X-Men: Primeira Classe | Início dos X-Men é divertido, único e não é refém do Wolverine

Antes de qualquer coisa, esse quarto X-Men tinha cheiro de desastre. Os trailers mostravam um visual esquisitamente retrô, os pôsteres pareciam terem sido feitos por algum estagiário pouco habilidoso e o elenco não fazia lá sua parte na hora de empolgar ninguém (ainda que a dupla principal, Fassbender e McCavoy não fosse ruim, mas…). Dirigido por Matthew Vaugh, depois de emplacar o bacaninha Kick-Ass – Quebrando Tudo, X-Men: Primeira Classe acaba então não sendo um desastre (na verdade muito, mas muito mesmo, pelo contrário), justamente pela única coisa que trailers, posters (esses continuaram horríveis) e elencos não conseguem mostrar: unidade.

É bom também lembrar que esse quarto filme dessa “saga mutante” (sem levar em conta X-Men Origens: Wolverine) acerta muito mais que os outros três, justamente, por ter uma história para contar e um monte de gente navegando nesse mesmo barco. Não um ou dois personagens e um vilão, X-Men: Primeira Classe é um filme sobre uma situação, sobre a gênese de uma mitologia que é muito maior do que alguns dólares.

Aqui, o roteiro escrito pelo diretor em parceria com Jane Goldman (com a qual compartilhou os textos de seus dois últimos filmes), além de Aslhey Miller e Zack Stentz (de Thor), vai lá atrás, durante os anos 60, para contar a história de como começou, e acabou, a amizade entre o professor Charles Xavier e Eric Lehnsherr (Professor X e Magneto). Xavier (vivido por James McCavoy, sempre simpático e aqui exalando uma confiança ainda maior para o personagem) é um geneticista formado em Oxford que acaba sendo contactado pela CIA para ajudar na captura do mutante Sebastian Shaw (vivido pelo convincente Kevin Bacon), líder de uma espécie de poderoso clube que parece está “jogando” com a Guerra Fria.

Do outro lado, Lehnsherr (Michael Fassbender que cria um personagem completamente visceral) segue para o mesmo objetivo, mas para se vingar desse mesmo homem, que na verdade, em sua infância em um campo de concentração, matou sua mãe e fez dele seu “projeto científico”. Da união dessas duas personalidades, desses lados de uma mesma moeda (como Vaugh não cansa de mostrar) é que surge, não só a primeira formação desses heróis, como toda uma mítica a ser usada.

X-Men: Primeira Classe parece, diante disso, pegar um caminho menos “popular” do que aquele que a franquia sempre se manteve. Bem verdade, tirando o próprio nome e algumas poucas referências (como a divertida participação do Wolverine vivido por Hugh Jackman), Primeira Classe tem personalidade suficiente para, muito mais que o primeiro filme, manter viva essa história, já que, diferente dele, aqui tudo é tratado como real, vivo, fazendo parte de um cenário muito maior e preocupado, muito mais, com a profundidade daquilo que está na tela.

É fácil entender por que Eric vira Magneto e não por tratar o personagem como um simples vilão, mas sim por lhe dar razões e fatos para que quando ele, diante de um jogo de xadrezX-Men: Primeira Classe com Xavier, diga que “a paz nunca foi uma opção”. É mais interessante ainda, perceber o quanto Vaugh e seu filme se esforçam em olhar para o vilão Sebastian Shaw e fazerem seu espectador extrair dele que a personalidade do futuro Magneto se espelhe nisso, ainda que, naquele momento, sua única óptica seja centrada na violência de sua vingança.

Mas o motor do filme de Vaugh não é só isso, mas sim, a dinâmica entre esses dois personagens, como em momento algum ela foi pensada, e que, pela primeira vez, consegue captar a idéia básica dos quadrinhos. Xavier e Lehnsherr nunca foram “tão Martin Luther King e Malcom X” como aqui, e isso dá uma riqueza impressionante para o filme. Um leque de possibilidades onde ambos, mesmo lutando pelo mesmo objetivo, fazem com que seja impossível fazerem isso lado a lado, como em uma moeda, ou simplesmente dos dois lados de um tabuleiro de xadrez.

Se à Lehnsherr sobre a amargura, o ódio e o repúdio de ser segregado (já que sofreu como judeu na Segunda Guerra) à Xavier resta a vontade de agregar, de mostrar para o mundo que todos são semelhantes e que até um cabelo ruivo é uma mutação. Em um bar, acaba usando fatos evolucionários para conquistar uma garota, mas, sutilmente, tenta sim, mostrar que, mais do que uma ameaça, a mutação é algo normal e natural.

É lógico que é em Xavier que Vaugh coloca a responsabilidade de levar o espectador, já que, aparentemente não só ele é o mais experiente entre os mutantes como é também o mais racional, ao mesmo tempo em que, nem por um segundo sequer, deixa que Lehnsherr possa parecer errado (ou irracional), mas sim alguém que tem seus motivos para tais pensamentos.

X-Men: Primeira Classe é exatamente isso: um filme com motivos. Nada ali parece nascer, nem ser encarado, como parte de uma desculpa para uma sequência de ação ou uma reviravolta, mas sim como pedaços dessa história maior. Talvez o golpe final para criar essa unidade entre a história e o espectador aconteça até na habilidade de colocar toda essa trama trançada com um contexto histórico, o da crise de mísseis em Cuba, e não só na luta entre um herói e um vilão.

Ainda, em um enorme acerto da montagem de Eddie Hamilton e Lee Smith (o segundo, responsável pelos dois últimos filmes do Batman e Christopher Nolan, sendo que O Cavaleiro das Trevas até lhe rendeu uma indicação ao Oscar) que mantém, durante todo tempo, um ritmo enorme sem se desgarrar da naturalidade da situação e, ainda por cima, lidando com múltiplas linhas narrativas ao mesmo tempo, sem nunca perder o rumo e o sentido, mais ainda, fazendo um ótimo proveito do modo limpo e dos movimentos precisos da câmera de Vaugh, para ligar seus planos.

É graças a essa sensibilidade com que toda estrutura é tratada que, até uma demonstração forçosa de novos poderes não acabam caindo em uma simples sequência onde são mostrados os dólares gastos com efeitos especiais, mas sim a oportunidade de conhecer esses jovens que constituem essa “Primeira Classe”X-Men: Primeira Classe do Professor Xavier. É lógico que X-Men: Primeira Classe se diverte com esse monte de novos mutantes e poderes, mas faz isso muito mais como uma desculpa para desenvolver esse grupo de personagens, já que até o menos importante, ganha uma enorme profundidade graças às esses pequenos momentos de desenvolvimento. Ao Final do filme, é fácil ter certeza absoluta a respeito de quem é quem naquela história, mesmo com um monte de caras novas, e isso é coisa para poucos filmes.

X-Men: Primeira Classe é claramente mais barato que seus antecessores e tem muito menos estrelas e pirotecnias visuais, simplesmente, por que tem uma história pertinente a ser contada. A personalidade de ser ele mesmo, com a coragem, o respeito e a competência de levar a história dos quadrinhos para a tela, e a responsabilidade de dar início (muito bem sucedido em todos quesitos) mais uma vez a essa história que, para muitos, já parecia gasta. Pois é, não está e se continuar desse jeito, ainda tem muito o que contar.


X-Men: First Class (EUA, 2011), escrito por Ashley Miller, Zack Stentz, Jane Goldman e Matthew Vaugh, a partir da história de Sheldon Turner e Bryan Singer, dirigido por Matthew Vaughn, com James McAvoy, Michael Fassbender, Kevin bacon, Rose Byrne, Jennifer Lawence, Oliver Platt, January Jones, Caleb Landry Jones, Nicholas Hoult e Lucas Till .