Entre as dezenas e dezenas de livros escritos por Agatha Christie, uma das autoras mais populares do mundo, Assassinato no Expresso do Oriente certamente tem um lugar especial.

Ainda mais para os leitores vorazes de Christie, principalmente no que diz respeito às aventuras do detetive belga Hercule Poirot, a premissa e a estrutura da história destacam-se em meio aos demais mistérios desenhados pela rainha do crime. A boa notícia é que, mesmo não trazendo nada de particularmente novo, esta nova adaptação da obra é eficiente, envolvente e satisfatória — tanto para quem está cansado de saber o que acontece aqui quanto para quem acaba de conhecer a trama.

Hercule Poirot (Kenneth Branagh) precisa urgentemente de umas férias — e é isso o que ele pensa ter finalmente conquistado quando após solucionar um crime envolvendo o chefe da polícia local e três líderes religiosos em Istambul. Mas o dever o chama de volta a Londres e, portanto, seu amigo Bouc (Tom Bateman), diretor do Expresso do Oriente, consegue uma cabine de primeira classe para ele em seu trem.

Os principais passageiros que acompanham o detetive belga, e que logo verão-se envolvidos em uma investigação completa, são a jovem governanta Mary Debenham (Daisy Ridley), a elegante Caroline Hubbard (Michelle Pfeiffer), o Dr. Arbuthnot (Leslie Odom Jr.), uma modesta religiosa, Pilar Estravados (Penélope Cruz), a arrogante Princesa Dragomiroff (Judi Dench), o misterioso Edward Ratchett (Johnny Depp) e o assistente desse último, Hector MacQueen (Josh Gad). Ratchett acredita que sua segurança está ameaçada e, portanto, tenta contratar Poirot para protegê-lo — oferta que o detetive prontamente recusa. Até que Ratchett aparece morto após ter levado uma dúzia de facadas e, agora, cabe a Poirot descobrir a identidade do assassino antes que ele possa escapar impune ou fazer mais uma vítima.

Se você não é familiarizado com o desfecho de Assassinato no Expresso do Oriente, a boa notícia é que o roteiro de Michael Green — baseado, é claro, no livro homônimo — apresenta o mistério central de maneira empolgante, deixando o espectador curioso e intrigado quanto a sua resolução. Por outro lado, os leitores mais vorazes de Christie terão a experiência de trocar a surpresa pela ironia dramática, ou seja, quando sabemos algo que os personagens não sabem. Nesse sentido, o longa dirigido por Kenneth Branagh também funciona muito bem, já que seu talentosíssimo elenco cria personagens que estabelecem-se como figuras complexas ainda que não os conheçamos a fundo — afinal, tentar conhecer suas histórias e segredos é grande parte do trabalho de Poirot para solucionar o mistério da morte de Ratchett, e um dos motivos que fazem com que a história funcione para além do suspense.

Assassinato no Expresso do Oriente

Pfeiffer, Ridley e Glad se beneficiam por terem em mãos os papéis mais complexos e com mais tempo de tela, o que permite que os atores explorem a multidimensionalidade de cada um. Eles revelam seus verdadeiros sentimentos e motivações aos poucos, além de segredos que nem sempre estão diretamente conectados ao assassinato. Enquanto isso, a inclusão de Leslie Odom Jr., negro, e Manuel Garcia-Rulfo, mexicano, diversifica o elenco e abre espaço para leves discussões sobre etnia e segregação. Por outro lado, a personagem de Penélope Cruz talvez seja a mais desperdiçada do elenco, já que é apenas o talento e o carisma da atriz que tornam Pilar Estravados minimamente interessante.

Mas quem domina Assassinato no Expresso do Oriente, como não poderia deixar de ser, é o Hercule Poirot de Branagh. De início, os modos — e o bigode — exagerados do detetive dão a ele um certo ar caricatural que, aos poucos, revelam-se parte intrínseca de sua personalidade e de sua genialidade como investigador. Ele também “coloca a mão na massa” com mais frequência do que sua versão original, com direito até mesmo a uma pequena cena de ação, mas nada que descaracterize o clássico personagem. Assim, a excentricidade e o apego à lógica que Branagh imprime a Poirot fazem com que sua interpretação seja digna de um dos maiores detetives da literatura.

Como diretor, Branagh também faz um belo trabalho. Graças também ao montador Mick Audsley, Assassinato no Expresso do Oriente é dinâmico e fluido, fazendo com que o longa nunca pareça limitado pelas poucas possibilidades do cenário, já que passa-se majoritariamente dentro do trem. O espaço, assim, representa perfeitamente a claustrofobia dos personagens: daqueles que temem a descoberta do que escondem; de Poirot, ansioso para finalmente encontrar uma resposta que faça sentido; e, antes de sua morte, de Ratchett, cujos medos revelam-se ainda mais reais do que ele imaginava. Mais tarde, a neve chega para enclausurar ainda mais essas pessoas, o que ainda tem o efeito de criar quase que uma “dimensão paralela” para que a história seja concluída — parados no meio do nada, os personagens têm liberdade para se entenderem uns com os outros; depois, quando o trem retomar sua viagem — e eles, então, voltarem ao mundo real — lidarão com as consequências do que fizeram ou deixaram de fazer. Merece aplausos também o design de produção comandado por Jim Clay, que recria a década de 30 de maneira estilosa e esteticamente impecável.

Assassinato no Expresso do Oriente, assim, pode não reinventar a roda, mas quem precisa disso quando estamos falando de uma das maiores histórias de Agatha Christie? Além de elaborar um mistério fascinante de maneira segura e envolvente, Kenneth Branagh também constrói uma versão admirável de Hercule Poirot. Dessa forma, resta-nos esperar que ele volte a dar as caras nas telonas — e melhor ainda se, além do já anunciado Morte no Nilo, o detetive tenha a chance de protagonizar também alguns dos tantos livros da rainha do crime que ainda não foram levados ao cinema.


“Murder on the Orient Express” (EUA/Mal, 2017), escrito por Michael Green a partir do livro de Agatha Christie, dirigido por Kenneth Branagh, com Kenneth Branagh, Michelle Pfeiffer, Daisy Ridley, Josh Gad, Tom Bateman, Leslie Odom Jr., Penélope Cruz, Derek Jacobi, Judi Dench, Willem Dafoe, Olivia Colman, Sergei Polunin, Miranda Raison e Johnny Depp.


 Trailer – Assassinato no Expresso do Oriente

Outros artigos interessantes:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.