Churchill é uma pálida tentativa em reviver os últimos momentos da Segunda Guerra sob a prisma do polêmico e brutal ministro britânico. Parecendo feito para televisão e sem muita atmosfera nem história para conseguir realizar a imersão necessária na história, seu principal defeito é acreditar piamente que o que está sendo visto na tela é emocionante e honroso, simplesmente por ter em seu epicentro o glutão inglês mais famoso da política recente.

Este é um filme que também confia desmedidamente de momentos-chave da história do protagonista, narrados com tanta reverência que se torna muito semelhante a Lincoln. A diferença está que enquanto o filme de Spielberg se favorece da cara produção de época e de uma fotografia que exalta religiosamente a figura do presidente americano como um ícone, aqui não há produção cara nem um líder carismático. Churchill está passando por sérios problemas de autoridade e senilidade, o que o tornam mais um estorno do que um exemplo, seja diante dos generais com quem dialoga, seus funcionários, seu melhor amigo e até sua esposa.

No entanto, ainda assim este poderia ser um filme que retratasse seu declínio e sua frustração perante as diferenças entre a guerra que lutou (a Primeira) e esta, onde os comandantes se posicionam à distância das batalhas, e líderes de Estado tomam chá dentro de suas casas enquanto cidadãos se sacrificam pela nação. A grande mudança de movimentos em massa trazidos pela tecnologia e a criação de símbolos carismáticos para a exaltação do patriotismo trazido pela mídia fez uma verdadeira revolução na forma de conduzir guerras. E o velho soldado, atormentado pelos fantasmas do campo de batalha, agora luta contra seus próprios instintos e sua falta de racionalidade para lidar com o fato de que, mais uma vez, haverá um massacre de jovens pelo deus da guerra.

O que acontece de fato no filme roteirizado pelo estreante Alex von Tunzelmann é uma série de momentos históricos mesclados com aspectos pessoais da figura histórica – incluindo os trejeitos do primeiro-ministro – que tentam inutilmente trazer relevância a esta figura em talvez um dos seus momentos menos inspirados. Churchill aqui não protagoniza nada de fato, e parece no máximo ser um deprimente retrato dos civis frente aos horrores da guerra moderna. Ele bebe demais, fuma demais, esbraveja, grunhe, mas nada pode fazer. Reclama aos quatro cantos, e grita com quem pode gritar. Seu único subterfúgio são seus discursos para a nação. E estes se encontram em franca ameaça em frente ao Dia D.

E o diretor Jonathan Teplitzky (Uma Longa Viagem) realiza um trabalho preguiçoso, desses que nomeia os dias antes do Dia D, que realiza tomadas que pretendem ser grandiosas, como a figura de um Churchill passeando pela praia, como a tentar produzir uma foto icônica do primeiro-ministro e sua relação com o passado traumático e o futuro que o espera. Mas nada disso de fato demonstra quem é esta pessoa e o que ela significa no grande plano das coisas naquele momento. O resultado aparentemente é o oposto: Churchill é um zé-ninguém. E tudo o que vemos a respeito de suas ações é em vão. Ele nada pode fazer, e este filme é sobre sua auto-tortura sabendo disso.

Churchill Crítica

Ao mesmo tempo o filme parece tentar eximir a responsabilidade do primeiro-ministro pelos seus atos, demonstrando certa ignorância em aspectos da História conhecidos hoje, como o poder de ação de Churchill foi vital para a entrada do Império Britânico em ambas as guerras. Ironicamente, a persona mostrada no filme reforça mais ainda os delírios deste senhor que é considerado por muitos o maior inglês de todos os tempos. (Esse detalhe é inclusive mostrado no filme nos créditos finais).

Se sem uma grande produção e apenas com momentos reflexivos o filme se suporta pesadamente na atuação dos atores, estes nada podem fazer frente ao fraco material de diálogos e situações. Brian Cox até tenta, aqui e ali, puxar os trejeitos da figura história que revive, além de tentar criar seu próprio padrão do que seria uma “pessoa iluminada”. No começo o vemos dedicado em escolher as palavras certas para se dirigir aos comandantes militares que irá encontrar. No final da cena vemos que o que ele tinha a dizer era simplesmente uma frase. E nada funcionou como planejado. Além disso, a repetição insistente nas justificativas vazias de Churchill (o grande motivo pelo qual ele faz as pessoas em sua volta sofrerem é pela guerra) chega em um momento de saturação, onde não nos importamos mais com o destino do sujeito.

Churchill, assim como Dama de Ferro, parecem mostrar que os britânicos possuem sentimentos mistos a respeito de seus líderes políticos. Ainda assim, seria divertido acompanhar toda a ambiguidade do uso do poder para sacrificar jovens soldados por uma causa enquanto os reis se trancam no castelo. Mas nada disso importa quando temos que ouvir insistentemente uma trilha sonora que venera automaticamente uma figura polêmica da História sem sequer demonstrar por que ele é polêmico em primeiro lugar.


“Churchill” (RU, 2017), escrito por Alex von Tunzelmann, dirigido por Jonathan Teplizky, com Brian Cox, Miranda Richardson, John Slattery e Julian Wadham.


Trailer – Churchill

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