Cinefilia Crônica | Desliga você!


Eu era mais novo e me preocupava com palavras e expressões em extinção. Se minha geração não era adepta a termos como “supimpa” ou “brotinho”, desconfiava que em um futuro próximo ninguém soubesse o significado das saudações e despedidas “oi”, “tchau”, “bom dia”, “até amanhã” etc.

Percebia uma maior importância dada aos “e aí?” na chegada e “falou” na hora da partida. Tudo muito reduzido e diferente. Depois de um tempo, podia ser que eliminassem as saudações ao chegar e sair.

Eu era mais novo e já cultivava umas neuroses estranhas, umas manias esquisitas, umas preocupações malucas.

Esse prognóstico bizarro me veio à mente no último fim de semana, mas volta e meia ele ressurge quando assisto a filmes ou séries. Queria entender por que personagens não valorizam a boa educação ao telefone, especialmente quando “estadunidenses” (“afinal, somos todos americanos”, disse um amigo meio intelectual… meio de esquerda).

– Que horas jantamos hoje?
– Não sei, amor, que tal às oito?
– Oito? Ótimo.

E desliga o celular. Sem um beijo de despedida comum aos apaixonados ou uma discussão melosa do tipo “desliga primeiro”, “não, desliga você primeiro”, “ah, desliga você primeiro”, repetidos até alguém ao lado perder a paciência. Não há aviso, discussão ou pergunta se há algo mais a ser resolvido. Eles simplesmente desconectam o aparelho ou colocam o fone de volta no gancho (sou das antigas) e seguem a vida normalmente, como se nada tivesse acontecido.

Não importa o assunto. Já vi agentes do FBI desligando na cara do presidente. Mães ignoram a clássica recomendação de um casaquinho e um guarda-chuva, deixando os filhos ouvindo o “tututu” sem avisá-los prontamente. Já fui chamado de mal-educado e grosseiro por repetir o que aprendi nos filmes, mesmo quando a urgência de pegar o ônibus ou correr de algum perigo me impedisse de esticar o assunto antes de uma despedida com tempo adequado.

Confesso: entre as manias bizarras cultivadas desde meus primeiros anos de vida, cismei com a maneira errada das pessoas se tratarem antes de desligar o telefone nos filmes e séries. Cheguei ao ponto vergonhoso de fazer uma pesquisa com dezenas de amigos e amigas tentando a sorte no estrangeiro.

– Cara, é só no Brasil que inventaram de falar “alô” e dar tchau antes de desligar? É uma peculiaridade nossa, como o excesso de banhos? – e ouvia risadas, a dúvida, o depoimento de quem nunca passou pelo constrangimento de falar telefônico.

Eis uma prova do quanto podemos nos enganar enquanto nos deliciamos com as maravilhas do audiovisual. (quase) Ninguém tem um coração tão gelado a ponto de sumir, assim, como o mestre dos magos do outro lado da linha. Deve ser por isso que evito ligações internacionais no escritório em que trabalho: digo que meu inglês é macarrônico, mas tenho medo de uma crise pós-desligar repentino.

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