Cinefilia Crônica | Meia La Bamba, meia catupiri


Quando a emissora interrompeu a programação para o plantão de notícias, saí da minha mesa, aumentei o volume e me aproximei da televisão do escritório. Uma novidade insana da política brasileira, um incêndio gigantesco, um atentado terrorista ou a morte de um famoso eram minhas apostas para aquele susto. Mais gente se aproximou para se informar.

Dei graças aos céus por não estar sozinho em casa como nas tardes em que as vinhetas de plantão me faziam desligar a TV com medo. A morte do cantor Gabriel Diniz em um acidente aéreo chocou os presentes pela estupidez do destino, pelas circunstâncias trágicas, pela morte em si.
– Coitado, tanto sucesso, morrer assim… Parece até o La Bamba, já viu o filme? Muito bom, mas triste…

É evidente que vi o filme e não respondi à pergunta retórica e desafiadora do chefe. Depois de pegar um café, se posicionou à frente da TV, jogou a frase no ar e voltou para sua sala com indiferença.

Encarando a TV, pensava naquela noite de sexta-feira. Meu pai viajava a trabalho e minha mãe fez uma rara concessão a mim e a meu irmão mais novo. Naquela época, pizza aos fins de semana só era uma opção em visitas raras e festas mais raras ainda.

Talvez pelo cansaço da tarefa de aguentar as perguntas intermináveis dos filhos, ela nos deixou escolher o sabor. Mas precisava ser logo, o filme começaria em pouco tempo. Enquanto ela ligava, discutíamos. Chegamos ao consenso de catupiri como sabor único dos oito pedaços. Gritamos e ela sinalizou, meio sem paciência, meio com voz educada para a moça da pizzaria entender o pedido.

O filme chegava aos 15 minutos quando o motoqueiro buzinou. Gritamos, comemorando a realização do sonho de sexta. Minha mãe não comeu, tampouco contestou o sabor exótico.
E pediu silêncio. Pouco adiantou. Perguntei se o filme era baseado em fatos reais. Meu irmão queria saber o que era um filme baseado em fatos reais. Perguntei se Ritchie Valens fez muito sucesso no México, meu irmão pediu para ver no mapa onde era o México, se antes ou depois da escola.

Cantamos um “lá lá lá lá La Bamba” e perguntamos se nossos pais já tinham viajado de avião. Meu irmão perguntou os motivos para nunca viajarmos juntos de avião, nós quatro. Não era fácil, custava caro, disse minha mãe. Meu irmão falou em buscar seu cofrinho escondido embaixo da cama, mas mudou de ideia.

E choramos quando Valens morreu. Não escorreram lágrimas das cinco rodelas de tomate, nem das bordas sem recheio. Aquele monte de catupiri foi testemunha de nosso sentimento pela morte do jovem artista.

Tanto tempo depois, olhei meu celular e meu irmão perguntou sobre a morte do cantor daquela música do carnaval. Espero que ele também tenha lembrado aquela noite de sexta-feira.
Voltei para a mesa e pensei naquela noite mágica da infância. Muitos anos antes, a muitos quilômetros daqui, uma tragédia seria necessária para uma pizza nostálgica diante de um filme de outro tempo. Abri os relatórios e continuei trabalhando. O telefone tocou, atendi e disse os nomes da empresa e o meu, seguidos de uma saudação de boa tarde falsamente cordial.

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