Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom

Winter on Fire mostra processo de revolução na Ucrânia

Mesmo não trazendo todas as informações referentes ao complexo cenário que retrata, Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom traz imagens absolutamente terríveis que, claro, se tornam ainda mais impactantes por fazerem parte de um documentário. Trazendo ainda o espírito revolucionário e otimista do povo ucraniano, esta é uma produção memorável e relevante.

Mas se faltam nuances, o contexto é muito bem explicado de forma didática — mas sem ser maçante — pelo diretor Evgeny Afineevsky. Em 2004, uma série de manifestações pacíficas acontecem na Ucrânia pedindo a reversão dos resultados fraudulentos que, supostamente, teriam elegido Viktor F. Yanukovich. Ele, porém, chega à presidência do país em 2013. O problema? Enquanto a população cada vez mais anseia pela entrada do país na União Europeia, Yanukovich se mostra perigosamente pró-Rússia, apenas 23 anos após a independência da nação perante a ex-União Soviética.

Quando Yanukovich falha em anexar o país à UE e, além disso, passa a se aproximar cada vez mais da Rússia, o povo ucraniano investe em mais uma série de manifestações pacíficas para demonstrar seu desapontamento. E, conforme vão ganham notoriedade e atraindo mais simpatizantes à causa, essas manifestações enfurecem o governo e sua polícia, que passam a aterrorizar, ferir e até mesmo a matar aquelas pessoas.

Ciente de sua importância enquanto registro histórico — um dos primeiros diálogos que ouvimos traz alguém falando “Faça alguma coisa. Faça alguma coisa pela revolução.”, ao que a segunda pessoa responde, “Estou filmando.” — Winter on Fire transita muito bem entre a violência absurda sofrida pelos manifestantes e momentos inspiradores e ternos de seu otimismo, como uma criança proclamando “Viva a Ucrânia”. O que, claro, acaba dando ainda mais peso à violência sofrida por aquelas pessoas, pois o espectador não tem dúvida alguma de que eles realmente acreditam que, através de suas caminhadas e discursos, sem jamais agredir ninguém ou destruir nada, eles podem conseguir mudar os rumos de seu amado país.

Por outro lado, é escancarada também a despolitização dos manifestantes ou, pelo menos, da maioria deles: caracterizados diversas vezes pelas figuras do filme como “pessoas comuns” que “não ligam para política”, o povo chega a rejeitar a bandeira do partido levada por um político que apoia a causa dos manifestantes. Se isso, por um lado, pode parecer uma tentativa de manter a revolução “pura”, na verdade acaba por enfraquecer o movimento que, como qualquer outro, precisa de liderança e objetivos claros. E o filme, por vezes, acaba comprando essa despolitização, não nos dando informações suficientes para entender claramente o que se passa no governo ucraniano — quando descobrimos que Yanukovich não apenas se recusou a assinar o acordo com a UE mas, além disso, fez combinações perigosas com a Rússia, não sabemos exatamente o que foi acordado entre os países.

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Mesmo faltando detalhes, porém, a aspiração dos ucranianos é clara: a independência verdadeira de seu país em relação à Rússia — “Durante 23 anos, tivemos nossa independência somente no papel.” — e se juntar à União Europeia e assim, finalmente, se estabelecer como “um país europeu”. Um desejo definitivamente nobre e válido, que o povo ucraniano busca de forma pacífica, tranquila, através de concentrações majoritariamente centradas na Maidan, a Praça da Independência. O otimismo e a determinação daquelas pessoas é contagiante — eles se encontram extasiados por sua missão, e um personagem chega a dizer, logo no começo da projeção, que “sempre quis estar nas linhas de frente”.

Tudo isso forma um contraste gigantesco com a brutalidade da polícia, que agride os manifestantes de forma cruel, inumana e praticamente impossível de escapar. É importante perceber, também, que o maior ato de “violência” por parte dos manifestantes é de defesa: quando eles usam o fogo iniciado pela própria polícia para tentar sufocá-los com a fumaça.

Aliás, se a força das imagens de Winter on Fire é suficiente para que Afineevsky se sinta seguro para não investir em uma linguagem cinematográfica ousada, o diretor ao menos consegue encontrar simbolismos eficientes, como quando mostra pessoas pisando em um panfleto do presidente durante uma ocupação do prédio da administração pública de Kiev. Os recursos gráficos utilizados para indicar onde a ação está ocorrendo também são eficientes.

Merecedor de seu posto entre os indicados na categoria de Melhor Documentário em Longa-Metragem do Oscar, Winter on Fire é um registro importantíssimo de um momento inspirador para o povo da Ucrânia e vergonhoso para seu governo, que preferiu partir para cima de seus compatriotas com violência (ou seja, ignorância) em vez de ouvir o que eles tinham a dizer. Mas os ucranianos, mesmo assim, continuaram erguendo suas vozes, tornando este um documentário otimista em meio às imagens terríveis que nos apresenta.


“Winter on Fire: Ukraine’s Fight For Freedom” (Ucrânia/Reino Unido/EUA), dirigido por Evgeny Afineevsky.


Trailer – Winter on Fire: Ukraine´s Fight For Freedom

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