Belos Sonhos é uma verdadeira homenagem e uma investigação sobre essa relação tão íntima, possessiva e determinadora de caráter entre uma criança e sua mãe italiana, a figura eterna da “mama”. Sutil e visual, se transforma em um trabalho equilibrado, embora intenso, como todo bom filme italiano deve ser.

Aplicando elementos universais da relação quase universal entre uma mãe e seu filho, o filme começa com uma fotografia belíssima, um jogo de luzes que eterniza a relação entre o pequeno Massimo (Nicolò Cabras) e sua bela e jovem mãe (Barbara Ronchi). Os elementos são universais porque conhecemos apenas o nome do garoto, o mesmo do livro de onde foi baseado o filme (e cujo autor é Massimo Gramellini). Portanto, Massimo é o núcleo absoluto da história, por onde orbitam seu pai (Guido Caprino), mãe, e lá na frente, seu grande amor, Elisa (Bérénice Bejo).

O roteiro, adaptado por um trio de autores, caminha por diferentes momentos na vida de Massivo, seja garoto, adolescente ou adulto (Valerio Mastandrea). Cada um, revelando ou expandindo uma nova faceta do garoto que cresceu com o trauma da morte súbita de sua mãe, cuja despedida ele nunca se lembrou. A desconfiança que Massimo vai desenvolvendo sobre o que realmente aconteceu com ela parece percorrer seu subconsciente, assistindo a saltos ornamentais, ou até o seu próprio consciente, quando, já trabalhando como repórter, tem o furo jornalístico de sua vida quando está na casa de um figurão que se suicida. A elegância do roteiro consiste em observar as reações de Massimo quando, por exemplo, várias décadas à frente, ele reflete com outros olhos sua própria amada dando um salto ornamental em uma piscina à noite.

Além disso, a história caminha muito mais nas dicas visuais do que nos diálogos, onde até a metalinguagem se esconde por trás de um jornal guardado em um livro por toda uma vida. Como na relação com o pai e a mãe, a proximidade com ela é uma constante nas primeiras cenas, enquanto o distanciamento do pai é latente quando o vemos apenas sob a sombra no fim do dia. Além disso, Massimo observa da janela do ônibus as estátuas imponentes de Turim como um reflexo da formalidade com que seu pai o trata; logo depois vemos as miniaturas das mesmas estátuas no escritório em sua casa. E note a aspiração do garoto sendo sugerida quando, fazendo lição de casa no mesmo escritório, brinca inocentemente com a máquina de escrever do pai.

Belos Sonhos Critica

Com tantas dicas que podem ser vistas pelo espectador, praticamente não precisamos acompanhar nenhuma narrativa explícita; os próprio anos são facilmente identificáveis, com um trabalho de maquiagem de precisão. E como até os conflitos mais existencialistas de Massimo são tratados com uma grandeza visual – como a aula de física/astronomia dada por um padre – não fica difícil entender que quando Elisa surge em sua vida, seu ataque de pânico iminente recebe a ajuda de quem mais era necessária: uma segunda mãe.

A atuação de Valerio Mastandrea (A Primeira Coisa Bela) surge como um misto de inanição e passividade, em um papel tão introspectivo que se torna difícil de ser notado. As nuances do ator, sua cara cabisbaixa, envergonhado, traduzem bem essa busca interna de que se trata o filme. Muito mais confortável está Bérénice Bejo, cujo papel é relativamente simples frente ao seu papel principal mais intimista em A Economia do Amor. Surpreendente mesmo é a interpretação icônica do jovem (e estreante) Nicolò Cabras, que realiza a persona do garoto italiano com uma perfeição suficiente para congelarmos vários quadros entre mãe e filho.

Como é prometido pela trilha sonora romantizada, muitas vezes grandiosa, e a direção inflada de Marco Bellocchio, o filme vai muito além do drama pessoal. Ele levanta questões existenciais muito profundas, e apesar de flertar com uma petulância e um pedantismo preocupante em alguns momentos (a sequência do suicídio do presidente é quase totalmente descartável), creio este ser uma declaração sincera e apaixonada por essa busca que todos nós possuímos por conexão e identificação com outros seres humanos.


“Fai bei sogni” (Ita/Fra, 2016), escrito por Massimo Gramellini, Valia Santella, Edoardo Albinati, Marco Bellocchio, dirigido por Marco Bellocchio, com Bérénice Bejo, Valerio Mastandrea, Fabrizio Gifuni, Guido Caprino, Barbara Ronchi


Trailer – Belos Sonhos

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