Para um filme que desculpa-se pelas bem-intencionadas liberdades tomadas em relação à “maior história já contada”, A Estrela de Belém é agradavelmente despretensioso. Por outro lado, isso tira qualquer força que poderia existir na espiritualidade do longa — que, mesmo assim, é uma moderadamente divertida e carismática aventura natalina.

Em A Estrela de Belém, os humanos cedem o protagonista da história para os animais que viriam a fazer parte da tradicional cena do presépio do recém-nascido Jesus. Com isso, o roteiro de Carlos Kotkin, baseado em uma história dele e de Simon Moore e dirigido por Timothy Reckart, ganha também contornos motivacionais, já que o maior desejo do burrinho Bo (voz, no original, de Steven Yeun) é conhecer o mundo para além do moinho em que ele trabalha acorrentado — sempre acompanhado de seu melhor amigo, o pombo Dave (voz de Keegan Michael Key), personagem mais divertido do longa.

Isso, também, acaba diluindo um pouco a atmosfera “Bíblia para Crianças” da animação. A decisão é eficiente para deixar o longa mais acessível para todos, já que não exige que você acredite na religiosidade (ou na veracidade) da história para divertir-se com ela; por outro, os momentos mais diretamente conectados à presença divina acabam ganhando um peso bem menor do que o esperado. Quando um anjo aparece para informar à jovem Maria (voz de Gina Rodriguez — a protagonista do excelente seriado Jane the Virgin vive aqui, portanto, a segunda virgem grávida de sua carreira) que ela será a responsável por criar o filho de Deus, a reação dela é casual demais e a cena, rápida e rasa demais para algo que deveria ser um dos pontos-chave da história.

Mais eficiente é o fato de que as ocasionais orações dos personagens têm resultados que podem tanto ser resultado da interferência divina quanto do simples desenrolar das ações de outros, o que faz com que o longa explore a descoberta espiritual de Bo, por exemplo, sem “martelar” a cabeça do espectador com suas mensagens. Que, em outras ocasiões, são mais incômodas — como quando a sensível camelo Deborah (voz de Oprah Winfrey) descreve a importância que o nascimento de Jesus terá daquele momento em diante em relação à comemoração do Natal — evento que, é claro, A Estrela de Belém desvincula totalmente de suas origens pagãs (tanto no Brasil quanto lá fora, os pôsteres promocionais da animação trazem a tagline “A história do primeiro Natal”).

A Estrela de Belém Crítica

Para reforçar o clima natalino, há canções típicas repaginadas em animadas versões pop, e Mariah Carey canta enquanto os créditos finais rolam. As ambições de Bo e os comentários de Deborah, que são fonte constante de humor para seus companheiros Cyrus (voz de Tyler Perry) e Felix (voz de Tracy Morgan) — os três camelos transportam os Reis Magos em sua jornada para presentar o bebê, seguindo o caminho apontado pela Estrela de Belém até sua manjedoura. Enquanto isso, o carrasco enviado para descobrir o paradeiro do “futuro rei” é uma presença deslocada dentro da trama, existindo apenas para que seus cães, Thaddeus (voz de Ving Rhames) e Rufus (voz de Gabriel Iglesias), possam ser banhados pela luz de Jesus e tornarem-se bonzinhos. Ou algo assim.

O resultado final é uma obra simpática que funciona apenas ocasionalmente. A Estrela de Belém tem boas intenções, mas escorrega em sua vontade de falar sobre religiosidade, Jesus e Deus sem ofender à quem não seja conectado a isso, o que faz com que nenhuma das duas ambições seja realmente alcançada — longe de ser um desastre, a animação também não faz nada de memorável.


“The Star” (EUA, 2017), escrito por Carlos Kotkin e Simon Moore, dirigido por Timothy Reckartcom as vozes (no original) de Steve Yeun, Keegan-Michael Key, Aidy Bryant, Gina Rodriguez, Zackary Levi,Christopher Plummer, Ving Rhames, Gabriel Iglesias, Kelly Clarkson, Anthony Anderson, Patricia Heaton, Kris Kristofferson, Kristen Chenoweth, Mariah Carey, Oprah Winfrey, Tyler Perry e Tracy Morgan.


Trailer – A Estrela de Belém

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