Não existiria outro jeito de falar de mãe! senão enchendo um texto de spoilers. Por isso, e para não acabar com a graça dos espectadores, quem quiser uma opinião que consegue passar pelo filme sem contar nada e apenas analisando a nova obra de Darren Aronofsky, pode ir ali.

Já quem ficou por aqui, deve ter visto o filme e saiu ou extasiado ou odiando. E principalmente pelo diretor estar pouco preocupado em mastigar qualquer coisa para ninguém. É aí que eu entro, em uma tentativa ainda mais pretensiosa do que a do diretor, de desvendar mãe! para quem saiu perdido do cinema. Ou até simplesmente para quem queira se aprofundar nele.

É lógico que aqui, o que você verá são minhas impressões, que podem estar completamente erradas (não acredito que estejam!), por isso, venham comigo, seja para entender um pouco mais do filme, ou simplesmente para me xingar.

Ahh… e sabe aquele pozinho amarelo… não faço a mínima ideia do que seja.

Muita gente saiu do cinema sem entender mãe!

A mãe no Gênesis

Sim. Coloque sua Bíblia embaixo do braço e venha comigo. No começo não existia nada, Deus foi lá e criou tudo. Nesse caso, como todo mundo deve ter percebido, o papel “Dele” ficou com Javier Barden, e no caso do filme “Ele” não está criando, mas sim recriando.

Diante da tentativa “Dele” de criar um mundo perfeito, Deus tenta mais uma vez conquistar o amor incondicional da Mãe Natureza (Jennifer Lawrence), e até aqui, não se preocupe, o próprio diretor afirma isso com todas as palavras.
“ela” (a Mãe e todos menos “Ele” têm que ser em minúscula mesmo), acorda mais uma vez recriada, anda por essa casa em construção até chegar em uma varanda que dá para lugar nenhum, sem uma estrada que leve a ela e nem qualquer sinal de civilização. Estamos falando do Planeta Terra, uma casa que é emprestada para a humanidade habitar. Fica então com a Mãe Natureza a responsabilidade de deixar aquilo tudo perfeito para ser vivido.

No filme, “ela” está reformando a casa “Dele” enquanto “Ele” está no “andar de cima” criando. Dá o alimento e o conforto, tenta até dar um pouco de vida àquelas paredes com uma cor menos cinza. Mas é lógico, o homem acabará com isso. E o primeiro deles é Adão.

É lógico que ficaria sem graça Ed Harris ser creditado no filme com Adão, por isso ele é apenas “homem”, que chega em uma noite e parece preparado para morar ali. Nesse ponto, “Ele” (Barden), descobre mais uma vez o prazer da soberba, de ser celebrado como o artista que é, reconhecido por sua obra e celebrado por ter transformado a vida desse Homem.

Sem nenhum tipo de cerimônia, o personagem de Harris passa a viver naquele paraíso ainda sendo construído. O “homem” tem liberdade para fazer o que quiser dentro de sua nova casa, a não ser encostar no cristal dentro do escritório “Dele” (Barden… Deus… etc.). E como essa é a reviravolta mais velha da história, é só esperar que o fruto proibido vai embora em algum momento.

Por outro lado, a solidão do “homem” está prestes a acabar, e isso fica claro quando o doloroso processo de criação o deixa com um ferimento na costela. “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne”, exatamente como está no Gênesis 2:24. Surge então a “mulher” (Michelle Pfeifer). E talvez aqui, a serpente seja simplesmente o álcool da limonada “batizada”, o que importa é que a “mulher” passa a confrontar aquilo que até agora era um senso comum, ao mesmo tempo em que já deixa atrás de si um rastro (como a serpente) de destruição e sujeira.

Mas isso culmina com a aproximação do cristal, onde “homem” e “mulher” tocam-no e descobrem o pecado. “Ele” então os expulsa do local e tranca seu escritório com tábuas (e não com uma espada em chamas que fica rodando), já “ela”, enquanto vê os dois se atracarem sexualmente em qualquer lugar quer mesmo expulsá-los daquela casa, mas seu marido a convence a deixa-los por lá mesmo. E aqui surge mais uma faceta daquele Deus problemático do Antigo Testamento e sua necessidade de continuar sendo celebrado como pode maior, por mais que sua criação esteja desandando. Sempre há a necessidade de uma segunda chance deles se redimirem de seus pecados e continuarem celebrando sua figura.

Mãe é uma analogia bíblicia do começo ao fim!

Nesse momento, em meio a uma discussão a respeito de dinheiro e heranças, entra em cena o “irmão mais novo” e o “filho mais velho” do casal “homem” e “mulher”, o sempre incrível Domhaal Gleeson e seu irmão de fora das telas, Brian Gleeson. O final dos dois você já deve imaginar.

Curiosamente aqui, nesse momento, a Bíblia “perde” linhas e linhas enchendo a Terra de descendentes de Caim, Abel e de Sete (terceiro filho). Nomes e mais nomes de pessoas que surgem na história glorificando Deus e temendo sua ira. Mais ou menos o mesmo que acontece com a casa onde “ela” (Lawrence) parece se esforçar o tempo inteiro para deixar linda e organizada, mesmo com o ponto podre de sangue não a permitindo esquecer-se daquele pecado. Do fim da inocência.

O Sapo e o Dilúvio

Toda fé cristã se baseia na dicotomia de que enquanto existe Deus, um ser onipresente, onipotente e onisciente, existe também um reflexo sombrio. Chame do que quiser, Satã, Lúcifer, Capiroto ou Sete Pele. Por isso não seria uma surpresa que ao buscar o sapo na Bíblia você acabe dando de cara com um “falso profeta”.

Em Apocalipse, lá no final a Bíblia, o sapo sai da boca do dragão que sai da Besta e enfim do tal falso profeta. Mais ainda, o coitado do sapinho e sua língua ainda representam a existência do sobrenatural e como Coríntio diz, esse sobrenatural pode representar tanto Deus, quanto Satanás.

Agora dê uns passos para trás e lembre daquele ponto podre onde um dos irmãos morreu. É esse detalhe que leva “ela” ao porão (entenderam? “parte de baixo”, “submundo”), de onde sai o sapo e nos é apresentado a possibilidade que “ela” encontrará de esterilizar todos aqueles pecados mais para frente no filme. Mais especificamente no final (ou no começo).

Curiosamente, o sapo ainda tem mais alguns significados pela história, e todos não deixam de casar com a ideia de Aronofsky. De cara, animalzinho sempre simbolizou a fertilidade em religiões “menos cristãs” (vulgo àquelas que iam para a fogueira). Já na Alquimia, o sapo é o símbolo da matéria que sofre transformação.

E tudo isso passa a tomar conta do filme assim que o sapo cruza o caminho “dela” no porão. O que acontece na sequência é uma casa tomada de gente parente ou amigo de alguém, seja do morto ou da família. Todos invadindo os cômodos, quartos e tentando até eles próprios passarem por cima do trabalho “dela” (pintando suas paredes). E se na Bíblia o aviso vem do próprio Deus, aqui é a própria Mãe Natureza que avisa que existe um limite e esse limite é a pia que ainda não foi chumbada. Até “Ele”, ludibriado pela presença das pessoas, das histórias, da empolgação e de sua criação estar “nascendo” é avisado par não apoiar ali.

Mas todos apoiam, sentam e não dão a mínima para “ela”. O que vem disso é água para todos os lados e a solidão da casa sem mais ninguém a não ser os dois, que logo se tornarão três.

Nós te ajudamos a entender o filme Mãe!

Sim, Jesus e o Apocalipse

O que acontece em seguida é que “Ele” consegue aquilo que vinha tentando desde o começo: Completar sua obra. O que parece ser um poema, que para muitos é a forma mais perfeita e completa que uma mensagem ou sentimento pode ser passado.

Enquanto isso, “ela”, agora esperando o herdeiro “Dele”, consegue ter a força e a inspiração para fazer com que sua casa se torne um lar. Afinal a “enchente” limpou todos de lá. E ainda que a mancha de sangue não consiga sair do chão ela pode ser coberta com um tapete e esquecida.

Mas é a palavra “Dele” que fará a diferença, tanto para o bem, quanto para o mal. E nesse momento entre em cena aquela que para muitos é a misteriosa personagem da comediante Kristen Wiig, “Harald”, que em português poderia ser traduzido como “Arauto”, que pode ser confundindo na Bíblia com o próprio João Batista que, por sua vez, “acompanha” o fim dos tempos enquanto narra o último dos livros, o Apocalipse.

“mãe!” ruma então para seus momentos finais, onde “ela” está prestes a ter seu filho e, por fim se unir completamente com “Ele”, mas o que ela vê é o crescimento selvagem e violento da mensagem de seu marido. E se para cada pessoa na qual o texto toca o que nasce é uma interpretação diferente, em pouco tempo temos o nascimento de diversas linhas de pensamento, conflitos, guerra, violência e caos.

E que comece o fim dos tempos. “Bem aventurado aquele que guarda as palavras do profeta”, e quem não guarda irá receber a ira dos anjos e do próprio João, que nesse caso se transformam em um exército que surge pelas janelas e executa àqueles que não “guardam as palavras”. Mas “Ele” ainda é ludibriado pelo próprio ego, já que mesmo em meio ao caos e a violência encontra seus adoradores e prefere permitir que eles convivam separados do reino dos céus, ou melhor, o segundo andar.

Pega em meio a esse conflito, “ela” vê todo seu trabalho seu destruído, assim como sofre as duras penas de não seguir as palavras de seu marido de modo cego, afinal, ela é sua casa e vice versa, não existe como ela não sofrer com a violência daqueles atos. Sua única arma contra isso é não entregar a eles aquilo que pode lhes dar a falsa impressão de uma salvação. Mas “Ele” sabe que tem a seu favor todo tempo que precisar.

Mãe pode soar pretensioso ou sem sentido!

“Ele” precisa do fruto de seu amor, da figura que será enviada para a Terra para acabar com todos pecados, nem que para isso ele precise voltar ao Éden. Seu filho (sim, Jesus, recebendo até os presentes na hora do parto), nasce, mas “ela” não parece interessada em entregar sua maior criação nas mãos daqueles que destruíram sua casa. O resto da história vocês já devem imaginar. O “famoso” bebê Jesus é dado aos seguidores “da palavra”, em pouco tempo ele é morto e dividido entre seus seguidores (sim assim como em todas as missas com as hóstias, “corpo de Cristo”).

Diante de tamanha selvageria e do fim, literalmente falando, só resta a “ela” a ira, o terremoto “tão forte que dividiu a cidade três” (pode procurar lá em Apocalipse 16:19). E aqui por fim entra a mensagem ecológica que Aronofsky vem ensaiando desde o começo de “mãe!”.

Em poucas palavras, quanto mais o ser humano domina essa casa, mais ele destrói e violenta esse lugar e sua dona até que chegará o momento onde isso acabará de modo inflamado e sem salvar ninguém.

E mais uma vez, diante de seu egoísmo e da incapacidade de lidar com todos seus seguidores e com a cegueira criada pelo poder, “Ele” vê todo seu esforço em encontrar o equilíbrio ser destruído pela própria falta de capacidade em entender o que realmente precisa. Ao querer tudo, acaba apenas com nada. Acaba apenas com o construto artificial daquilo que poderia ser o seu amor, mas é apenas um símbolo, uma lembrança de que ele ainda terá um caminho inteiro a seguir novamente se quiser tentar outra vez encontrar seu amor.

Ele é Alfa e Ômega, é o princípio e o fim, o que era e o que há de vir. Um ciclo que não deve acabar enquanto “Ele” próprio não descobrir a importância de quem está ao seu redor e não somente daqueles que estão seguindo-o e apenas celebrando sua palavra. Muda “ela”, mas será que isso é suficiente?

Por fim, se você chegou até aqui comigo, pode não ter concordado com nada, ter acrescentado um monte de outras ideias (por favor, coloque nos comentários!) ou simplesmente passado a odiar ainda mais essa grande alegoria doida comandada por Darren Aronofsky. Mas o que importa é que ainda existe espaço no cinema para obras de arte desafiadoras como “mãe!”. Que venham mais e mais.

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