Vidas que se Encontram | Banal, barato e agradável


Este filme barato desafia o status quo. A família é caucasiana. Suas relações são heteronormativas. Seu status social é classe média. Vidas que se Encontram é um filme espiritual, mas sem apelar para religião. Não existe uma corporação vilã. Há pessoas bondosas e maldosas, e não é possível acertar quem é quem baseado em estereótipos. Seus diálogos são diretos, tediosos. Não há espaço para interpretação. Não há cinismo. E é tudo isso que o torna adorável.

Em tempos onde as pessoas não aguentam mais pandemia, violência nas ruas, críticas a formas tradicionais de família, à cultura predominante e ao estilo de vida dos que construíram a sociedade próspera que vivemos, assistir a um filme tão simples e direto é um deleite para os olhos. É um descanso do streaming irritante, da TV aberta odiosa e das notícias ignorantes mundo afora.

Sua história é de um pai de família de meia-idade que desenvolve Alzheimer precoce e como isso impacta sua família, mas sua mensagem é sobre os encontros casuais entre estranhos que podem renovar nossa esperança na humanidade. Sem exagero.

O elenco não é nada de mais, assim como seu roteiro, direção, produção. Rob Diamond é a pessoa por trás do filme. Acostumado a produzir filmes modestos que vão direto para Home Video, este provavelmente é mais um deles. Poucas pessoas o verão, pois quando os cinemas abrirem estarão abarrotados dos mais dos mesmos sobre as injustiças do mundo pós-moderno e outras ninharias pelas quais as pessoas se esbofeteiam nas ruas e nas festas de família.

Me surpreende como é tratada a espiritualidade. Acostumados a ver fanáticos religiosos bancando produções onde exaltam o seu deus, o seu ódio, e lançam um hit de música gospel, é de cair o queixo a simplicidade como Deus está presente nos momentos-chave da história, em que ele é necessário para entender como o mundo funciona. Notamos sua necessidade para as provações da vida, mas nem por isso quando Ele é citado se torna panfleto publicitário. E esta singela inserção é muito mais rica e eficiente; e muito menos chata do que um hit gospel.

É encantador também como este filme nunca se rende às manipulações baratas. E bastava uma para ele se tornar horrível. E assim como as tentações que Cristo passou no mundo, este filme não cai em nenhuma delas. E ainda assim é piegas como poucos filmes caseiros conseguem ser. Sua breguice é tão transparente que fica difícil não gostar, porque é muita honestidade e até inocência juntos. Note os diálogos. Nenhum é inspirador. São todos mundanos e anti-naturais. São feitos para filme. É quase tão fake quanto The Room, o clássico de Tommy Wiseau, com a diferença que há uma estrutura mínima para entendemos que ele não é trash. É apenas bem medíocre.

Os desafios dessas pessoas de classe média são hilários. A esposa precisará voltar a trabalhar ou morar em uma casa menor, de 150 mil dólares. Um barraco, praticamente. O filho metido em drogas tem uma tornozeleira em prisão domiciliar e não consegue evitar ser o inútil da família, assim como seu cunhado. As mulheres são praticamente invisíveis na história, e os vizinhos parecem viver nos lúdicos anos 80, andando de bicicleta pelo bairro fazendo sua boa ação do dia.

É difícil entender como algo tão banal se torna tão agradável. O segredo está em que o banal é raro hoje em dia. Se não há nada de absurdo ou fantástico na trama nos acostumamos a deixar de lado. Se não existe hype ninguém irá comentar. Então não vale a pena assistir. É a audiência das redes sociais. Elas precisam ver o top 10 da Netflix ou serão vistas como alienadas digitais. O irônico é que não há nada mais alienante que ver o que todo mundo vê.

E apenas alguns verão o que realmente importa. E será delas o reino dos céus.


“Our Father’s Keeper” (EUA, 2020), escrito por Chris Dallimore e Rob Diamond, dirigido por Rob Diamond, com Kyler Steven Fisher, Shayla McCaffrey e Craig Lindquist.


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