A Origem do Dragão | Tem a alma e a força de Bruce Lee

A Origem do Dragão Filme

A Origem do Dragão possui a alma de Bruce Lee. Ele é simples, conciso, mas ao mesmo tempo seus personagens chamam a atenção apenas por existirem, assim como Bruce chamava a atenção de Hollywood apenas por ser um lutador chinês trazendo lições milenares para o Ocidente. Observe os dois mestres de kung fu deste filme e me diga que não consegue entender e admirar a própria filosofia desta arte marcial.

Curiosamente o filme enxerga mais beleza nesses personagens, o que dizem e fazem, do que a forma como lutam. O que já é uma ótima notícia vinda de um trabalho intimista que poderia cair no pecado de chamar atenção para si mesmo pelas lutas e holofotes.

Jovem demais para estar se tornando um cineasta, o filme demonstra a rápida evolução com resultados mistos para o mestre. Arrumando confusão desde criança, seu pai o envia para a América como forma de punição. O mesmo fim tem o mestre de kung fu que chega depois. Ele vem para se purificar de um pecado que cometeu por orgulho e encontra um Bruce Lee em toda sua vaidade erguendo os pilares que o tornarão referência no mundo todo. A ponte entre os dois é um discípulo, Steve McKee (Billy Magnussen), um americano que luta kung fu para se defender do mundo sozinho, mas acaba encontrando uma jovem escrava da máfia chinesa local que vira seu motivo nobre para lutar.

Ou seja, para os fãs do primeiro cineasta chinês a trazer o gostinho das artes marciais para Hollywood não será difícil encontrar as referências de suas obras. Elementos como a luta contra a injustiça cometida pelos poderosos em cima dos inocentes e a auto-descoberta e melhora através da sabedoria milenar das lutas marciais é apenas parte desta singela homenagem feita a Lee e a cultura de onde ele veio. Será particularmente tocante a forma com que o filme não simplifica tudo em torno do bem contra o mal. O mal existe aqui de maneira caricata para que os mocinhos, nas palavras do mestre Lee, “chute seus traseiros”.

As lutas, no entanto, demonstram que o cinema anda cortando muito em filmes de ação. Mas pelo menos aqui, entre chutes, socos e poses, não se perde muito do que está acontecendo. Giros rápidos da câmera fazem a gente enxergar a ação de vários ângulos. Há momentos de puro show off que, imagino, irão satisfazer os fãs. Mas o momento mais belo, mesmo, mais emblemático, é o encontro desses dois mestres. Um encontro privado, íntimo, que revela toda a reverência e a tradição do kung fu. Ao final da luta é difícil não se sentir tocado por uma paz de espírito de uma mensagem sem diálogos.

Mas ainda sobre a luta, para os mais atentos, perceba como cada um dos mestres aprende com seu adversário. Note a trucagem visual usada para reproduzir o estilo de cada um, ou sua essência. O mestre que veio de Shaolin, Wong Jack Man (Yu Xia), diz que o estilo é como uma prisão. Eu concordo com ele, mas que bela prisão são os estilos de kung fu!

O discípulo americano é a pessoa mais comum que temos para entender a evolução do personagem de Lee nos cinemas. Ele é a pessoa de origem humilde que resolveu lutar contra as injustiças. Sua empatia é contagiante, mas melhor que isso é sua reverência aos dois mestres. Ele não desrespeita nenhum dos dois, mas precisa persuadi-los a fazer a coisa certa. Sua insistência aliada ao seu jeito humilde são tocantes. Mas apesar do que diz a história ele não apanha o suficiente para entender o que é a vida.

A Origem do Dragão Filme

Porém ele é o lado ocidental da história, o que é aproveitado pelo diretor George Nolfi, que usa e abusa de planos e contra-planos. Vemos Stephen McKee e Wong Jack Man conversando juntos, mas um plano mostra o discípulo virado para o mundo ocidental, e o mestre virado para as árvores, a natureza e um bule muito charmoso de chá. Note como até diante da Ponte Golden Gate o discípulo observa o mestre fazendo seus exercícios matinais virado para a Ponte e para o Oriente, enquanto ele permanece entre as árvores (o novato).

O ator que faz Bruce Lee, Philip Ng, consegue aliar sua origem tradicional com sua petulância, seu orgulho e seu jeito despojado de chamar a atenção para si mesmo, mas de uma maneira natural. Ele já entendeu a filosofia da América, que divide as pessoas em vencedores e perdedores. Seu jeito business man não é muito convincente, mas este é um jovem em início de carreira. Mas enquanto a donzela em perigo é a bela e desconhecida Jingjing Qu e o discípulo talvez seja a figura que menos se esforça para parecer relevante, a revelação é mesmo o mestre Shaolin interpretado por Yu Xia, que parece ter algo a ensinar apenas por existir. Há uma coleção de frases profundas que são gostosas de ouvir. Algumas poderão fazer sentido em seu espírito. E note como seu estado de equilíbrio é que valoriza possivelmente seu único sorriso no filme inteiro.

A trilha sonora é uma coisa marcante. Conseguindo harmonizar música de ação com belíssimas flautas ela também harmoniza com a fotografia, que exalta os mestres com luzes amarelas. Até a luz que incide sobre Wong Jack Wang no dia da luta revela que ele está dividido entre a luz e as trevas. E o que dizer das luzes que entram pelas janelas onde se passa a lendária luta do filme?

Conseguindo criar tensão se haverá uma luta mesmo depois de revelada que ela acontecerá nos letreiros iniciais, A Origem do Dragão é uma grata surpresa do universo de Bruce Lee, pois não se trata totalmente de um caça-níqueis inconsequente. Há uma mensagem por trás das homenagens, referências e lutas. E ironicamente é justamente sobre isso que diziam seus firmes. Sua origem, aparentemente, é uma lição sobre a criação de sua alma. Bem ao estilo milenar chinês.


“The Birth of the Dragon” (Chn/Can/EUA, 2016), escrito por Stephen J. Rivele e Christopher Wilkinson, à partir do artigo de Michael Dorgan, dirigido por George Nolfi, com Yu Xia, Wang Xi´An e Philip Ng


Trailer – A Origem do Dragão

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