Cinefilia Crônica | O limite do humor


Entramos na sala e eu já me sentia contrariado. Na escolha do filme, ela insistiu para assistirmos à comédia recém-estreada. Segundo o cartaz, o protagonista é conhecido pelo personagem engraçadíssimo do programa de humor. Eu me recusaria a pagar para ver um de seus filmes em outras ocasiões. Ela ria demais com suas piadas e gestos divertidos, não perdia suas participações semanais na telinha, me disse enquanto eu já me tremia. 

Quis ser gentil no primeiro encontro. Não iria criticar as piadas bobas do  programa sem graça, com piadas de humor ultrapassado, que o projetou à fortuna e a milhões de seguidores. Tampouco falaria da repetição do personagem a cada semana. Mal começava seu quadro, já era capaz de entender a situação que o faria repetir o mesmo bordão da semana anterior, gerando risadas gravadas como trilha de fundo. 

A sala lotada me deu desespero. Me senti isolado no campo inimigo, procurei sinais de alguém tão entediado quanto eu. Previ uma hora e meia com piadas sobre peido, merda, cor da pele, orientação sexual e deficiências físicas. Tudo para justificar a fama de politicamente incorreto, mesmo que os criadores daquele desperdício de tempo fossem incapazes de definir o significado da expressão.

Não poderiam faltar, é claro, as risadas quando peitos e bundas cobrissem a tela. Meu pânico só aumentava. Havia, ainda, o núcleo dos pobres, gritando e falando errado, de maneira caricata e surreal. De um lado e de outro, vi pessoas chorando de rir. Não conseguia achar graça naquele espetáculo grotesco, evitava cruzar olhares com ela, por medo de não haver um buraco no qual pudesse me enterrar de tanta vergonha.

Quando o protagonista gritou, fazendo gestos estapafúrdios, tentando passar uma mensagem para o personagem estrangeiro, arregalei os olhos. Ele gritava algo sobre um gringo burro, e o suposto gringo burro ficava repetindo gringo burro, como se ali descobrisse uma expressão fundamental para a sobrevivência no país desconhecido. 

Na fuga do protagonista, uma idosa caiu e o público veio abaixo. Permaneci imóvel. Ela me olhou e perguntou se o filme não era hilário, se aquele ator não era engraçadíssimo mesmo. Voltei meu olhar incrédulo para a telona. Eram pipocas caindo no chão, cotoveladas no estilo “entendeu? entendeu?”. Me senti paralisado, preferia ir ao dentista e fazer um canal sem anestesia que estar ali. 

Nada me fazia esboçar reações de alegria. No máximo, senti receio de ser visto ali, assistindo àquela porcaria sem graça, mas adorada pelos que aplaudiram os créditos depois da exibição. 

Na volta para casa, tentei mudar de assunto quando ela me perguntava sobre o filme. Dava risadas sozinha, lembrando uma tentativa de piada horas atrás. Era hilário, bom demais, dizia. Para completar, mudou a estação de rádio para ouvir um sertanejo universitário antes de nos despedirmos.

No dia seguinte, colegas de trabalho me perguntaram do encontro, desconversei, falei de relatório, planilhas, não voltei ao assunto. Ela falou a alguns amigos em comum que sou mal humorado demais. Cético, agradeci aos céus. Nunca mais nos vimos.

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