Brigas espalhafatosas, discussões acaloradas, armas de fogo, onças no meio da estrada, passagens pela prisão, shows de sertanejo e muita, muita gritaria: Divórcio tem de tudo um pouco, atirando para todos os lados em seu desespero para envolver o espectador. Produção digna de especial de fim de noite na televisão, o longa se vale dos mais batidos estereótipos de gênero e sobre casamentos para tentar contar uma história de amor atrapalhada que, na verdade, se limita a repetir esses clichês.

Na juventude, Noeli (Camila Morgado) largou seu noivado arranjado para casar-se com Júlio (Murilo Benício), pé-rapado e recém fugido da prisão. Os dois vivem alguns anos felizes enquanto dão início a sua fábrica de molhos de tomate, que se torna um sucesso país afora e faz com que eles enriqueçam. A trama, então, passa a acompanhá-los nos dias de hoje, em que Noeli e Júlio passam seus dias prestes a esganar um ao outro enquanto tentam manter a fachade de casal 20. Até que um incidente particularmente lamentável acontece e, então, ela pede o divórcio. Mas os dois são teimosos e, enquanto se dedicam a causar ciúme, raiva, ódio e tristeza no outro, a briga judicial segue em frente nas mãos dos melhores advogados do estado, Roberto Lobão (André Mattos) e Priscila Kadisci (Angela Dip).

Noeli gasta milhares de reais em roupas e sapatos, hábito do qual o marido abertamente desaprova — enquanto isso, ele se derrete de amores por seus carros e, nas horas vagas, condena a filha adolescente por estar namorando. Apesar de a empresa ser dos dois e de o tão famoso molho de tomate ter o rosto dela estampado nas embalagens, é ele quem coordena tudo enquanto ela cuida das duas filhas do casal e da mansão da família. Divórcio é recheado de estereótipos negativos tanto na caracterização das mulheres quanto dos homens, mas o que poderia ser uma divertida maneira de reavaliar essas convenções e transformá-las em algo novo se limita a simplesmente repeti-las. E para piorar, o roteiro de Paulo Cursino se “esquece” de estabelecer algo fundamental para o filme (pelo menos tentar) funcionar, já que o ápice romântico da narrativa falha quando percebemos que, apesar de Noeli e Júlio obviamente não terem se saído bem como solteiros, eles jamais realmente demonstraram estar sentindo falta um do outro enquanto marido e mulher. O que eles têm a acrescentar um ao outro? Quanto tempo o casamento ainda vai durar? Ou melhor, quantos meses até o próximo desentendimento estabelecer-se como obstáculo, por mais que o diretor Pedro Amorim queira vender o amor de Noeli e Júlio como algo que, agora, é para sempre?

Contribuindo nesse sentido, Murilo Benício interpreta aqui um pamonha canastrão que percorre a vida com uma amplitude limitada de expressões faciais e modos de falar, algo que acaba fazendo de Júlio um homem ainda mais sem graça do que o necessário. Enquanto isso, Camila Morgano tem um material consideravelmente mais interessante sobre o qual trabalhar, deixando de lado sua típica elegância para investir em uma personagem doce e determinada, mas também agressiva e insana — com um longa de qualidade nas mãos, Morgado poderia se mostrar verdadeiramente engraçada. Aqui, a veterana dupla de protagonistas é desperdiçada.

Divórcio Crítica

O diretor Pedro Amorim construiu pelo menos dois planos que podem ser considerados ao menos levemente interessantes: o que traz Júlio lenvantando-se em frente a um par de chifres (simbolismo mais do que batido, mas ainda divertidinho) e aquele em que o som de tiros vindo do videogame parece ser originado da sala em que o casal e seus advogados discutem. Nada extraordinário, mas cortes que funcionam dentro do contexto do longa-metragem. A montagem também é eficiente, construindo a narrativa de maneira fluida e ágil. Já a fotografia e a própria direção de Amorim repetem a insistente mania de tantos “blockbusters” brasileiros de adotar uma estética televisiva que, na tela do cinema, surge esteticamente desagrádável e sem personalidade.

Transformar os conflitos cotidianos que fazem parte do casamento em situações estapafúrdias poderia render uma ampla fonte de piadas. Mas Divórcio prefere tomar os caminhos mais fáceis, falhando principalmente pelo fato de não saber como guiar Noeli e Júlio rumo à reconciliação. Assim, o longa frustra mais do que diverte.


“Divórcio” (Brasil, 2017), escrito por Paulo Cursino, dirigido por Pedro Amorim, com Camila Morgado, Murilo Benício, Luciana Paes, Thelmo Fernandes, André Mattos e Angela Dip.


Trailer – Divorcio

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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