Tim Burton e o País das Maravilhas sempre pareceram ter nascidos um para o outro, o diretor com toda sua predileção por tipos esquisitos, histórias amalucadas e um visual peculiar, enquanto o lugar onde a coitadinha da Alice chega depois de seguir o coelho branco é residência de tudo isso, e mais um pouco. É por isso que seu novo filme, o próprio Alice no País das Maravilhas é decepcionante: por darmos de cara com um casamento muito pouco interessante, ainda mais se levarmos em conta o 3D.

Na verdade, fico pouco a vontade “levando em conta o 3D”, já que em pouco tempo ele se tornará um ferramenta comum nos filmes, mas quando se dá de cara com um resultado tão aquém como o do filme de Burton, é preciso pensar sobre o assunto. Além de decepcionante e desleixado, já que nada parece ter a profundidade que o aparato pode dar (nem ao menos cai no clichê de jogar nada contra a tela), deixa uma clara impressão de que não precisava daquilo, na verdade até de que funcionaria muito melhor sem ele (já que as lentes escurecem um pouco o filme). Um ponto mais que fora para o tal do 3D convertido (onde tudo é filmado normal e depois “convertido” para o uso dos óculos).

E é exatamente essa impressão de preguiça que mais incomoda no filme, como se Burton estivesse fazendo algo sem vontade, quando na verdade tinha em mãos um vasto campo de maluquices para ser usado. Preocupado demais com uma certa limpeza narrativa, e técnica, que o impediram de “viajar” nas idéias e, se já de cara, ele opta por uma Alice mais velha não parece ser de graça, já que, justamente isso, lhe dá oportunidade de fazer o que quiser com a história. Como uma desculpa pra não ficar preso aos livros, mas que acaba transformando-se em um tiro no pé.

Aquela Alice de roupa azul com branco, cheio de babadinhos dá lugar a uma outra mais crescida, uma adolescente cheia de dúvidas que precisa encontra suas respostas, sem graça e que deixa de ser uma criança perdida em um mundo de maravilhas. Não uma garotinha descobrindo uma fantasia, mas sim uma jovem que precisa encontrar a criança dentro de si, um tema mais que batido (Peter Pan que o diga).

Burton escorrega feio mais ainda ao criar/forçar um contexto pouquíssimo interessante, com a morte do pai, uma sociedade vitoriana e um casamento arranjado, ancorando demais toda história em uma realidade pouco atraente. E mesmo quando Alice entra na toca do coelho o que sobra é algo pouco psicodélico e muito “pé no chão”. Como se o cineasta não conseguisse liberar sua mente, travado por uma trama que perde a curiosidade de uma fantasia para se tornar apenas uma pequena saga. Já que quase adulta, Alice acaba vendo todo aquele mundo como uma alucinação.

Tudo fica pior ainda quando a história se obriga a entrar um ritmo aventuresco, envolvendo dragões, espadas mágicas, batalhas pelo reino e uma Alice que acaba se perdendo no meio disso tudo, já que, não em poucas vezes, a garota se torna uma coadjuvante de sua própria história. Não como nos livros, onde é levada por uma enxurrada de maluquices, mas sim como se tivesse pouca importância dentro da trama, já que a todo momento é manipulada por um ou por outro. Talvez suma mais ainda pelas presenças sempre sensacionais de Johnny Depp e Helena Bohan Carter (respectivamente, ator fetiche e esposa do diretor).

Ele, perdido por trás de um Chapeleiro Maluco que acaba parecendo presente demais, o que acaba um pouco com sua magia (principalmente ao empunhar uma espada e fechar tudo com uma dancinha infeliz e bisonha), e ela como a Rainha Vermelha, se sobressaindo perfeitamente, ainda que por trás de toda computação gráfica, tudo isso fazendo com que a desconhecida Mia Wasikowska fique pequena no papel da protagonista. Anne Hattaway ainda dá as caras como uma apática Rainha Branca, mas por sorte, tanto dela quanto do espectador, aparece pouco.

No resto do tempo, Alice no País das Maravilhas, pelo menos, apresenta um visual irretocável, que não é inesquecível como o do desenho dos anos 50, mas pelo menos cumpre sua função. E ainda que Burton pareça carregar toda sua ação para a noite, afim de impor mais seu estilo rebuscado e esquisito, seus personagens muito bem caracterizados e cenários ricos fazem, pelo menos, com que a experiência final não seja tão dolorosa assim.

Um resultado sem ousadia (talvez pedisse algo mais corajoso como um Stop-Motion) que acaba sendo pouco interessante como metáfora (que é a grande sacada das obras) e também pouco interessante como cinema, já que não apresenta nada de diferente, deixando a impressão de um mundo palpável excessivo e uma saudade da fantasia que conquistou tantas gerações


Alice in Wonderland (EUA, 2010), escrito por Linda Wolverton, a partir das obras de Lewis Carrol, dirigido por Tim Burton, com Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bohan Carter, Crispin Glover, Anne Hathaway e com a vozes de Stephen Fry, Michael Sheen e Alan Rickman


2 Respostas

  1. Vinicius Carlos Vieira

    ótimo jeito de ilustrar uma página de comentários, com certeza ela fica mais bonita com um inicio desses… parabéns ae…

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  2. Por que você faz poema?

    Demoro a desembarcar dos meus sonhos, mesmo após acordado ainda pareço estar em outro tempo, em outra realidade. Talvez por isso eu acredite em bem mais que seis coisas impossíveis antes do café da manhã (que certamente não são lagartas azuis nem coelhos elegantes). Acreditava, por exemplo, que não haveria ninguém que pudesse recriar o universo psicodélico de Lewis Carroll no cinema atual, e suas infinitas possibilidades, além de Tim Burton. No entanto, minha credulidade encontrou um produto muito estético e pouco consistente – quase gratuito. Por isso não estranhei quando, ao final de uma jornada sem clímax e sem propósito, recebi como recompensa um constrangedor passo maluco. Acho que, ingenuamente, esperava algo mais sombrio, menos infantil, mais Tim Burton. Melhor continuar com os livros e a adaptação clássica.
    Cortem-lhe a cabeça!

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