por Wanderley Coloni
12 de março de 2018

Não parece haver pior dor da perda do que quando uma mãe perde seu filho. E não parece haver sentimento maior de impunidade do que quando sabemos que algo não está certo e vai ficar dessa jeito mesmo. Esses dois sentimentos extremamente pesados estão misturados no ótimo Em Pedaços, uma história de violência do cotidiano, visceral do começo ao fim.

Diane Kruger é Katja Sekerci, esposa do reformado Nuri Sekerci (Numan Acar) e mãe do fruto desse amor, o pequeno Rocco (Rafael Santana). Os três formam uma família perfeita e harmoniosa. Isso é o máximo que podemos reparar nos poucos minutos que os vemos juntos, pois logo depois um desastre toma conta da vida de Katja, um desastre de proporções trágicas e violentas: seu filho e marido morrem em um atentado terrorista.

O que se segue então é um tortuoso processo de luto de Katja e em paralelo uma investigação carregada de preconceitos e suposições banais. Nuri era um ex-traficante e ex-presidiário que já havia pagado seus pecados na prisão. Quando ambos se casaram ele ainda estava lá, como vemos na primeira cena, em um vídeo caseiro como os outros que irão separar o filme em três pedaços. Além disso, sua origem turca torna tudo mais complicado. Katja é alemã e eles estão na Alemanha, em um bairro de imigrantes. O investigador do caso junta essas peças e já conclui que só pode ser um ato de vingança perpetuado por alguma etnia descontente, com os negócios escusos de Nuri ou com sua origem. Ou ambos.

No centro desse redemoinho reside Katja, que vai aos poucos mostrando que é muito mais forte do que parece. Ela tem certeza que quem cometeu o atentado foi um grupo nazista e tem motivos anedóticos para pensar assim. No entanto, o caminho a ser percorrido para alcançar justiça é mais tortuoso ainda do que o próprio luto.

A atuação de Diane Kruger é algo a se destacar. Com poucos diálogos, mas auto-centrada em suas dores e motivações, Katja é um personagem que surge do nada e vai crescendo aos poucos. Vamos descobrindo-a a cada nova fase, e muito provavelmente ela está se surpreendendo tanto quanto nós com suas decisões. Essa capacidade de transmitir empatia para o espectador parece uma das especialidades de Kruger, que desde sua Bridget von Hammersmark de Bastardos Inglórios vem exercitando aquela pessoa que passa por muito mais internamente e onde podemos ver apenas uma penumbra de seu interior pelos seus atos.

O que ajuda na construção de Katja é a trilha sonora do filme, quase sempre pautada em rocks pesados e que conseguem destacar corpo e alma; a maioria das músicas é obra da banda Queens of the Stone Age, cujo próprio nome já denuncia seu pé no Stoner Rock. Note como as músicas começam em um alternative metal, passam por stoner rock e eventualmente se tornam uma mescla mais balada. Não é coincidência que o arco de Katja siga o mesmo estado de espírito, que aliás, se alinha muito com os cinco estágios do luto de Kübler-Ross (negação, ira, barganha, depressão e aceitação).

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Contudo, o processo pelo qual Katja passa também pode ser visto como um cabo de força entre dois extremos. Um,  onde ela poderá se adaptar bem ao luto ou, no pior dos casos, perder boa parte de sua personalidade, ou o que a torna uma pessoa de carne e osso. Nesse sentido, a última parte do longa, \”O Mar\”, é um exemplo triste e tortuoso das tentativas de alguém em trazer significado novamente à sua vida.

O trabalho do diretor Fatih Akin (que assina o roteiro com Hark Bohm) poderia muito bem se tornar um simples thriller ocasional com um certo drama catártico, mas ele, sabiamente, utiliza seu material para dar um tom imediato, atual e relevante para o que a Alemanha está passando com a crise de imigrantes e a expansão de movimentos extremistas (incluindo, claro, a volta de nazistas). De quebra, joga uma questão insolúvel e completamente aberta a debates sobre justiça e punição.

No entanto, Akin brilha mais em sua direção. Multifacetado em três parte com vídeos caseiros separando o processo pelo qual uma mãe suporta e sobrevive a um luto duplo, a passagem do tempo é feita com sequências que trafegam pelo microcosmos da vida da protagonista. A câmera não corta nos momentos-chave da história, preferindo orbitar em torno de Katja/Kruger e os acontecimentos em torno dela. Isso desde o fatídico começo, onde ela deixa o filho e dá uma última olhada para a fachada onde seu marido e ele estão. Não é possível mais conseguir criar sequências imprevisíveis, e sabemos que algo irá acontecer com os dois no momento em que ela se vira. É um objetivo de Akin transformar tudo aquilo em uma narrativa pelo menos com desfecho aberto; objetivo que ele alcança do começo ao fim custe a quem custar.

Em Pedaços possui um título nacional de péssimo gosto, pois implica em chamar atenção para um ataque terrorista e sua mórbida consequência. Já o título em inglês, \”In the Fade\”, ou na penumbra, no desvanecer, faz jus ao filme e o arco de sua protagonista. Além do mais, sugere de uma maneira melancólica, um possível momento em que algo está sumindo e virando fumaça aos poucos. Seria nosso senso de justiça? Mais um instigante exercício de uma obra que termina de uma maneira nada fácil, mas necessária.


\”In the Fade\” (Ale/Fra, 2017), escrito por Fatih Akin e Hark Bohm, dirigido por Fatih Akin, com Diane Kruger, Denis Moschitto, Numan Acar.


Trailer – Em Pedaços

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