Cenas espetaculares de luta, fotografia vibrante, personagens dúbios e protagonista forte: esses são alguns dos ingredientes que tornaram De Volta ao Jogo e sua sequência, John Wick: Um Novo Dia Para Matar, dois dos melhores filmes de ação dos últimos tempos. A boa notícia é que eles também estão presentes em Atômica, comandado por David Leitch, co-diretor do primeiro; a má é que, apesar de eficiente em diversos pontos, a trama de espionagem não é tão inteligente ou bem escrita quanto o próprio filme parece acreditar.

Ambientado em 1989, às vésperas da queda do muro de Berlim, Atômica começa quando o agente da MI6 James Gascoigne (Sam Hargrave) é assassinado por Yuri Bakhtin (Jóhannes Haukur Jóhannesson), da KGB. Dez dias depois do ocorrido, Lorraine Broughton (Charlize Theron), também do MI6, é interrogada pelo executivo da agência, Eric Gray (Toby Jones), e pelo agente da CIA Emmett Kurzfeld (John Goodman).

Descobrimos, então, que Gascoigne tinha a posse de um documento chamado A Lista, que estava em um pedaço de microfilme escondido em seu relógio de pulso — que, é claro, desapareceu depois de seu assassinato. A Lista contém os nomes de todos os espiões em atividade até aquele momento. Broughton, então, é enviada a Berlim com a missão de recuperar A Lista e também de descobrir a verdadeira identidade de Satchel, agente duplo que traiu Gascoigne e que há anos vende inteligência para os soviéticos. Para tanto, ela contará com o apoio do agente David Percival (James McAvoy). Ao longo de suas investigações, Broughton conhece e inicia um relacionamento com Delphine Lasalle (Sofia Boutella), uma bem-intencionada mas ingênua agente da inteligência francesa.

Honrando o gênero a que pertence, Atômica é repleto de planos banhados em cores frias, neblina e espaços mergulhados na escuridão. O diretor de fotografia Jonathan Sela (também de De Volta ao Jogo) pincela tudo isso com toques de neon e, ocasionalmente, ilumina o plano com o fogo de um isqueiro, por exemplo. O resultado é uma estética belíssima e vibrante, que preenche o filme tanto de energia quanto de frieza. Fazendo jus a essa qualidade, David Leitch se sai muito bem na direção — especialmente, é claro, nas sequências de ação e de luta.

Ainda iniciante como diretor, Leitch é um coordenador de dublês veterano e, assim, sabe coreografar lutas não apenas visualmente belas, mas que conseguem transmitir tensão e personalidade. Mas mais do que isso, ele sabe filmar lutas — Leitch coloca a câmera no lugar certo e corta nos momentos ideais para que possamos entender exatamente o que está acontecendo sem que isso prejudique a estética do plano. Dessa forma, ver Broughton transformando qualquer coisa que estiver a sua disposição como arma, por exemplo, não é forçado, já que entendemos a geografia do espaço. Isso chega ao ápice no genial (aparente) plano-sequência em que Broughton tenta sair de um apartamento e, para isso, desce as escadarias do prédio mandando socos e balas em quem aparecer na sua frente.

Atômica Crítica

Além disso, é interessante perceber como Leitch se preocupa em trazer verossimilhança aos combates, pois seus personagens sangram, perdem o fôlego, chegam ao ponto da exaustão e colecionam roxos pelo corpo — na primeira vez em que vemos a protagonista, ela está mergulhada em uma banheira cheia de gelo para aliviar a dor dos ferimentos que cobrem seu corpo todo. Mas a força e a letalidade de Broughton, é claro, dependem muito de Charlize Theron, que jamais nos deixa duvidar de que ela é capaz de acabar com cada um de seus oponentes. Vivendo a agente como uma mulher pragmática, inteligente e fria, Theron entende que ela também precisa de momentos de sensibilidade, que acontecem aqui principalmente ao lado de Delphine.

Esta, por sua vez, é vivida pela carismática Sofia Boutella como uma espiã inexperiente e que ainda não carrega nas costas o peso suportado por seus colegas de profissão, mas o roteiro exagera um pouco em sua ingenuidade, o que a torna irreal. Enquanto isso, James McAvoy obviamente se divertiu muito como Percival, agente infiltrado além da conta no submundo de Berlim. Toby Jones e John Goodman, por sua vez, ficam presos às cenas que estão entre as mais desinteressantes do longa.

Pois o problema central de Atômica é mesmo seu roteiro, escrito por Kurt Johnstad a partir da graphic novel The Coldest City, de Antony Johnston e Sam Hart. Desnecessariamente complicado mesmo que sua trama seja relativamente simples, o filme vai e vem inúmeras vezes sem ir direto ao ponto, como se isso fosse requisito para que suas reviravoltas funcionem — muito pelo contrário. Além da construção da personagem de Delphine, outro problema pontual é a sugestão de que Broughton tinha um relacionamento com Gascoigne, algo que jamais faz diferença para a trama e que poderia ser removido sem que o filme sofresse qualquer impacto. Além disso, as cenas do interrogatório da protagonista são inseridas de maneira a efetivamente atrapalhar o ritmo do longa (que, fora isso, a montadora Elísabet Ronaldsdóttir — também de De Volta ao Jogo! — constrói com eficiência), especialmente considerando que o diálogo dessa sequência é bem menos esperto e divertido do que Johnstad parece pensar.

Mas isso não significa que o filme não seja envolvente, pois ele é — apesar de todas essas questões. Afinal, até mesmo o roteiro consegue recuperar o fôlego para terminar de maneira empolgante, e o fato é que ver Charlize Theron vestindo os figurinos fabulosos de Cindy Evans enquanto distribui socos e tiros em cenas cuidadosamente coreografas, e ainda por cima embaladas por uma trilha sonora deliciosa com músicas dos anos 80, é divertídissimo. Assim, Atômica é eficiente como um longa de espionagem que exala estilo e beleza e que é comandado por uma protagonista enigmática e badass, mas cuja (boa) trama é prejudicada por um roteiro que prefere dar voltas em vez de ir direto aonde quer chegar. Mesmo assim, a jornada vale a pena.


“Atomic Blonde” (Ale/Sue/EUA, 2017), escrito por Kurt Johnstad a partir da graphic novel de Antony Johnston e Sam Hart, dirigido por David Leitch, com Charlize Theron, James McAvoy, Sofia Boutella, Toby Jones, John Goodman, Bill Skarsgård, Eddie Marsan, James Faulkner e Sam Hargrave.


Trailer – Atômica

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