Cinefilia Crônica | Meu Amor de Mãe


Eu sei que precisamos falar sobre essa compulsão de textos começando com um “precisamos falar sobre qualquer tema”, mas precisamos falar sobre Amor de Mãe. Muito! O tempo todo, se for preciso. Porque não consigo passar um dia sem falar dela.

Nunca tive muita paciência com novelas, mas sempre me mantive bem informado, desde uma rápida visualizada nas capas das revistas enfileiradas nas bancas de jornal, até deslizar a tela pelas manchetes nos sites de entretenimento.

E foi durante um almoço em família que o intervalo comercial me chamou atenção para a nova obra escrita por Manuela Dias, a mesma da minissérie Justiça, que me fazia correr do trabalho para casa. Sua primeira novela seria protagonizada pelo trio Regina Casé, Taís Araújo e Adriana Esteves.

Não havia a menor chance daquilo ser menos que bom demais, pensei. Não era possível que mais de 11 anos após o término de A Favorita eu voltaria e me disciplinar para não perder capítulos, abrindo mão de chegar cedo nas festas de sábado e sentindo ansiedade pelo boa noite de William Bonner. Mentira, era possível sim. Possível, provável… era certeza.

Desde então, passo os dias papeando em grupos de WhatsApp de família e amigos sobre a identidade de Domênico, o filho roubado de Lurdes. Critico as loucuras de Thelma, uma mãe obcecada por controlar a vida do filho, Danilo, e sentenciada à morte por um aneurisma cerebral. Aliás, não quero acreditar que Danilo tenha sido comprado de Kátia, a vendedora de crianças já falecida, não é possível que Manuela esteja fazendo isso com a gente.

Não, não. Ela está brincando com o público. Deve rir da gente a cada reviravolta espetacular, mostrada por câmeras em longos planos, com atores e atrizes de costas para nós, em um naturalismo de dar inveja a produções mais caras e com menos qualidade no texto. E nós, os viciados, gostamos demais dessa brincadeira, desse jogo.

Não se fala de outro assunto no Twitter entre as 21h17 e 22h22, horário de exibição da novela segundo o decodificador da TV por assinatura. Meus amigos jornalistas esportivos, analistas econômicos e políticos, professores, escritores e formadores de opinião só falam da força de Vitória, das canalhices de Álvaro, do jeitão despojado de Durval.

Criamos um bolão para ver quem adivinha a real identidade de Domênico. Descartado o Sandro de Humberto Carrão, uns dizem que era o Vinícius de Antônio Benício. Aliás, vê-lo enterrado pelo pai Murilo Benício, na vida real e na ficção, foi pesado. Ê, Manuela!

Nos últimos meses, sou chamado de noveleiro, mesmo acompanhando apenas Amor de Mãe. Meus amigos e minhas amigas, noveleiro é quem escreve, atua e dirige no folhetim, sou apenas um espectador entusiasmado. Desses que até perdoa o excesso de coincidências muito loucas. Afinal, é uma novela, é ficção, então tá valendo!

O que não vale é me ligar entre as 21h17 e 22h22 para falar da rodada do fim de semana ou marcar compromissos sérios nesse horário. Não quero saber da rodada do fim de semana, seus problemas familiares, as contas a pagar, os trabalhos pendentes e outras banalidades do cotidiano.

Até o fim de Amor de Mãe, nenhum assunto será mais importante que a novela das nove.

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