Café | Tradicional, nostálgico e cheio de esperança

Café Filme

Café é como se uma pequena janela se abrisse para o mundo e nós pudéssemos dar uma espiada em três histórias simples ligadas apenas pelo commoditie que leva o nome do filme. Não se trata de nada profundo, mas perene, pois apela para nossos sentimentos de tradição, nostalgia e esperança, uma tríade que nunca sai de moda. Como o próprio café, por exemplo.

As histórias se desenrolam como situações do cotidiano com rostos familiares. Temos o pai de família bondoso – e imigrante, claro, para se adequar à pauta atual do cinema – que ensina a tradição do café para seu filho lendo a sorte do pó no fundo da xícara e toma conta da sua loja de penhores, embora não com a mesma paixão com que cuida de um bule de prata, herança da família por gerações. Quando manifestações causadas por uma crise econômica agitam violentamente o bairro onde mora, ele é levado, assim como um jovem desocupado, pelos impulsos mais basais, o que acaba lhe colocando em uma situação onde pode perder tudo.

Já do outro lado do mundo, na China, temos o resgate dos valores de infância de um executivo que precisa voltar para sua terra natal e que acaba em um acidente se conectando com o passado enquanto precisa resolver uma questão difícil que o faz colocar na balança corporativa a ética e sua própria carreira. Um pouco novelístico, mas se parar para pensar todas as três histórias o são.

Como o jovem casal na Itália, a terceira história, que se vê na necessidade de mudar de cidade para ganhar a vida em um período difícil para os dois. O rapaz acaba encontrando motivação suficiente para usar seu conhecimento sobre café, inútil no mercado de trabalho, a serviço do lucro fácil, apesar de moralmente questionável. E para reforçar o tom de novela, ela fica grávida, e agora é questão de vida ou morte.

A moral, aliás, de Café, passa por alguns caminhos que simplificam a realidade em prol dos seus heróis, pessoas humildes do dia a dia que se vêem na necessidade de fazer “justiça” com as próprias mãos, seja qual a definição de justiça estiver sendo usada. Demonstrando ignorância em economia, ou preferindo evitar entrar em motivos, passando para as consequências, o filme prefere empurrar este peso para os personagens e eles que lidem como acharem melhor. O único sendo julgado aqui é o sistema que permite que o amargo da vida e do café valha mais que sua iminente doçura.

O que há de mais rico no roteiro são os detalhes. Aprendemos através deles porque cada pessoa toma decisões difíceis sobre suas vidas. O imigrante, por exemplo, sabe que não pode contar com a polícia local, cheia de preconceitos. O rapaz italiano aprende que mesmo indo morar na capital de produção de café do seu país e sendo um barista profissional ele não consegue emprego em uma indústria que está é demitindo pessoas. E o executivo chinês possui informações suficientes para entender que milhares de vidas podem estar em suas mãos caso ele escolha o lucro em vez da segurança dos trabalhadores.

No entanto, como eu disse, essa janela se abre, mas é muito estreita. Difícil perceber o que o filme quer dizer com tudo isso. Sendo filmado basicamente narrando os acontecimentos e alternando entre as histórias a impressão é que não há pausa para reflexão. Todos estão agindo sob pressão imediata. A trilha sonora, de suspense, e uma câmera na mão, com cortes rápidos demais para reflexão, tornam Café no próprio efeito que a bebida traz, de euforia sem significado, de um alerta sem necessidade.


“Caffè” (Bél/Chi/Ita, 2016), escrito por Cristiano Bortone, Annalaura Ciervo, Minghua Shi, Matthew Thompson, dirigido por Cristiano Bortone, com Dario Aita, Hichem Yacoubi, Miriam Dalmazio.


Trailer – Café

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