Uma das coisas mais fantásticas sobre a animação é a possibilidade oferecida pela técnica de que o cineasta desenvolva sua história praticamente sem limites para sua imaginação, criando situações impossíveis de serem alcançadas no live-action. E neste sublime Anomalisa, Charlie Kaufman tira o máximo proveito disso, nos levando a um universo que discute solidão, identidade, expectativas e auto sabotagem.

Michael Stone (David Thewlis) é um líder no mundo do atendimento ao consumidor, tendo publicado um best-seller que se tornou referência no assunto. O britânico que reside em Los Angeles parte, então, rumo a Cincinnati para uma palestra em um hotel. Lá, ele conhece Lisa (Jennifer Jason Leigh), mulher doce e sensível que imediatamente prende sua atenção. E como poderia ser de outro jeito? Em um universo em que todas as pessoas têm o mesmo rosto e a mesma voz, Lisa é o único ser humano – além de Michael – que parece realmente existir.

Kaufman e o co-diretor Duke Johnson, então, fazem do hotel uma espécie bastante peculiar de inferno. É aqui que Michael se reencontra, mais de uma década depois, com uma ex-namorada que ele abandonou sem explicações, em uma atitude que ele até hoje não consegue justificar. É aqui que ele começa a se distanciar da esposa e do filho de tal forma que eles deixam de parecer pessoas reais. E, finalmente, é aqui que ele descobre uma alma semelhante – mas este é um filme de Charlie Kaufman e, portanto, o romance entre Michael e Lisa já nasce com data para terminar.

Michael é dolorosamente solitário e melancólico; isso não o impede de se afastar das pessoas que o amam. Assim, depois de presenciarmos Michael e Lisa (e sua amiga, com quem ela viajou até Cincinnati para assistir à palestra do protagonista – ambas trabalham com atendimento ao consumidor) em uma noite divertida no bar do hotel e, mais tarde, sentirmos a conexão formada pelos dois enquanto conversam sozinhos no quarto dele (e, depois, passam a noite juntos), a doce melancolia de que aquilo não vai durar muito tempo é perceptível. E Lisa, por mais ingênua que ela possa ser, também percebe isso. Michael, por sua vez, parece se esquecer de todos os defeitos que o levaram a destruir seus relacionamentos anteriores.

O que, claro, é compreensível – e o roteiro de Kaufman faz um belíssimo trabalho de nos apresentar aos personagens centrais sem jamais julgá-los, ou seja, sem subestimar a inteligência do espectador com marteladas pouco sutis de seus significados. E, para isso, a escolha de realizar a obra em animação stop-motion se mostra brilhante: os traços tornam todos parecidos com bonecos, evidenciando o tema da identidade, enquanto as linhas marcadas dos rostos confere dois momentos riquíssimos em que, primeiro, o rosto de Michael parece estar prestes a desmoronar e, mais tarde, realmente faz isso, em um simbolismo perfeito do conflito interno vivido pelo personagem.

Além, claro, do fato de todas as outras pessoas (todas dubladas por Tom Noonan) possuírem a mesma aparência. E não é só a voz delas que é a mesma — o jeito de falar também, como vemos em duas frases ditas pelo taxista que reencontramos na capa de uma revista (“You have to try the chilli”) e em um outdoor (“It’s zoo sized”). Mas nem só de elementos surreais vive Anomalisa; o longa também traz cenas profundamente cotidianas, como a transa de Michael e Lisa, e até mesmo com um toque de humor negro em seu realismo, como quando Michael “luta” contra o chuveiro que se recusa a jorrar água na temperatura ideal. Essa mistura torna a obra ainda mais rica, pois evidencia o quão sinceras, comuns e fáceis de gerar identificação são as questões que aborda.

Anomalisa Crítica

E se a técnica eleva tanto o filme, os trabalhos de Thewlis e Leigh também são fundamentais para traduzir a essência de seus personagens. Enquanto Michael surge como uma figura trágica fadada à (auto)derrota, mesmo com sua arrogância e estupidez emocional podemos nos identificar com ele. Leigh, por sua vez, faz de Lisa uma mulher doce e ingênua mas que, em sua vida pacata no interior, carrega consigo sonhos gigantescos – e é por isso que o momento em que ela canta “Girls just wanna have fun” é tão eficiente. Ao lado do roteiro, a sensibilidade e a energia da performance da atriz impedem Lisa de se tornar uma “Manic Pixie Dream Girl”, uma mulher cuja personalidade, excentricidades e sentimentos servem apenas para mover o arco do protagonista masculino. [Mais sobre isso após o próximo parágrafo.]

Anomalisa é, portanto, um drama sufocante e um romance trágico que explora temas complexos e conflitos internos familiares a todos as pessoas. Esta é uma obra repleta de camadas e que não deixará a mente do espectador por um bom tempo; em outras palavras, é um filme de Charlie Kaufman.

[Atenção: o restante do texto contém detalhes sobre o filme.] E toda a excelência ao longo de Anomalisa resulta em uma conclusão que enriquece ainda mais o que vimos anteriormente. Se Michael retorna a seu cotidiano, ao lado da esposa e do filho, ainda mais isolado das pessoas ao seu redor, Lisa volta revigorada para sua cidadezinha. Após ficar oito anos sem se envolver romanticamente com alguém, ela agora sente-se mais segura, mais confiante, através dos sentimentos que Michael despertou nela. Um final belíssimo por si só, ele se torna ainda mais interessante ao percebermos a inversão de gênero ocorrida aqui: esse tipo de transformação positiva é geralmente reservada ao protagonista (masculino), enquanto a mulher simplesmente some do mapa.

Pois Anomalisa também aborda muito bem o quanto a paixão significa a criação de expectativas sobre o objeto de nossos sentimentos e desejos. Michael revela a Lisa que vai largar sua família para que os dois possam ficar juntos; ela hesita, mas rapidamente aceita. Os dois estão, afinal, embriagados um pelo outro. Segundos depois de tomarem essa decisão, Michael começa a se irritar com alguns hábitos de Lisa, como ranger os dentes ou falar de boca cheia. A voz dela, então, começa a se misturar com a de Noonan até ficar idêntica à de todas as outras pessoas. Ela não é mais especial; não é mais, aos olhos de Michael, uma “pessoa de verdade”. Quando reencontramos Lisa, na última cena do filme, ela – claro – continua com a voz de Leigh.

E é assim que o longa retrata a visão que Michael tem das mulheres em sua vida: criaturas fascinantes, até que a realidade bate. Por isso, quem ele leva de volta para casa é a boneca japonesa adquirida em uma sex shop. Aquela figura feminina incapaz de reações e de vontades próprias – e, portanto, impossibilitada de decepcionar o protagonista – é o máximo de “contato humano” de que ele é capaz.


“Anomalisa” (EUA, 2015), escrito por Charlie Kaufman, dirigido por Charlie Kaufman e Duke Johnson, com as vozes de David Thewlis, Jennifer Jason Leigh e Tom Noonan.


Trailer – Anomalisa

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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