Cinefilia Crônica | O barulho do tapa na cara


Enquanto jantava, ouvia a discussão do casal na mesa ao lado. Não sou assíduo frequentador de restaurantes, mas há vantagens em viajar a serviço. Percebi que, embora falassem baixo e polidamente, o assunto era sério e a irritação mútua. Até o inesperado tapa na cara, a cadeira arrastada, a moça ajeitando a bolsa e indo embora, o moço implorando seu retorno e a cara de gol contra. 

Paralisado, evitei trocar olhares constrangidos e voltei a encarar meu prato. Me senti decepcionado. Não pelo princípio de barraco atrapalhando meu descanso antes de voltar ao hotel e estudar para a reunião do dia seguinte. A frustração era pelo barulho do tapa na cara ser bem diferente dos estalos cinematográficos. 

Não houve romantismo no desentendimento em local público. Muito diferente dos términos de relacionamentos e flagras de traição nas telonas. Nelas, a mão toca a bochecha de um lado e acompanha o movimento do rosto. Quem agrediu se arrepende logo em seguida, ou dá as costas e sai andando. O som é bonito e familiar. Parece um único aplauso. 

Quando a mão não acompanha o movimento do rosto e para na bochecha, com o rosto do estapeado impassível, criticamos a cena. Qualificamos a atuação como fraca, sem verossimilhança. Tiveram medo do vermelhão na face, não pareceu real. Queremos um tapa de verdade, ansiamos pela entrega de agredidos e agressores nessa atuação dramática.

Enquanto cortava a carne, pensei nas coreografias de luta. Devem ser mais fáceis de se executar que as cenas de tapa isolado. Nas brigas aceleradas, a movimentação intensa deixa os personagens em pé de igualdade. O tapa na cara não: ele humilha, cala quem o recebe, com exceção dos grandes vilões. Eles olham eventuais gotas de sangue em sua pele áspera – não acredito em vilões com peles lisinhas – puxam a mocinha pelos braços e seguem com suas maldades, com um sorriso maléfico. 

O estapeado no restaurante pagou a conta e foi atrás da amada. Torci para que se reconciliassem para evitar novas cenas vexatórias como aquela. Preocupados com a vida alheia, vizinhos de mesa se perguntavam sobre o motivo do tapa. Ele deveria ser um canalha, ela deveria ser uma barraqueira.

Pensei nos filmes. Lá, os tapas são mais bonitos. Nunca fiquei constrangido quando um casal se estapeava nas telonas. Pessoalmente, a estética desses barracos me constrange, eu preferia estar em qualquer outro lugar a presenciar a humilhação de agredidos e agressores.

Pedi a conta, não quis sobremesa. Precisava estudar para a reunião do dia seguinte. Cheguei ao chegar no hotel, liguei a televisão e me peguei o resto da noite me divertindo com uma comédia romântica. Na cena em que o casal protagonista se estapeia antes da reconciliação, eu já estava dormindo.

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