História de sobrevivência? Romance épico? Depois Daquela Montanha quer ser ambos, mas não consegue ser nenhum dos dois, já que o filme é tão insípido que consegue apagar até mesmo o carisma de Idris Elba e Kate Winslet. O resultado final é um longa esquecível, preguiçoso e que não parece ter energia o suficiente para explorar nada do que poderia ter a oferecer.

Em Idaho, a jornalista Alex Martin (Winslet) está indo rumo a seu casamento depois de fotografar neonazistas para o The Guardian. Enquanto isso, o Dr. Ben Bass (Elba) quer voltar para casa depois de participar de um congresso médico — ele tem uma cirurgia urgente no dia seguinte. (Estranhamente, vemos Alex frequentemente lamentando ter perdido a cerimônia, mas o paciente de Ben é rapidamente esquecido.) Uma tempestade iminente faz com que todos os voos sejam cancelados, os dois decidem alugar um avião particular, ir juntos até Nova York e, de lá, tentar encontrar voos para seus respectivos destinos. Como se não bastasse a tempestade que se aproxima, o piloto do avião, Walter (Beau Bridges) tem um derrame no meio do caminho. O avião cai, o piloto morre e a Alex quebra a perna — Ben e o cachorro de Walter, que havia acompanhado-os no voo, saem intactos. A partir daí, Alex e Ben tem que aprender a sobreviver no ambiente hostil das montanhas nevadas, a conviver um com o outro, a trabalhar juntos e, é claro, a lidar com os sentimentos que surgem entre eles.

O grande dilema de Depois Daquela Montanha — que foi escrito por J. Mills Goodloe e Chris Weitz a partir do livro de Charles Martin e dirigido por Hany Abu-Assad — é se o amor de Alex e Ben pode permanecer após a montanha, ou se foi apenas algo passageiro, nascido da circunstância inesperada dos dois. O problema é que o filme quer nos convencer de que a resposta lógica é o primeiro cenário quando, na verdade, é o segundo. O romance entre os protagonistas parece o que aconteceria entre duas pessoas atraentes cujas orientações sexuais são compatíveis em uma situação de vida ou morte em que eles encontram-se isolados de quaisquer outras pessoas. Não há nada de único ou de especial no suposto amor dos dois, já que ele surge aparentemente do nada, manifestando-se na forma de uma cena de sexo tão absurdamente sem graça que parece ter sido escrita por Stephenie Meyer.

Grande parte disso deve-se ao fato de que não há química alguma entre Kate Winslet e Idris Elba. Usualmente talentosos e carismáticos, os dois surgem aqui como se já estivessem exaustos da mediocridade de Depois da Montanha — e, assim, contribuindo diretamente para ela. Mas, tudo bem, eles merecem nosso perdão, já que é difícil fazer com que as frases que seus personagens são forçados a dizer funcionem. O pior diálogo do filme é, pasmem, justamente aquele que supostamente representa o relacionamento dos dois. Quando Ben fala sobre como a complexidade do cérebro e o fato de ele conter tudo o que somos o levou a ser neurocirurgião, Alex pergunta: “E o coração?”. Ben responde: “O coração é apenas um músculo.” Mais tarde, ele vai aprender que isso não é verdade, já que o filme prefere fazer com que essas duas pessoas que deveriam ser inteligentes abracem os clichês do romantismo para fingir que o coração tem realmente qualquer influência em nosso comportamento.

Depois Daquela Montanha Crítica

Mas o próprio filme prefere “pensar com o coração”, já que as decisões estúpidas tomadas pelos personagens começam já na decisão de alugar um avião particular em meio a uma tempestade. Para piorar, a perna quebrada de Alex faz com que Ben seja o responsável por praticamente todas as decisões da trama, já que a jornalista depende dele para tudo. A intenção é que Alex aprenda a não ser tão impulsiva e destemida e que tome decisões calculadas, enquanto a lição de Ben é que ele deve deixar de se isolar do mundo. Os personagens são tão rasos que essas se estabelecem como suas únicas características, já que nem o roteiro ou os atores trazem nuances à obra. Isso não é limitado aos protagonistas; o noivo de Alex, Mark (Dermot Mulroney) é impossivelmente perfeito, em uma tentativa de reforçar mais uma vez o quanto a paixão dela por Ben é maior do que tudo.

Visualmente, é claro, Depois Daquela Montanha é estonteante, mas isso é graças ao imponente cenário canadense e à fotografia competente de Mandy Walker, já que Hany Abu-Assad mostra-se tão inexpressivo quanto os demais elementos do longa. Assim, não há crueza o suficiente para destacar o lado “luta por sobrevivência” da história, e nem melodrama o bastante para tornar esta uma história de amor tão irresistível quanto o filme jamais chega perto de ser.


The Mountain Between Us” (EUA, 2017), escrito por J. Mills Goodloe e Chris Weitz a partir do livro de Charles Martin, dirigido por Hany Abu-Assad, com Idris Elba, Kate Winslet, Beau Bridges, Dermot Mulroney e Linda Sorensen.


Trailer – Depois Daquela Montanha

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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