Você vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos

por Vinicius Carlos Vieira em 02 de Dezembro de 2010

E depois de uma volta rápida por Nova York com o mediano “Tudo Pode Dar Certo”, para matar a saudade da Grande Maça, Woody Allen está de volta ao seu “novo” habitat natural, a Europa. Em cinco anos, “Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos” é seu quinto filme no Velho Continente, o terceiro na Inglaterra, e do mesmo modo que em toda sua carreira, parece se dar o direito de apenas contar uma história, e não entrar para ela como fez em “Matchpoint” e “Vicky Christina Barcelona”

O bom disso é que Allen tem crédito de sobra, e mesmo que derrape de vez em quando, ainda assim mostra um nível de produção altíssimo, portanto, seu nome no pôster da entrada do cinema garante sim que você não vai sair do cinema sem nada que tenha lhe valido o ingresso.

Dessa vez, o diretor parece tão a vontade com sua obra que pouco se mete dentro dela, é lógico que sua mão está ali, em cada linha de diálogo e situação, mas, ao se decidir por contar a história desses dois casais que acabam tomando caminhos diferentes diante de suas separações, Allen se deixa levar totalmente por esses rumos, como se observasse aqueles caminhos apenas com sua câmera.

E ainda que Allen coloque um narrador para posicionar e dar ritmo para seu filme, logo de cara cita Shakespeare sobre a vida ser “uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada”, talvez nesse momento querendo lembrar que o que vier a seguir pode não ser o mais bonito, nem o mais romântico, mas é com certeza aquilo que é. Para isso traça uma teia de relações ruins, primeiro do casamento de trinta anos que acabou quando o marido decidiu que não queria mais envelhecer e, logo depois, da filha deles, que se descobre em um limbo de emoções diante do marido que ainda tenta emplacar um próximo livro depois de um único sucesso.

Não é a toa que o ponto de partida disso tudo seja justamente a ida da esposa/mãe recém separada ao encontro de uma vidente, e com isso fazendo-a participar de toda história do filme ao citá-la a todo tempo e seguir seus conselhos ao pé da letra, tudo isso, não para mostrar que o destino está marcado, mas sim que algumas coisas são tão óbvias que seria impossível fugir delas. Allen trafega por um mundo moderno onde os altos objetivos criam frustrações evidentes.

De um lado o pai procura uma juventude que nunca terá de volta, mesmo ao lado de uma “prostituta de meio período” com metade de sua idade, com a qual decidiu casar. Do outro, a filha e o genro acabam descobrindo que, talvez, suas felicidades estejam próximas, mas fora de seus casamentos. Por fim a mãe, guiada pela vidente, apenas se deixando levar, atrás não de seu “Homem dos Sonhos” (mesmo que, ironicamente, seja a única que o encontre sem problemas), mais preocupada em entender como ela chegou ali (tanto nessa quanto em outras vidas) e como fará para passar dessas dificuldades.

Todo esse emaranhado emocional só tem sentido graças ao olhar de Allen, não só criando sua trama a partir de conflitos extremamente bem definidos, que ajudam o espectador a acompanhar tudo que está vendo, como sabendo olhar para tudo isso sem deixar as conclusões caírem de ritmo. Seus personagens nunca perdem o foco de onde querem chegar, criando aquela inquietação característica de seus filmes e que, em linhas gerais, parecem sempre carregá-los para algum tipo de desastre iminente. Allen não parece saber conviver com personagens felizes e esperançosos, há sempre aquele escorregão que lhes parece inevitável e que ajuda seus filmes a sempre deixarem um gosto característico na boca, meio amargo até, mas só dele.

Isso tudo é resultado do controle de Allen, seja por uma narrativa que não se importa de, vez ou outra, deixar de lado um personagem para o bem do andamento de certas linhas (coisa que deve chatear alguns, pois justamente quem mais perde com isso são o casal de pais separados, formado por Anthony Hopkins e Gemma Jones, tremendamente simpáticos e seguros), como pela câmera mais que segura de Allen, que não se perde em sequencias longas, nem quando precisa fazer isso em um apertado apartamento.

Por outro lado, sem a acidez característica de suas comédias, nem o drama de seus momentos mais marcantes, “Você Vai Conhecer…” acaba não encontrando que caminho seguir, chegando talvez mais perto de um romance, mas ainda assim, permitindo que seus personagens, principalmente no fim, tomem caminhos bem distintos em seus tons, o que deixa difícil dar risada ou não da situação de alguns deles, ao mesmo tempo que olha para o outro lado e se decide por uma conclusão forte e dramática. Talvez uma escolha do próprio diretor em finalizar suas quatro histórias de jeitos distintos entre elas, de modo corajoso, mas que, como chega de supetão, faz ser difícil, do lado de cá, tomar essas decisões sem nem um incômodo.

Mas no fim de tudo Allen quer mesmo é mostrar que cada decisão é uma nova vida, independente do caminho que se tome, como se as vidas passadas indicadas pela vidente acontecessem todas na mesma vida, ao mesmo tempo lembrando que, muitas vezes, os maiores desejos podem se realizar, mas os meios às vezes podem voltar para dar as caras. Lições que até passam correndo pelo filme, mas fazem com que, pelo menos, o diretor consiga fazer mais um filme cheio de assunto a ser dito, do jeito que muitos tentam, mas poucos conseguem.

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You Will Meet a Tall Dark Stranger (EUA, 2010), escrito e dirigido por Wood Allen, com Gemma Jones, Anthony Hopkins, Nami Watts, Josh Brolin, Freida Pinto, Antonio Banderas e Lucy Punch

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