Desde que foi anunciado um novo Caça-Fantasmas capitaneado por um elenco feminino, qualquer notícia ou vídeo da produção passou a ser assolado por uma tempestade de comentários imaturos, misóginos e, claro, sem fundamento algum — o ódio e o desprezo destilados por homens que abrem o berro para dizer que este filme está “arruinando sua infância” são ainda mais patéticos considerando que eles ainda sequer assistiram ao filme.

Como escrevi na Cinema Sem Y nascida dessa discussão, mesmo se Caça-Fantasmas fosse ruim, isso não seria devido ao fato de que as protagonistas são mulheres. Entretanto, é uma enorme satisfação constatar que o filme funciona imensamente bem, oferecendo uma experiência divertida, envolvente e ágil e, melhor ainda, que nos apresenta a excelentes personagens e reconhece o legado do longa original sem depender disso para funcionar.

Assim, neste reboot que se passa no mesmo universo do original, mas em uma diferente continuidade, somos apresentados a Erin Gilbert (Kristen Wiig), uma professora universitária que decidiu ignorar totalmente seu passado de pesquisadora do sobrenatural por medo de que isso afetasse sua carreira acadêmica — o que incluiu cortar os laços com sua amiga e parceira de trabalho Abby Yates (Melissa McCarthy), que, trabalhando no laboratório de um colégio, continuou estudando e tentando provar a existência de fantasmas. Quando as duas se reúnem para averiguar a notícia de que há uma aparição assombrando uma mansão histórica, elas descobrem que há outros seres incorpóreos surgindo pela cidade e, então, decidem usar seu conhecimento do assunto para proteger Nova York — ao lado da engenheira Jillian Holtzmann (Kate McKinnon) e da ex-funcionária do metrô Patty Tolan (Leslie Jones).

A relação entre Erin e Abby, assim, ocupa o centro da narrativa — e o roteiro assinado pelo diretor Paul Feig e por Katie Dippold é inteligente, por exemplo, ao trazer a primeira rapidamente aceitando a existência de fantasmas e rejeitando a ideia de que precisa rejeitar algo que sempre moveu sua pesquisa. Kristen Wiig e Melissa McCarthy oferecem performances equilibradas e organicamente hilárias, enquanto Leslie Jones constrói o jeito expansivo de Patty com naturalidade, divertindo e justificando sua presença no grupo através de seu rico conhecimento da história de Nova York. Fechando o grupo, Kate McKinnon quase rouba o filme para si na pele da insana e brilhante Holtzmann — que, responsável pelos gadgets da equipe, chama a atenção mesmo quando apenas reage ao que está acontecendo ao seu redor, já que mostra-se sempre à beira de fazer algo completamente imprevisível.

Feig e Dippold mostram-se as escolhas ideias para comandar este reboot: a dupla desenvolveu, nos últimos anos, comédias admiráveis centradas em mulheres (“Missão Madrinha de Casamento”, “A Espiã que Sabia de Menos” e “As Bem-Armadas”), construindo personagens interessantes e tirando proveito do talento de suas atrizes. Aqui, o diretor também demonstra um bom comando de sequências de ação, construindo as de Caça-Fantasmas de forma pouco complicada e que permita que entendamos com clareza o que está acontecendo na tela. Além disso, Feig explora com genialidade o uso da linguagem 3D, empregando o letterbox (as faixas escuras que aparecem acima e abaixo do quadro) para fazer com que elementos pontuais pareçam escapar do filme, realçando ainda mais o potencial imersivo do tridimensional.

Caça Fantasma

Os cineastas destacam-se também na forma metalinguística com que exploram a misoginia que cercou a produção do filme: o gênero das personagens não faz diferença alguma quanto à história ou ao desenrolar da trama, mas demonstra sua importância através das reações das mulheres a comentários maldosos em um vídeo que as traz capturando um fantasma, ou no (acertadamente) nada sutil momento em que elas atingem um determinado fantasma nas regiões sensíveis. Isso nos leva ao antagonista deste reboot, Rowan North (Neil Casey): solitário e esquisito, ele responde ao bullying e ao isolamento de forma totalmente diferente àquela de Erin e Abby, e é interessante notar como o que as fazia garotas estranhas foi o que as aproximou, enquanto o comportamento e os interesses peculiares de Rowan têm o efeito de afastá-lo ainda mais de quaisquer conexões humanas.

E por falar em diferenças entre os gêneros, Chris Hemsworth fecha o elenco central e demonstra um timing cômico admirável, acertando em cheio na caracterização de Kevin, recepcionista das caça-fantasmas e uma versão masculina do tradicional papel feminino do “colírio”: uma bela mulher presente em cena apenas para agradar aos olhos dos personagens e espectadores masculinos. A gag envolvendo sua percepção sobre os cinco sentidos do corpo humano é divertidíssima e, no geral, o senso de humor do filme funciona perfeitamente bem.

Um dos elementos mais importantes — e admiráveis — de Caça-Fantasmas é que este não se curva diante da presença do original, mesmo enquanto reconhece sua importância e iconografia. Entretanto, enquanto Feig e Dippold divertem-se tentando elaborar novas formas de incorporar os tradicionais uniformes, logotipo e trilha, alguns atores do filme de 1984 aparecem em pontas descartáveis e pouco conectadas com o restante da projeção. Mas esses breves momentos não chegam a atrapalhar o ritmo do filme, que é montado com fluidez, ou a apagar sua identidade própria. Afinal, as quatro novas caça-fantasmas são criações originais, e que não apresentam nenhuma equivalência com os protagonistas anteriores — o que ambos os grupos têm em comum são a comédia afiada que proporcionam, a química que demonstram e a dinâmica que constroem.

Caça-Fantasmas é, portanto, uma excelente produção que, além de mostrar-se uma experiência divertida, criativa e envolvente, também desafia o status quo e nos apresenta a quatro personagens fascinantes vividas por excelentes atrizes e que são um exemplo mais de que, dos inúmeros reboots, remakes e sequências do cinema hollywoodiano atual, podem sair obras memoráveis.


“Ghostbusters” (EUA, 2016), escrito por Paul Feig e Katie Dippold, dirigido por Paul Feig, com Kristen Wiig, Melissa McCarthy, Katie McKinnon, Leslie Jones, Neil Casey, Zach Woods, Ed Begley Jr. e Charles Dance.


Trailer – Caça-Fantasmas

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Uma resposta

  1. Valeria L

    Agradecimentos para o artigo, eu estou pessoalmente um fã de filmes de quadrinhos e esta versão foi incrível. Eu acho que uma grande história, pois é uma nova versão de Ghostbusters merecia e tinha. A grande idéia era investir os jogadores e transformá-los em mulheres. (Nota do editor: Aqui tinha um LINK que levava para um outro site) a escolha do elenco é incrível. Tem bons efeitos, agora podemos ver fantasmas com maior clareza e definição. O legado pode continuar por gerações.

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