Walden | Sobre decisões


Nascida em Praga nos anos 60, a cineasta Bojena Horackova busca por liberdade no Ocidente em Paris aos dezessete anos. Várias décadas depois surge Walden, um filme que mistura traços biográficos de sua idealizadora e um tom nostálgico e romântico.

Horackova já desenvolveu suas ideias sobre o passado em “A l’est de moi”, um semi-documentário de 2008, mas aqui existe a possibilidade de revisitar mais uma vez a época do comunismo no Leste Europeu em um filme que se localiza geograficamente na Lituânia e é falado em um idioma que pouquíssimas pessoas fora da região conhecem.

Apesar da barreira da língua a história é bem comum: casal de jovens decide que é hora de partir do inferno do comunismo em busca de oportunidades na Europa civilizada. Há empecilhos que ambos devem transpor primeiro, mas a primeira delas é entender o quê querem da vida.

Ele é o que mais deseja partir. Vivendo com os pais e a avó em uma casa que é um cubículo, revende itens no mercado negro até surgir a chance de passar a fronteira.

Ela se inspira em suas ações. Gosta de fazer as vendas e enxerga uma possibilidade de ser livre de amarras que nem ela sabia existir no lugar onde nasceu.

O clima de Walden é levemente melancólico. A fotografia cinzenta é típica de filmes da época na região, mas mais significativo é a ausência de pessoas nas ruas e a impressão de estar sempre vigiado.

O filme faz uma guinada interessantíssima a partir de sua metade, juntando uma narrativa décadas depois com parte dos envolvidos. Só descobrimos aos poucos, porque não esperamos esse desenrolar específico da história. Acostumados a romances onde os amantes se entregam de corpo e alma, a trama ao mesmo tempo que impressiona faz pensar no passado como fonte de ressentimentos ou de uma nostalgia boa, sobre as origens das decisões que nos fez chegar onde estamos hoje.


“Walden” (Fra, 2020); escrito e dirigido por Bojena Horackova; com Fabienne Babe, Ina Marija Bartaité e Andrzej Chyra.


CONFIRA A COBERTURA COMPLETA DA 44° MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO