O que é a vida? A definição científica clássica nos diz que:

“Vida é a condição que diferencia animais e plantas de matéria inorgânica, o que inclui a capacidade de crescer, de reproduzir e a mudança constante que leva até a morte.”Chappie Poster

Ok. Entendemos esta definição, pois nós mesmos (isto é, eu aqui escrevendo e você aí lendo) estamos vivos. Mas como explicar o que é estar vivo? O que nos estabelece como seres-vivos? Será esta definição suficiente? O que falta à definição acima é o valor imensurável que a vida possui. Um valor não palpável que vai além de habilidades mundanas como a reprodução. O cerne da questão é que, sem vida, não há nada; pois nada existe sem a presença de um observador. Em outras palavras, o Universo está aqui, pois estamos aqui para observá-lo.

Mas isso vale para todas as formas de vida? Certamente a nossa capacidade de percepção do mundo que nos cerca é bastante distinta daquela de uma ameba, ou mesmo de um cachorro. Desta forma, podemos nos questionar: o que nos qualifica como seres humanos? O que nos torna especiais? O que nos diferencia dos outros animais de nosso imenso planeta? E a resposta aqui é bem simples: a consciência. A consciência de nossa existência e do mundo ao nosso redor é o que nos torna especiais, é o que nos torna únicos. Sendo assim, como singulares seres conscientes, nós somos também os únicos observadores de tudo. Nós somos, assim, os criadores do Universo. Sem a nossa consciência, nada existiria. Pois, sem nós, querem iria observar as maravilhas de nosso planeta? Quem iria explorar as belezas de nosso sistema solar? Quem iria se deslumbrar com o que há à nossa volta? Simplesmente não existiriam maravilhas no cosmo, se não houvesse quem se maravilhasse com elas.

Ainda assim, resta mais um intrigante questionamento. São todos os observadores iguais? Se não, o que nos define como indivíduos? O que me diferencia de você aí que me lê agora? Sabemos que, por mais que muitos de nós tenham experiências similares, nós somos todos – ao menos um pouco – diferentes uns dos outros. As mudanças constantes em nossas vidas levam até mesmo gêmeos univitelinos a desenvolverem vidas, experiências e visões divergentes do mundo no qual habitam. Em outras palavras, somos todos criadores de nosso próprio Universo. E é, portanto, a nossa consciência individual que nos define não apenas como seres humanos, mas também como indivíduos. É ela a grande responsável pela existência do Universo em que vivemos. Ela é, por conseguinte, o elemento básico que cria a realidade.

E é a nossa percepção deste valor inestimável que a vida tem, como hospedeira de consciências, que faz com que nos identifiquemos tanto com outros seres, sejam eles inteligentes criaturas como golfinhos e cachorros, ou humildes organismos como formigas e borboletas.

É por isso que nossa identificação com o personagem central do novo projeto de Neill Blomkamp, o robô Chappie, é imediata, a partir do momento em que seu criador, Deon, instala um upgrade de Inteligência Artificial no robô, tornando-o capaz de pensar. O upgrade é, não coincidentemente, intitulado de Consciência.

Embora central à trama, o longa aborda também outros temas. O filme nos mostra uma Johanesburgo (África do Sul) tomada pela violência, na qual a polícia local opta por uma saída não convencional, a utilização de robôs humanóides em substituição aos policiais humanos. Os robôs são um projeto desenvolvido por Deon Wilson (Dev Patel), um gênio da computação que, insatisfeito com a versão atual de seu projeto – robôs capazes apenas de seguir limitadas e controladas ordens pré-estabelecidas -, define como objetivo pessoal o desenvolvimento de um upgrade que os permita aprender e continuar evoluindo como se fossem uma pessoa de verdade. Embora bem-sucedido em sua empreitada, Deon não recebe o sinal verde da empresa onde trabalha para testar seu novo programa. Entretanto, decidido a dar “vida” a sua criação, Deon não dá ouvidos à sua chefe e “sequestra” um dos robôs que estava para ser sucateado para testar seu novo projeto. É aí que tudo muda. No caminho de casa, Deon – e o robô – são seqüestrados por bandidos em busca de um “upgrade” em sua capacidade de cometer delitos. Com um robô capaz de ser ensinado a fazer qualquer coisa, o grupo de criminosos passa a cometer crimes muito maiores e, também, a chamar a atenção de todos. Deon precisa então achar uma forma de salvar Chappie dos marginais e, especialmente, da própria polícia, que passa a ter como prioridade encontrar e eliminar a nova ameaça à cidade.

Construindo o primeiro ato como clara reverência aos anos 80, o filme se apresenta inicialmente quase como uma releitura de RoboCop (o de 1987, não o recente). Só que, enquanto Alex Murphy se transformava em um robô – ou ciborgue – após um “acidente de trabalho”, aqui temos o inverso ocorrendo; um robô que se transforma em um ser consciente (ou poderíamos dizer, um ser humano) após um similar acidente de trabalho (em ambos os casos o protagonista “morre” após ser baleado). As alusões aos anos 80 não deixam de ser interessantes – chegando ao ponto de apresentar uma cena em que Chappie assiste a um episódio de He-Man -, porém, essa abordagem por vezes parece exagerar na veneração àquela época e, por um período de projeção muito longo, o filme fica carecendo de uma identidade própria.

Entretanto, a partir do momento em que o foco se volta para o lado “humano” do robô e por sua busca pela sobrevivência, o projeto passa a ganhar camadas muito mais interessantes e complexas do que o típico filme blockbuster americano. E as questões levantadas no terceiro ato quando o potencial máximo por trás de um capacete neural – dispositivo que lê os pensamentos de seu usuário – é explorado, o longo, de fato, alça um vôo mais alto do que se poderia esperar. São essas questões levantadas pelo longa – ainda que não profundamente exploradas – que dão a ele um ar especial. Questões estas que verdadeiramente podem levar o espectador a uma profunda reflexão sobre a sua – e a nossa – existência.

Chappie Crítica

Enquanto o pano de fundo filosófico que o filme carrega consigo surpreende e fascina, nem tudo que vem em primeiro plano tem a mesma eficácia. O primeiro ato possui o problema já citado de falta de identidade, enquanto o segundo e terceiro oscilam entre fantásticas cenas de ação e outras, bem, nem tão fantásticas assim.

Ao mesmo tempo em que os efeitos visuais saltam aos olhos devido a seu realismo mecânico (fugindo com maestria da incômoda sensação de falsidade dada por filmes que são regados a imagens feitas por computador), Chappie falha em sua fotografia ao 1) remeter demais aos anos 80 e 2) remeter demais aos outros projetos de Blomkamp. O uso característico de tons de azul (presente em todos os trabalhos do diretor), ter Johanesburgo como pano de fundo e a própria forma como a cidade é mostrada (tanto na escolha das locações, como no design de produção), trazem a sensação (correta talvez?) de que esta é uma continuação – ou pré-continuação – de Distrito 9. Embora possível, a ligação entre os filmes não faria sentido ou sequer ofereceria qualquer tipo ganho ao projeto. Em outras palavras, essa “proximidade” entre os trabalhos de Blomkamp começa a soar mais como falta de criatividade do que qualquer outra coisa.

Já no âmbito das atuações, Dev Pastel faz um bom trabalho, enquanto os integrantes do grupo de rap-rave Die Antwoord surpreendem dando vida aos criminosos Ninja e Yolandi (curiosamente, também seus “verdadeiros” nomes) com um convincente ar de “manu da ZL” que só mesmo verdadeiros habitantes do gueto sul-africano seriam capazes de proporcionar. Mas quem rouba a cena mesmo é Sharlto Copley. Responsável pela voz, assim como pela captura de movimento de Chappie, Copley é o ser mais humano e realista do longa. Algo construído de forma totalmente proposital por parte de Blomkamp e que é, sem dúvida, um dos pontos fortes do longa.

Já a trilha original composta por Hans Zimmer cumpre seu papel, mas é a inclusão de inúmeras faixas dos trabalhos da banda Die Antwoord que traz algo de especial a parte musical do longa e que o, felizmente, diferencia dos outros projetos do diretor.

Com seus altos e baixos, Chappie conquistará uns e afastará outros. Ainda assim, uma coisa é certa, em um longa que levanta tantas questões transcendentais na tela, nada seria mais acertado do que ter como trilha sonora Die Antwoord (A Resposta).


Chappie (2015), escrito por Neil Blomkamp e Terri Tatchell, dirigido por Neil Blomkamp, com Dev Patel, Sharlto Copley, Ninja, Yo-Landi Visser, Jose Pablo Cantillo, Hugh Jackman e Sigourney Weaver.


Trailer – Chappie

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