Cinefilia Crônica | E o vilão caminha, lentamente…


Sem pressa, como as senhoras paradas no meio da feira, segurando os carrinhos com de verduras e legumes machucados, conversando sobre a família e um outro tempo, melhor que o atual, tão indecente e descrente. Ou no meio da calçada, interrompendo os passos largos do engravatado atrasado, que não entende a inutilidade da pressa.

É o mesmo caminhar. Enquanto mocinhos e mocinhas inocentes correm suados e ofegantes, passando por salas procurando ajuda ou chaves, apressados para adiar a morte, tentando arrombar janelas, descobrir senhas secretas, sair do cenário de terror.

E o vilão caminha, lentamente. Anda em ritmo de romaria e depois de alguns segundos alcança quem há de aterrorizar-nos para tirar-lhe a vida. Elegante, faz questão de dar passos firmes, sem medo. Prepara um assassinato marcante, deixando os espectadores ainda mais agoniados do outro lado da tela. O sangue não escorre por ela e ninguém precisa abrir um guarda-chuva para o caso de aquele líquido vermelho sujar o rosto.

Boletos, envelhecimento, doenças incuráveis, cobranças conjugais, ciúmes, neuroses. E a morte. Estão atrás de nós. Por mais que façamos esforço para copiar os maratonista e correr o quanto pudemos, o caminhar lento da vilania nos alcança. Mais dia, menos dia, nos alcança. Emitem aquele olhar com sorriso de satisfação, sarcástico, tendo espasmos com a tragédia cotidiana.

Na vida real, os vilões não precisam caminhar segurando um machado ou uma arma capaz de destruir o mundo, mas portam canetas, cartas, carnês de dízimo. E nessa mesma vida real, aprendemos um pouco da inutilidade da vilania ou se esconder nos cantos dos quartos. Ainda assim, seguimos acelerados, sem saber para onde ir. Do outro lado da tela, quem convive conosco tenta avisar que há alguém nos perseguindo. Seu grito é tão inútil quanto o das crianças avisando a vovozinha que o lobo mau irá comê-la, depois de quebrar a quarta parede e contar seus planos maléficos.

Nós, que nos julgamos mocinhos e mocinhas, não ouvimos os tais gritos. Andamos na mesma direção. O mal nos encontra e joga na cara a mesma burrice dos que abrem a porta da casa em plena escuridão nos filmes de terror, quando há a suspeita de um monstro rondando a vizinhança.

Os vilões e as vilãs caminham, lentamente: engravatados, quase sem roupa, no poder público, na vizinhança, na chefia, na fofoca do colega buscando uma promoção, nos sogros e sogras, na traição, na falsa amizade que não nos devolve aquele dinheiro emprestado com boa fé. Aqui, ali. Lá fora, dentro de nós.

Quando nos descobrimos os verdadeiros vilões da trama, percebemos nosso lento caminhar e ficamos chocados. Se evoluímos a ponto de notar que alternamos momentos de vilania e bom mocismo, deixamos de nos confundir com a ficção. E não adianta correr, a hora do encontro com o terror vai chegar. Mais dia, menos dia.

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