Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme

Logo de cara a câmera sobrevoa um presídio, do lado de dentro, um carcereiro entrega para um recém “ex detento” primeiro um lenço de seda, seguido por um relógio dourado, um prendedor de dinheiro “sem o dinheiro”, um anel e por fim, um enorme celular vindo diretamente dos anos 80. A figura saindo da cadeia é o famigerado Gordon Gekko (Michael Douglas) e a câmera é o olhar de seu próprio criador Oliver Stone, uma dupla que volta, vinte anos depois, para acabar de contar a história desse personagem. Pelo menos era isso que parecia.

Gekko sai da prisão rodeado por carecas mal encarados, tatuados e um negro com toda banca de gangsta, que entra na limusine e deixa aquele homem da bolsa de valores, que provavelmente roubou mais dinheiro que todos eles juntos, ir embora, melancolicamente, em um taxi qualquer. É por essas e outras razões que Oliver Stone pode ser colocado em um patamar um pouco mais elevado de diretores, já que, o que sua câmera conta para o espectador em uma cena, talvez seja mais que a grande maioria dos filmes atuais contam em noventa minutos.

Mas esse começo promissor é uma verdadeira faca de dois gumes, já que, sem muita cerimônia, Stone depois disso, não parece muito preocupado em fazer um filme que possa ser considerado menos que grandioso. Para isso, não economiza uma trama extremamente intrincada, cheia de detalhes e que, no final das contas, funciona muito mais de uma maneira independente do que como uma sequencia direta do primeiro filme.

Seria fácil tirar Gordon Gekko, e todas poucas referências de seu antecessor, e ainda ter uma trama competente sobre um jovem (Shia LaBeoulf) que trabalha na bolsa de valores e, antes da crise que derrubou-a pouco tempo atrás, vê a empresa na qual trabalha desabar e ser comprada por preço de banana por um outro especulador. Desse desastre mercadológico, o garoto ainda perde o chefe, e figura paterna (Franck Langella) quando esse se suicida.  Por uma ironia do destino, o herói é namorado da própria filha de Gekko, e logo esse mesmo acaba cruzando a vida do novo genro e participando com ele de uma espécie de plano de vingança.

Se por um lado, Gekko se mostraria facilmente substituído por outro personagem qualquer, por outro, Stone parece se divertir em dar a Douglas a oportunidade de fazer seu Hannibal Lecter. Durante a maior parte do filme o herói de LaBeoulf recorre a Gekko como a própria Clarice Sterling de Jodie Foster visitava o famoso canibal, a diferença é que em Silêncio dos Inocentes não existia a necessidade de, em algum momento, presentear o filme para o “coadjuvante”, coisa que Stone não consegue fugir.

Por mais que tudo ao redor da trama pareça se esforçar para dar a Gekko essa segunda chance, no fundo, o espectador que viu o primeiro fica a espera do golpe final, da cartada que mudará o rumo de toda história, e, bem antes dela começar a se formar é fácil enxergá-la. O que deixará muita gente no cinema dar aquela tapa na testa e murmurar “burro” quando vê o herói do filme caindo como um pato na estratégia de Gekko, diminuindo demais a força dessa reviravolta.

Mas ainda assim, Stone parece a vontade com tudo isso, como se estivesse mais a fim de contar sua história do que de criar um novo clássico do cinema, talvez desesperado para colocar seu Gordon Gekko a frente desse mundo moderno, que respira, muito mais que nos anos 80, esse ar cheio de cifrões, ações e bolsas. Nesse desespero de trazê-lo de volta a ativa, comete apenas o pequeno erro de amolecer demais aquele mau caráter que pouco se importava com qualquer coisa ao seu redor a não ser o tamanho de sua conta bancária. Mesmo de um modo mais que maquiavélico, esse novo Gekko de Stone parece procurar até se redimir da péssima infância que deu à sua filha, e quase se torna um “vô babão” quando descobre sua gravidez (isso foi um spoiler!)

A pena disso tudo é ver o quanto ainda o personagem funcionaria, de um jeito cínico e bem caracterizado por Douglas, que o tem nas mãos. É fácil acreditar no que ele fala, e isso conta muito a favor da trama, do mesmo jeito que é impossível não admirar uma espécie de charme oldschool de seus atos, como se ele não estivesse preocupado em se adaptar àquele mundo, já que sabe que o mundo fará isso por ele. Em um certo momento fica orgulhoso da coragem do personagem de Langella, já que nos dias de hoje os homens não tem mais a honra de se suicidar, palavras duras, mas que compõe perfeitamente esse jeito Gekko de ser.

Ao seu lado, LaBeouf até segura bem o ritmo de seu personagem, mesmo rodeado de verdadeiros leões como Douglas, o próprio Langella e, na maior parte do tempo com o competentíssimo Josh Brolin, cada vez mais calcando seu lugar entre os grandes do cinema e aqui não fazendo diferente. Mesmo sendo o mais perto de um vilão que o filme tem, não se perde em algum tipo de caricatura, faz apenas com que seu personagem pareça acreditar em tudo que está fazendo, deturpado pelo mundo ao seu redor. Com ele, ainda dá as caras a extraordinária figura de Eli Walach, marcante em cada palavra que suspira, ou assobia, durante o filme.

Stone talvez só não consiga um resultado mais poderoso, principalmente por não conseguir ancorar sua trama em um lugar um pouco menos grandioso, fazendo falta um pouco daquele pé fora do mercado de ações que o protagonista de Charlie Sheen tinha no primeiro, um ponto de referência para deixar todo clima de seu filme maior e tirar um pouco seu espectador da zona de conforto, olhando somente para personagens que ganham milhões e dão cheques de trinta mil dólares como se comprassem pães na padaria.

Pelo menos, o diretor dá essa derrapada com todo estilo, já que continua firme e caprichoso, com planos longos, personagens fortes, diálogos com algo pra falar e uma falta de preocupação em ser moderno, com uma câmera que segue para o alto, refletindo o próprio mundo pelo prédio envidraçado, sem deixar seu espectador enxergar o que está dentro, mas logo mostrando que de dentro a visão é limpa e clara. Um estilo de dirigir que não se importa de sair desse mesmo lugar alto para descer, em um plano semelhante, até o nível da rua ao anunciar a grande queda da bolsa, uma preocupação estética que parece muito mais esquecida no dias de hoje, como se os cineastas tivessem vergonha de fazer o simples e objetivo, ao invés do rebuscado e sem sentido.

E a verdade é o que Stone vem mais procurando nos últimos anos, mergulhando seu cinema em águas tortuosas, que sempre fazem questão de desaguar em críticas, doa a quem doer. Não uma necessidade de fazer barulho, mas um busca por passar uma mensagem contra essa sociedade toda, porém que, infelizmente, não se importa de deixar seu filme perambular como um fundo de renda seguro, em um gráfico sem picos e vales, um pouco entendiante, mas que, no fim das contas, faz exatamente aquilo que já era esperado que fizesse, mesmo sem empolgar.

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Wall Street: Money Never Sleeps (EUA, 2010), escrito por Allan Loeb e Stephen Schiff, dirigido por Oliver Stone, com Michael Douglas, Shia LaBeouf, Josh Brolin, Carey Mulligan, Eli Wallach, Susan Sarandon e Frank Langella

3 Comments

  1. é, o Oliver Stone deu uma certa decaida nessa última década… mas é inegável seu título de mestre pelo que fez em sua carreira… só acho que já é hora desse velho Oliver Stone voltar a dar as caras…

  2. esse cara fazia filmes bons mas este é tudo o contrario … q filme e esse rsss

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