Esqueçam a lenda de que Blade Runner – O Caçador de Androides foi um fracasso mal falado em 1982 quando chegou aos cinemas. Na verdade seu maior problema foi puro azar, o que ainda até o colocou em uma posição mais frágil com o jornalismo especializado da época, mas em pouco tempo o filme de Ridley Scott se tornou um dos maiores filmes da história.

O azar veio da estreia de E.T. – O Extraterrestre, que colocou Blade Runner em um canto mais escuros que a Los Angeles do anos 2019 e fez o filme render apenas 33,8 milhões de dólares “em casa”. Bem pouco (ou quase nada) perto dos 28 milhões gastos na produção.

Já a crítica especializada foi de um lado ao outro. De um lado, Gene Siskel chamou Blade Runner de “previsível” e “clichê”, chegando à conclusão daquilo ser “perda de tempo”. Já seu companheiro de programa de TV, Roger Ebert, cita “um esforço visual interessante e estonteante, mas um grande fracasso em sua história”, e termina sua texto: “O filme tem o mesmo problema dos replicantes, ao invés de carne e osso, seu sonhos são com homens mecânicos”.

Mais perto da realidade, Paulie Kael, mesmo criticando o “desenvolvimento humano”, é bem clara ao colocar o filme em seu lugar: “merece um lugar na história do cinema pela sua visão distinta do gênero sci-fi”.

Kael estava certa, Siskel muito errado, mas a grande verdade é que Blade Runner – O Caçador de Androides não era um filme fácil de ser digerido.

A versão ou aversão….

E talvez um dos grandes problemas do filme, seja em 1982 ele chegar aos cinemas com uma versão tão esquisita que era fácil desgostar daquilo. Nela, além de pequenas mudanças impostas pelo estúdio, que passou por cima de Ridley Scott, Blade Runner ainda vinha com uma narração com jeitão de noir que casava com o gênero, mas não acrescentava absolutamente nada ao filme.

Se abster dela e aproveitar o filme era realmente problemático, ainda mais quando se tem a oportunidade de ver a versão “directors cut” que o diretor conseguiu lançar anos depois e mostrar o verdadeiro potencial da obra.
Pior ainda, em um final que para muita gente é meio patético, aproveitaram até algumas imagens aérea de O Iluminado para fechar o filme de modo “mais felizinho”, já que Scott não mostrava a mínima vontade de deixar esse tipo de “claridade” atingir sua obra.

Blade Runner

Curiosamente, Harrison Ford estava bem no meio da polêmica. Primeiro pelo claro descontentamento com essa versão com a narração, já que, de acordo com ele, parecia apenas contar aquilo que o espectador estava vendo. E sua falta de empolgação não terminou ai, primeiro reclamou de Scott parecer ligar pouco para os atores enquanto só se preocupava com o clima e o visual dos sets. Por sua vez, Scott se defendia dizendo que ele era um ator profissional e sabia o que fazer em cada cena.

Mas talvez seja a mais famosa decisão de Scott que tenha deixado Ford e até seu parceiro de elenco Rutger Hauer mais bravos. Uma duvida que pairou por muitos anos, mas que, aparentemente Scott tinha na ponta da língua desde o começo.

Deckard era um Replicante ou Não?

Mas vamos por partes. Primeiro de tudo é bom entender quem são esses Replicantes e de onde eles vieram.

Ainda que no livro que deu originem ao filme, Androides Sonham com Ovelhas Elétricas, de Phillip K. Dick, a expressão “Replicante” não exista, eles são um tipo de androide criado para auxiliar os grupos de exploradores humanos na conquista espacial. Mas aos poucos ele passam a criar algo que chega perto de ser uma consciência e uma vontade de se livrar dessas amarras, o que levou muito deles a massacres. Já que não só eram seres humanos perfeitos, como ainda eram mais fortes e mais ágeis, a combinação os tornava um perigo caso eles chegassem de volta à Terra.

Para resolver o problema, foi criado então um grupo de policiais que tinham como objetivo caçar e acabar (no original “retire”, algo como aposentar) com esse Replicantes: os Blade Runners.

Deckard (Harrison Ford) é um desses caras. Um puro e clássico detetive noir com seu sobretudo velho enquanto come macarrão sem estar se preocupando como mais nada. Mas ele recebe uma nova missão de encontrar esses quatro Replicantes que fugiram e estão perdidos em algum lugar da chuvosa e escura Los Angeles de 2019.

Obviamente se Blade Runner fosse só sobre essa perseguição ele não teria chegado em lugar nenhum depois do fracasso nas bilheterias. Blade Runner era na verdade essa ficção científica existêncial e que tinha como principal objetivo tentar entender até onde esses Replicantes eram simplesmente androides. E mais, será que um androide que não sabe de sua existência artificial não é humano? Afinal, nenhum humano vai nunca pensar a respeito disso.

Blade Runner

Meio complicado, não é? Mas Scott e os roteiristas Hampton Fancher e David Webb Peoples, não só caminham por esse caminho enquanto criam um filme visualmente incrível e que se tornou uma referência quase única para o futuro do mundo nos cinemas, como ainda vão mais longe e deixam com seus espectadores a dúvida da real natureza de seu protagonista.

Sim, Deckard é um Replicante. Ainda que na primeira versão isso não tenha ficado tão claro, seus outros cortes sempre fizeram questão de deixar isso praticamente claro. E é aí que entra em cena o unicórnio.

O Unicórnio

Enquanto investiga os quatro Replicantes sumidos, Deckard acaba dando de cara como uma pista que o leva ao criador desses androides, Dr. Eldon Tyrell (Joe Turkel) e sua ajudante Rachael (Sean Young), que por sua vez é uma Replicante que não tem a consciência de sua artificialidade.

Tal impressão vinha à ela através de uma série de memórias inseridas em sua mente eletrônica.

Mas enquanto Rachael é apenas uma vítima da dúvida de sua vida, Roy Batty (Rutger Hauer), líder dos Replicantes perseguidos por Deckard, busca àquilo que move o seres humanos desde os primórdios da existência: entender a morte. Batty busca o direito pela longevidade, principalmente já que por tanto tempo conviveram com sentimentos que não poderiam estar simplesmente vivendo em uma mente artificial. Batty quer mais. Batty quem a oportunidade de ser mais, de amar mais e deixar sua marca.

Em uma analogia com a história de uma aranha que é comida por seus filhotes, Batty e seus amigos representam essa nova geração colocando em perigo a existência daqueles que não evoluíram. Batty vence seu criador em um jogo de xadrez, depois disso lhe dá um beijo e aceita sua mortalidade enquanto assassina o próprio pai.

Por isso não é tão impossível encontrar em Batty a figura dolorosamente humana que não consegue lidar com esse lado. Por fim aceita sua mortalidade e se deixa ser tomado por uma espécie de instinto animalesco e selvagem enquanto vê seu amor, Pris (Daryl Hannah) morta pelo Blade Runner. Mas isso não se torna uma vingança, mas sim a oportunidade que ele tem de colocar em jogo sua humanidade enquanto perdoa Deckard e mostra o quanto todos o enxergam de modo simplista e desumano.

Sentados no meio da chuva, Batty (com um incrível Hauer quase de improviso) desiste, “é hora de morrer”, mas não sem antes lembrar que “viu coisas inacreditáveis, mas que agora irão se perder como lágrimas na chuva”. E Deckard entende muito bem isso.

Mais cedo no filme, o caçador de androides dá de cara com uma coruja artificial que, assim como qualquer “coruja natural”, é o símbolo universal do conhecimento, e ao lado de Rachael ele descobre quem ele realmente é. Não importa se Replicante ou não, o que ele precisa fazer é aproveitar seu amor de Rachael antes que todas suas lembranças se percam como lágrimas na chuva.

Blade Runner

Mas sim, Deckard é um Replicante. E isso começa com vários pequenos detalhes durante o filme, mas termina com o pequeno origami feito pelo agente Gaff (Edward James Olmos) e deixado na porta de sua casa como uma nova chance para ele e Rachael. Porém na tal primeira versão nada disso existe, já que Deckard sonhava sobre o piano com um Unicórnio.

Para Ford e Hauer, Blade Runner deveria ser sobre a luta entre o homem e a máquina, com Deckard sendo humano, opinião que acabou entrando em confronto com a ideia de Scott. Por sua vez, o diretor estava mais preocupado com essa questão existência. Do como esses seres artificiais são na verdade humanos com anseios, amores e sonhos. As memórias e os sonhos, nesse caso, foram inseridos em sua mente, Gaff sabe desse unicórnio, mas também sabe que todos merecem uma chance de ser feliz.

Deckard e Rachael teriam então a chance que Batty não teve. A oportunidade de viver a vida em sua totalidade, com o amor servindo de alento para a mortalidade e o fim de tudo. E ainda que todas essas lembranças escorram por suas faces como a chuva, pelos menos elas terão sido vividas. E se isso não os fizer humanos, nada mais poderia fazer.

E assim como Blade Runner – O Caçador de Androides não foi esquecido mesmo diante do fracasso, esses sentimentos serão sempre lembrados como um momento único do gênero e, como Kael aponta, desde o primeiro momento com um lugar reservado na história do cinema.


“Blade Runner” (EUA, 1982), escrito por Hampton Fancher e David Webb Peoples, à partir de um livro de Philip K. Dick, dirigido por Ridley Scott, com Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh e Daryl Hannah.


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