Chega de falar que a Pixar errou, todo mundo já viu Carros 2 e Universidade Monstro e sabe disso, a hora agora é de falar de um acerto, na verdade um de seus maiores acertos, pois Divertida Mente já pode se considerar não só um dos melhores filmes da própria Pixar, como um dos mais incríveis do ano.

Sensível, inteligente, novo e impecável, o filme de Pete Docter (em parceria com Ronaldo Del Carmem) não só soa único, como faz um esforço enorme para que esse peso mais pareça uma pena. “Soa único”, mas não é a primeira vez que o espectador vê o “funcionamento interior” de um ser humano, tudo bem que você pode ignorar O Grande Dave, mas Wood Allen já até encarnou o papel de espermatozoide em Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo. O que Divertida Mente faz diferente desses e de qualquer outro filme que se arrisque no tema é o quão profundo ele se dispõe a ir.

O quão longe ele vai na cabeça dessa garotinha de 11 anos, Riley, e o drama que acaba se tornando uma mudança com a família para São Francisco. Na verdade, Riley é coadjuvante de sua própria história, já que os protagonistas são essas cinco incríveis criaturinhas que moram na cabeça dela e de qualquer outra pessoa: Felicidade, Tristeza, Medo, Nojinho e Raiva. E é ai que Divertida Mente sequestra toda e qualquer pessoa que colocar os olhos nele.

Além de um identificação completa com tudo que rola na cabeça da garotinha, já que o mesmo acontece na cabeça de todos, a animação vai em busca de uma verdadeira saga sobre mudanças. Não só as físicas, mas sim aquelas que ocorrem no fim da infância e por fim se tornam a tão temida adolescência, que no painel controlado pelas criaturinhas, mais parece um botão de autodestruição (daqueles da Guerra Fria).

E é justamente essa habilidade de dar vida de modo objetivo (sem contar fofinho, bonitinho e apaixonante) a uma série de conceitos absolutamente subjetivos que faz com que o filme de Docter seja tão impressionante. Cada ação dentro da cabeça de Riley é uma analogia a uma situação comum a todos sentados no cinema, e cada significado, metáfora ou detalhe contido nessa história é um suspiro apaixonado diante das possibilidades que o cinema proporciona.

É difícil ou até impossível imaginar jeito melhor de colocar na tela todos esses sentimentos, reviravoltas e lições de modo tão claro sem parecer piegas, principalmente, pois não é necessário acumular sobre todo o roteiro uma ou outra leitura ou camada, tudo já está lá para ser entendido. A “Ilha da Bobagem” desaba quando não existe a Felicidade para entrar em cena quando o pai imita um macaco, e isso literalmente quer dizer exatamente isso.

Divertida Mente Crítica

Felicidade não está, pois acaba se perdendo na mente de Riley, junto com a Tristeza, e acabam tendo que dar um jeito de voltar para a sala de controle antes que o trio (Medo, Raiva e Nojinho) acabem com tudo. E qualquer lição que se possa ter está exatamente ai, no quanto é preciso entender que nem só os momentos felizes são os importantes, mas sim uma combinação entre tudo é que traz essa felicidade. E nesse caso a lição é até para a própria Felicidade, que precisa descobrir que não é nada sem a Tristeza (tanto no sentido literal, quanto figurado).

“Divertida Mente” então anda por esse caminho, onde tudo é literal, os sonhos são quase produções de cinema, o subconsciente está lá escondido por uma portão escuro, onde o abstrato é literalmente abstrato e as memórias que se vão são, justamente, aquelas que dão espaço para as novas experiências.

Tudo isso empacotado por um humor incrível, sutil e que não sente a menor necessidade de aparecer mais que a história. “Divertida Mente” assim como diversos outros “jovens clássicos” da própria Pixar (como Procurando Nemo e Toy Story) não é uma comédia, mas sim uma fábula aventuresca sobre crescimento, e não simplesmente uma comédia infantil. O que não priva o público de deliciosos momentos como a discussão em família sob a ótica dos “painéis de controle” ou todas outras inúmeras referências sutis quem compõe o cenário da mente de Riley (sem contar o engraçadíssimo passeio final por um monte de outras cabeças).

Um filme emocionante, sensível, com um visual lindíssimo, uma história marcante e que faz por merecer cada lágrima do espectador.


“Inside Out” (EUA, 2015), escrito e dirigido por Pete Docter e Ronaldo Del Carmen, com vozes no original de Amy Pohler, Bill Hader, Lewis Black, Phyllis Smith, Diane Lane e Kyle Maclachlan


Trailer – Divertida Mente

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