light de Fargo, com direito, de acordo com o repórter de uma revista de caráter duvidoso, a uma história “cheia de idiotas”. E, acreditem, no meio dela acharemos pessoas mais idiotas ainda. O que chega a trazer a inquietação que o filme parece querer transmitir ao espectador de que não importa o quanto Tonya seja habilidosa no que faz, o mundo inteiro está interessado mais em seus próprios umbigos.

O roteiro de Steven Rogers consegue se sair muito bem em sua estrutura geral, onde começamos com uma série de entrevistas feitas em uma resolução de tela de TV, lembrando de onde vinham os holofotes. Enquanto vemos estas pessoas comentando sobre o passado aos poucos percebemos que suas próprias versões do passado complementando a narrativa, olhando para a câmera e quebrando a quarta parede pelo economia de cortes. Um recurso que funciona bem. Já, por outro lado, a insistência em remoer a relação conturbada com a mãe e o namorado/marido acaba por soar repetitiva e cansativa, pois a história nunca parece sair do lugar por conta de mas um episódio, por exemplo, do arranca-rabos habitual do casal.

Margot Robbie faz aqui um papel que valoriza sua interpretação no jeito caipira de falar. As suas reações são exageradas e automáticas. Sua Tonya de fato é uma pessoa simples e determinada. Mas não tem alma. Ela segue um fluxo ininterrupto de eventos. Seu jeito de se expressar é na base de diálogos simples, brutos e diretos. Ou na base da violência, a linguagem que aprendeu nas vidas em família e de casada e que parece a acompanhar por toda a vida.

A direção de Craig Gillespie não chega a ser nada original. Enjaulado na estrutura de Rogers, o detalhe mais marcante é ver Tonya no gelo. A câmera oscila de maneira competente entre os olhos e as pernas da patinadora, e sem que consigamos perceber o truque lá está Margot Robbie efetuando movimentos arriscados e precisos no gelo. Seus giros finais com a câmera girando em torno dela com o público ao fundo vão se tornando mais e mais repetitivos. Não há muita emoção nesse esporte, mas Gillespie extrai o suficiente para nos emocionar.

Isso aliado a uma trilha sonora que oferece mais hits da época que o necessário. São músicas que marcam uma mini-época. Claro que “Devil Woman” faz todo o sentido do mundo, mas o que “Barracuda” tem a oferecer em um momento específico da vida de Tonya? Pouco. E o fato dos capangas de seu “guarda-costas” gostarem de ouvir o batido single “Gloria”? Pouco também. E com isso vamos vendo que as músicas selecionadas para a história são uma mera distração nostálgica que ao menos nos fornece a textura do tempo para embarcarmos em uma viagem de algumas décadas atrás.

Mais inventivo é a direção de arte, e mais ainda é o figurino, que reconstroi as roupas de apresentação que a própria Tonya e consegue manter uma distância incômoda entre o que ela está vestindo e o que é esperado que ela vista. Suas lantejoulas, brilhos e cores exageradas oferecem uma comicidade incidental, e mesmo que o filme prefira não chamar tanto a atenção para este fato, não há como ignorar os tons aurinegros que Tonya usava, dignos de um “red neck” no seu sentido mais puro (a Bandeira de Gadsden, símbolo das colônias americanas idealizado por um dos Founding Fathers).

Alguns desses detalhes no filme são uma recompensa agradável em um filme que não voa muito alto, mas consegue se manter em uma boa altura por tempo suficiente para estar acima da média. E se você gostar de finais tragicômicos com hits de sucesso pipocando, este ainda pode ser o seu filme do ano.


“I, Tonya” (EUA, 2017), escrito por Steven Rogers, dirigido por Craig Gillespie, com Margot Robbie, Sebastian Stan e Allison Janney.


Trailer – Eu, Tonya

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