Cinefilia Crônica | Beijos não matam


Dois homens se encaravam com olhares tensos. E intensos. Eles se aproximaram com falta de jeito, um tocou a nuca do outro com as mãos. Deram um beijo. Um beijo quente, desses que geram constrangimento quando há pais e filhos menores de idade vendo filmes na sala de casa, depois de comer uma pizza.

Disfarçadamente, todos olharam para meu xará, que respirou com força e indignação. Balançou a cabeça em tom de reprovação, levantou sem falar nada, se afastou dos pufes encostados na parede da sala do apartamento de nossa amiga descolada, fez malabarismo para não pisar em quem estava deitado entre colchonetes e almofadas, bateu a porta e saiu. Deu para ouvir o barulho dos seus passos rápidos e o elevador parando no andar.

Sabia que não ia dar certo, alguém disse. Meu xará já disse incomodar com indecências, mesmo em filmes, como os modernos. Já não se faz mais cinema como antigamente, costuma bradar.

Para ele, a televisão não presta e só ensina coisas erradas. Já bateu panelas em seu apartamento e foi em manifestações gritando contra esta ou aquela emissora de alcance nacional.

Ele não voltaria para testemunhar a paixão dos dois homens desnudos em uma cena de sexo forte, cogitamos.

Para um dos presentes, lhe faltava sensibilidade artística. Para nossa amiga descolada, lhe sobrava intolerância. Não havia motivos para se incomodar com um casal do mesmo sexo trocando carícias e fluidos. Nunca há. Era só um filme, disseram alguns. Mas e se fosse a realidade, não faz o menor sentido se preocupar com o que os outros fazem com suas saliências, questionaram outros.

Conversávamos sobre o dia em que ele agrediu uma travesti ao voltar da balada. Ninguém entendeu bem o motivo e a vida continuou. Nossa amiga descolada pediu silêncio para entender o filme. Nele, os dois homens já moravam juntos e enfrentavam preconceito de familiares, amigos e colegas de trabalho. A raiva do meu xará virou o assunto nas conversas entre os presentes no apartamento, tomando cerveja enquanto nossa amiga descolada se atentava às legendas.

Lembramos o interesse do meu xará pelo cinema mais violento. Ou viril, como diz. Alta velocidade, tiros e porradaria bruta são sua preferência. Nem precisa ter muita história e mimimi, repete sempre que pode.

Alguém estranhou ainda mais: que coisa esquisita ele não se incomodar com sangue e morte, chutes e socos, ossos quebrados e gente desfalecendo, ainda que seja ficção. Duas pessoas se amando é indecente, violência gratuita não.

Um pouco irritada com o fim triste do filme, nossa amiga descolada levantou para atender o interfone. Meu xará voltou, para surpresa de todos.

– Pessoal, tava de saco cheio com esse filme sem graça. Fui tomar um ar e aproveitei pra comprar pizza. Frango com catupiri, portuguesa e essa aqui é a marguerita. Dá pra todo mundo. Pensei em trazer uma de calabresa, mas achei melhor não, né, nem todo mundo gosta…

Alguém desligou a televisão, ficamos em silêncio e fomos para a cozinha. Dividimos as pizzas e falamos de outros assuntos. Nada de cinema.

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