Se é possível apontar alguns filmes como obrigatórios, talvez Casa Grande seja um desses exemplos. Obrigatório para quem gosta de cinema. Obrigatório para quem vive no Brasil. Obrigatório para quem é adolescente. Obrigatório para quem já foi adolescente.

E como fica óbvio, o título esbarra na obra de Gilberto Freyre, e não só em termos estruturais, mas também na ambição de traçar um retrato detalhado de uma sociedade. E ainda que isso pareça pretensioso demais para o roteiro de Felipe Barbosa (que também dirige) e Karen Sztajnberg, a verdade é que ambos são extremamente felizes ao partirem de um ponto tão simples e conseguirem discutir tantos assuntos em um período tão curto de tempo.

No topo dessa Casa Grande está Hugo (Marcelo Novaes em um trabalho surpreendentemente correto), um pai de família tradicional, daqueles que toma seu Whisky em sua hidromassagem antes de dormir. Como se estivesse sozinho nesse mundo, apaga as luzes que ficam às suas costas enquanto demonstra o poder total sobre seu ambiente. Mas entre uma piscada e outra do alarme, a luz que acende é do quarto de seu filho Jean (o ótimo Thales Cavalcanti), enquanto foge para a casa da empregada (Senzala?).

E é a partir daí que nasce Casa Grande, desse jovem de 17 anos, que a vida inteira viveu sob a asa dos pais e de um escudo formado pela riqueza da família. Mas aos poucos esse dinheiro começa a acabar, ao mesmo tempo que ele próprio começa a perceber que existe muito mais ao redor de sua vida do que o caminho entre sua casa e a escola visto de dentro do carro com seu motorista.

O filme de estreia de Felipe Barbosa então, sobre qualquer coisa, é sobre essa adolescência, sobre os rumos do futuro, vestibular, independência, virgindade e mais um monte de outros clichês do gênero, mas ainda assim tem uma firmeza enorme para se aprofundar em tudo aquilo que deve ser discutido. Jean acaba repetindo na escola boa parte do que seu pai fala em casa sobre assuntos delicados, mas é só aos poucos que acaba percebendo que pode ter suas próprias opiniões.

Casa Grande Critica

E para chegar ai, Casa Grande não tem a mínima vergonha de até discutir certos assuntos, como cotas em universidades, se valendo daqueles mesmo argumentos que são tão explorados e repetidos, mas ao claramente tomar um lado, percebe o quanto esses são tão firmes e corretor que não precisam ser redesenhados. Do mesmo jeito que não é preciso então esconder o famoso “racismo velado”, sua objetividade lhe dá espaço para ser preciso e apertar todos botões que precisam ser apertados. E se isso resulta nas mesmas e velhas reações, é justamente porque é uma pena o mundo ainda ter que discutir esse tipo de ponto de vista tão míope.

Munidos das mesmas e comuns armas que uma dita cegueira burguesa vem tentando usar para impor seus pontos de vista, a família de Jean então não percebe o quanto faz mal para seu filho. O quanto o faz se fechar dentro de suas próprias impressões e preconceitos que acabam lhe tirando seu primeiro e verdadeiro amor. E é essa dor que o faz preferir dar as costas à sua família, a ter que continuar com eles em um derrocada triste e delimitada pela negação do mundo que os cerca.

Uma certa ignorância que não se importa em desprezar a filha e colocá-la no mais baixo patamar de uma estrutura familiar falida. Uma estrutura que não parece perceber seu ridículo nem enquanto barganha a vida de seu filho por um punhado de reais.

E tudo isso em um filme sobre um adolescente espremido por um mundo que lhe encara como um piada por querer fazer comunicação, que só se importa com altos rendimentos da economia e prefere desviar o olhar do verdadeiro mundo. E se o único jeito de fazer essa transição seja ter que largar tudo e redescobrir tudo aquilo que achava já ter descoberto, pelo menos para Jean é o único caminho que poderia ser tomado. Um caminho obrigatório para ele, assim como Casa Grande tem um pouco de obrigatório para nós: brasileiros, amantes de cinema, adolescentes e/ou ex-adolescentes.


idem (Bra, 2015), Escrito e dirigido por Felipe Barbosa, com Marcello Novaes, Suzana Pires, Thales Cavalcanti e Bruna Amaya


Trailer – Casa Grande

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