“Covenant” vem da Bíblia, uma espécie de pacto entre Deus e a humanidade com a promessa de nunca mais emplacar um dilúvio na Terra. Em Alien: Covenant a expressão é o que batiza a nave dos protagonistas, mas também poderia se referir a um acordo entre os Engenheiros (aqueles caras grandões e branquelos do Prometheus) e a humanidade para não extinguir ela com um “certo xenomorfo”. Mas um bom “covenant” talvez fosse entre Ridley Scott e a humanidade para não mais se envolver com a franquia Alien.

Tudo bem que isso pode parecer um exagero, mas não é. Covenant talvez seja o pior filme da franquia (e sim, estou levando em conta os encontros com o Predador!). Um desastre que tenta conversar com o primeiro filme, mete os pés pelas mãos, apresenta os personagens mais burros da série e acaba contando uma história que absolutamente ninguém está interessado em conhecer.

E se você levar em conta que Prometheus já não era lá essas coisas, é bom pensar que pelo menos ele tentava criar uma mitologia e deixar algumas perguntas batendo no fundo dos cérebros dos espectadores, assim como tinha uma consistência narrativa mínima e fazia de tudo para contar uma história nova. Sobra para Covenant um rabisco que tenta continuar essa trama, mas esquece de que está dentro de uma das franquias mais famosas do cinema.

Não que toda “boa e velha” estrutura não esteja lá, ela está, mas de modo tão sem interesse que é difícil acabar o filme com esperanças para a franquia. A tal da “Covenant” no caso é uma nave carregando uma tripulação de casais e ainda dois mil colonos em direção a um novo e virgem planeta em algum canto do universo. Mas uma “onda de alguma coisa” interrompe o “sono” da tripulação, mata alguns colonos e faz com que eles descubram um sinal misterioso vindo de um planeta mais próximo.

Isso mesmo, o roteiro escrito por John Logan e Dante Harper, à partir de uma história de Jack Paglen e Michael Green, faz exatamente tudo aquilo que você imagina que irá acontecer. Uma equipe vai para o planeta, lá eles encontram “algo ruim” que em longo prazo irá matar todos eles. Infelizmente, em um momento ainda mais bobo, a trama ruma para alinhavar os acontecimentos do filme anterior. Mas, sinceramente, ninguém dá a mínima para isso.

Pior ainda, Covenantestá tão preocupado em descobrir o sentido da vida que se esquece de ser divertido. Curiosamente, a única boa cena do filme, logo na abertura, mostra o androide David (Fassbender) conversando com seu criador Peter Weyland (Guy Pearce) sobre esse “lado cabeça”. “Se você me criou, quem criou você?”, “De onde viemos”, tudo em uma linda composição horizontal asséptica e de uma preocupação visual que simplesmente some no resto das duas horas de filme.

Alien: Covenant Filme

Nesse momento, até essas poucas linhas de diálogo são interessantes, principalmente quando no que vem a seguir é algo como um cara (Demian Bichir) que entrou em uma missão de sete anos no espaço para colonizar outro planeta dizer que “odeia espaço”. E essa ausência completa de inteligência dos personagens vai ainda mais longe que o já momento clássico de Prometheus onde um biólogo “brinca” com uma nojenta cobra extraterrestre.

Nenhum personagem conseguir lidar com o nervosismo sem que seja com gritos, choros e um monte de tiros em um lugar que vai explodir caso acerte em qualquer coisa que não seja um mini-alien pulando pelos lados como um macaquinho. Sim, alguém explode a própria nave desse modo incrivelmente inspirado e isso é só a ponta de um iceberg de gente olhando para dentro de um gigante e obviamente mortal ovo de xenomorfo (OK, no primeiro já fizeram isso, mas naquele momento ele não estava sendo convidado a fazer isso pelo vilão, como em Covenant).

Isso mesmo, para Scott e seu Covenant um alien de dois metros de altura com duas bocas e que sangra ácido não é suficiente, é preciso alguém para citar o famoso poema de Percy Shelley, Ozymandias, enquanto olha para o horizonte e vislumbra seu plano mortal de acabar com a raça humana. E se isso não fizer muito sentido, relaxe que esse é o menor dos problemas.

E enquanto a expressão que batiza o filme vem da bíblia, Wagner canta a chegadas dos guerreiros ao Valhalla para entrelaçar o começo e o fim, “Rei dos Reis” é citado sem muito sentido e androides lutam kung fu, Ridley Scott esquece do principal: a franquia que ele mesmo criou e colocou seu nome para sempre na história do cinema.
Esperto é o James Franco, que faz uma pontinha logo no começo do filme e pula fora desse desastre e, muito provavelmente, não será lembrado por isso. E seria melhor ainda se Covenant tivesse feito o mesmo e pulado fora da franquia à tempo. Ou que pelo menos tivesse tido a honra de não levar o nome “Alien” em seu título


“Alien: Covenant” (EUA, 2017), escrito por John Logan e Dante Harper, à partir de uma história de Jack Paglen e Michael Green, dirigido por Ridley Scott, com Katherine Waterston, Michael Fassbender, Billy Crudup, Danny McBride e Demián Bichir.


Trailer – Alien: Covenant

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