As Duas Faces de Janeiro conta a história do guia turístico Rydal, um enganador de mão cheia, que se envolve com o endinheirado casal Chester e Colette McFarland quando estes vem a visitar As Duas Faces de Janeiro Postera capital grega de Atenas, onde ele trabalha, no ano de 1962. Misteriosos e igualmente pouco dignos de confiança, os McFarland logo mostram ser algo bem diferente daquilo que aparentam ser à primeira vista e Rydal acaba entrando em uma jogada muito pior que suas costumeiras pequenas falcatruas.

Baseado no best-seller de Patricia Highsmith de 1964 e claramente inspirado pelos thrillers de Agatha Christie, As Duas Faces de Janeiro tem seu roteiro adaptado para o cinema pelo iraniano Hossein Amini com grande maestria. Embora dono de um currículo particularmente irregular – que conta com longas como 47 Ronins (2013), Branca de Neve e o Caçador (2012), Drive (2011) e Asas do Amor (1997) – é possível facilmente identificar quando Amini se sente mais à vontade e entrega seus melhores trabalhos: quando trabalha sozinho. E a diferença é notável, quando comparamos roteiros como os de Drive e Asas do Amor com o de 47 Ronins, por exemplo.

Não por acaso, aqui, em As Duas Faces de Janeiro, Amini novamente faz a roteirização solo e o resultado é estupendo. Construindo cada cena com enorme apreço para que cada momento ajude igualmente no senso de paranoia e suspense que a história pede, Amini prende o espectador ao que está ocorrendo sem que consigamos sequer piscar os olhos. (Vale destacar como cada personagem coadjuvante do longa se mostra cheio de vida e é tão intrigante quanto os próprios protagonistas do mesmo). É preciso, no entanto, fazer uma pequena ressalva quanto ao final do terceiro ato que, talvez mais provavelmente por uma questão de ritmo e limitações de tempo – no intuito de evitar que o filme fique demasiadamente longo -, o desfecho acaba sendo um pouco corrido e se mostrando um pouco formulaico. Tal coisa não chega a estragar o filme, mas não deixa de ser um lapso marcante.

Com isso chegamos ao fator que impede As Duas Faces de Janeiro de verdadeiramente se tornar um dos melhores longas do ano. Dirigido pelo próprio Amini, em seu trabalho de estreia na direção, o longa parece carecer de um “algo mais” em boa parte da projeção. Embora o trabalho de Amini não comprometa o resultado final, é nos detalhes que vemos os grandes diretores e é isso que aqui não encontramos. Desde o uso de movimentos de câmera sempre previsíveis e monótonos, passando por enquadramentos pouco inventivos e, finalmente, fechando com uma fotografia apenas “adequada”, o longa parece nunca tirar proveito completo de sua envolvente e intrigante trama ou mesmo de seu fantástico elenco.

As Duas Faces de Janeiro Crítica

Este, aliás, é outro ponto que uma direção mais firme teria feito melhor uso. Contando com o sempre eficiente Viggo Mortensen, a bela Kirsten Dunst e o talentoso Oscar Isaac, As Duas Faces de Janeiro tinha potencial para entregar um trabalho com grandes atuações, mas, infelizmente, elas nunca se concretizam. O trio de protagonistas até faz um bom trabalho, mas lhes falta “momentos” para coroar suas atuações, assim como para tornar seus personagens memoráveis e inesquecíveis. Infelizmente, estes momentos nunca vêm. Já quanto à trilha sonora, o trabalho de Alberto Iglesis cai como uma luva intensificando o clima de desconfiança na medida certa.

Apesar de seus inerentes problemas, As Duas Faces de Janeiro nunca deixa de ser fascinante, algo que por si só já consegue destacá-lo em meio à enxurrada de filmes sem sal que chegam aos cinemas todos os finais de semanais. Mas mais do que isso, aqui e ali há momentos que indicam um certo potencial futuro para seu diretor. De particular destaque é a cena, pequena mas marcante, em que Rydal relembra ir com o pai ao cinema ver um filme de Agatha Christie, uma clara alusão à principal inspiração para a criação do livro – e, por que não, do filme. Estes curtos instantes que criam camadas adicionais é o tipo da coisa que engrandece um filme sem se esforçar. Se Amini já sabe criá-los, quem sabe com a experiência, seus filmes atinjam o mesmo nível de seus roteiros.


“Two Faces of January” (RU/Fra/EUA, 2014) escrito e dirigido por Hossein Amini, à partir de uma obra de Patricia Hoghsmith, com Viggo Mortensen, Kirsten Dunst e Oscar Isaac.


Trailer – As Duas Faces de Janeiro

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