por Leandro Marçal
31 de janeiro de 2018

Diziam que a gente combinava. Os convites para festas e eventos eram frequentes. O olhar foi de incredulidade no rosto de quem soube do fim. Há coisas insuportáveis para todos nós. Por isso nada é eterno.

Ela tinha qualidades inquestionáveis. Alimentava alguns defeitos, eu relevava. As DRs eram intermináveis durante a escolha do filme de sábado, até que decidimos alternar.

Na minha vez, pedia um de qualidade, com boas histórias e reflexões. Na dela, eram aqueles melosos, para encostar a cabeça no meu ombro, enquanto eu lutava contra o sono e tentava manter os olhos abertos. Numa dessas festas em que todos puxam papos para levar vantagem sobre quem não vê há tempos, seus familiares me olharam torto e mudaram de assunto quando eu critiquei um blockbuster cheio de tiros e explosões. Ouvi me chamarem de metido, ignorei.

Voltamos para casa com o som alto para evitar conversas. Dormimos cedo, um de costas para o outro. A coisa só piorou. Dias depois fui pacificamente obrigado a um programa de domingo em pleno cinema lotado.

Resisti o máximo que pude. Mas ela fez questão de saber o motivo para eu refutar a foto ao lado do cartaz. Tinha certeza da minha vergonha por estar ao seu lado, dizia já ter percebido. Meu constrangimento, na verdade, era pela cafonice de levantar os dedos diante de um papel impresso. Crianças eu até perdoo. Mas meu orgulho ferido não admite posar ao lado da Mulher Maravilha, Vin Diesel ou qualquer personagem do mundo. Duvido que meus pais usaram uma Polaroid para abraçar um papelão em tamanho real do Vito Corleone ou do Tony Montana.

A coisa já não estava bem. A semana de muito trabalho me cansou e não dormia bem naqueles dias. Não aguentei de sono e cochilei em meio à comédia boba. Os risos da plateia eram meu sonífero. Senti saudades da quinta série e meus trocadilhos tão banais, estúpidos e escatológicos quanto os daquela hora e meia.

Ela ria e me encarava logo em seguida. Eu tentava levantar as pontas dos lábios em sinal de bom humor, não conseguia.

A pá de cal veio nos créditos finais. Ela acompanhou o restante do público e aplaudiu. Sim, bateu palmas para um telão, como se ali estivessem presentes os atores e responsáveis pela película. Eu quase chorei, como ela nunca fez nos filmes escolhidos por mim – chatos, sem graça, não têm pé nem cabeça, cansou de repetir.

– Por que você tá batendo palmas?
– Todo mundo fez isso, só você não.
– Claro, porque não faz sentido aplaudir um telão.
– …
– Já viajou de avião?
– Acho que uma vez só, mas o que tem a ver?
– Bate palmas quando ele pousa?
– Quê?
– Sério, faz isso ou não?
– Não lembro, sei lá. Primeiro não quis tirar foto, agora vai implicar com as palmas. Que tá acontecendo?

Tivemos uma conversa séria e definitiva. Era melhor ir cada um para o seu lado e terminar tudo assim, numa boa. Nos encontramos há algumas semanas e trocamos umas boas ideias sobre a vida, mas evitei tocar nos gatilhos para novas brigas. Sou bem paciente, mas não me vejo ao lado de alguém tirando foto com cartazes e aplaudindo um telão com créditos subindo em uma tela preta.

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Sobre o autor

Leandro Marçal é escritor, careca e ansioso. Faz listas de filmes, séries e livros; nunca terminou uma. Crônicas e humor já lhe salvaram de problemas, mas lhe trouxeram alguns. É fã de ironia, acidez e sarcasmo.

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