Vício Frenético Filme

Vício Frenético

Uma das coisas mais interessantes do cinema (pelo menos para mim) é quando um diretor que caminha entre produções muito mais “de arte” resolve se aventurar em gêneros chamados corriqueiros, e é por isso que um cineasta como o alemão Werner Herzog, conhecido por seus filmes lentos e herméticos, ao decidir fazer uma refilmagem de um policial do começo da década de 90, faz com que seja impossível que o resultado seja frustrante. Ainda mais com a presença de Nicolas Cage.

Antes de mais nada, um pequeno adendo (dois na verdade). O primeiro, é o de considerar Vício Frenético uma refilmagem sim (briga que vem acontecendo entre Herzog, que diz que não, e Abel Ferrara, diretor do original de 1992, que sequer diz querer ver a versão nova), já que, diante de tantos pontos em comum entre as duas tramas, fica impossível ignorá-los. O segundo é de considerar Nicolas Cage uma ótima somatória ao filme também (coisa que eu não corroboro na maioria de seus trabalhos), já que é sabido sua magnifica habilidade como ator dramático em relação a seus péssimos trabalhos como herói de filme de aventura. Fim do adendo, ainda que seja exatamente esses dois nomes que fazem de Vício Frenético espetacular: Herzog e Cage.

O primeiro fazendo o que sabe fazer de melhor, que é contar uma história, e o outro criando um personagem tão complexo que parece viver na tela do cinema com uma naturalidade e um trabalho de composição perfeitos. Que não tente criar um personagem profundo e perdido dentro dele mesmo (como Harvey Keitel faz no filme de Ferrara), mas sim um de um jeito esquemático e perfeitamente convincente. Seguro de cada nuance de sua atuação.

A impressão que se tem ao vê-lo na tela é de um personagem com uma certa falha gravitacional, como se estivesse sempre prestes a cair, com uma velha arma pendendo na cintura e um olhar vazio e perdido, que vaga por esse mundo esquisito criado por Herzog. O “Mal Tenente” (tradução literal do título original do filme) de Cage, com o ombro esquerdo sempre mais baixo que o direito, problema que consegue ao salvar um preso durante o furacão Katrina em New Orleans, e que engatilha aí um vício que começa com seu analgésico e vai até onde se puder imaginar, é deturpado ao mesmo tempo que extremamente simpático. E essa talvez seja a grande arma do filme (e talvez a razão de Herzog afirmar não se tratar de uma refilmagem).

É um acidente ao tentar salvar uma pessoa que cria o demônio dentro daquele homem, mesmo segundos antes ele tendo roubado fotos íntimas da esposa de um outro policial, mas isso ninguém lembra, e Herzog sabe exatamente disso. A começar pelo próprio personagem, muito mais desenvolvido que seu anterior, ganhando não só um nome, mas sim um relacionamento amoroso, uma família e uma verdadeira razão para ele se afundar naquele mundo. Tudo isso, um pouco deturpado e acompanhando toda loucura que o persegue, mas, é preciso dizer, extremamente bem cuidado dentro da trama, amarrado e convincente. Torto, porém convincente.

Sobrando hábilidade com a câmera na mão, e ainda mais preciso ao saber o que é necessário para desenvolver seus personagens, Herzog opta principalmente por adotar um tom quase caricato para o filme, não engraçado, mas sim convidando todos para aquela loucura que deve se passar dentro da cabeça do protagonista. Não caindo na armadilha de criar esse mundo torto e meio sem lógica apenas inclinando sua câmera ou estourando cores na tela, mas pelo contrário, fazendo um filme extremamente normal, concreto, comum mas contundente, que se permite compartilhar das alucinações do protagonista com o espectador. E mais, se sente a vontade o suficiente para racionalizar (pelo menos diante da razão do tenente) toda e qualquer ação dele, criando assim uma realidade insandecido e carregando a platéia do cinema para esse lugar, cheio de iguanas, jacarés, drogas e almas dançando. Um mundo que começa a ruir diante de seus olhos e você acaba rindo junto do personagem de Cage.

A impressão que se tem é de Herzog parecer menos afim de criar polêmica (como Ferrara parecia querer, tanto pela época, quanto por seu estilo), tendo a preocupação de contar aquela história e não de chocar o espectador (coisa que fica clara ao comparar ações semelhantes dos protagonistas dos dois filmes, mas que resultam em reações totalmente diferentes). Não que Herzog seja menos corajoso, se bem que seu estilo mostra sim uma contenção maior que a de Ferrara, mas sim por optar por pegar mais leve, não só com o personagem mais com toda estrutura de seu filme.

Esse novo Vício Frenético segue uma linha narrativa muito mais concreta e objetiva em um roteiro muito menos delirante, mais comum até. Retrato não de um cineasta “menos corajoso”, mas de um que quer ser visto em circuito comercial (o Vício Frenético de 92, talvez nem conseguisse financiamento nesse mundo “careta” de hoje) e talvez o mais importante disso: que consegue assim atingir ambos alvos (choque e comercialização) com uma classe extraordinária. Dar uma olhada para trás, ao final do filme, e ver a quantidade de barbaridades que o protagonista fez e mesmo assim não sair do cinema chocado é algo extremamente difícil de ser atingido, mas Herzog consegue. Assim como comparar a redenção de ambos personagens e perceber o quanto Herzog está mais preocupado, mesmo menos contundente, com o fim que quer dar ao seu personagem, muito mais otimista, e até surpreendente, mas ao mesmo tempo longe de ser conformista, como o de Ferrara.

Tanto Herzog e Cage, como Ferrara e Hervey Keitel (do filme original) fazem em Vício Frenético o mesmo que Scorsese e de Niro fizeram em Taxi Driver (não comparando-os em qualidade em nenhum momento): criam um retrato vivo de um personagem que facilmente seria condenado em qualquer outro filme (bom, talves o Travis Binckle de de Niro seja um mocinho perto do “mal tenente”, tanto do de Herzog quando do de Ferrara), mas que aqui tem sua personalidade dissecada até o fundo de sua alma. E que Abel ferrara não me escute, mas seu “mal tenente” de New York, perde feio para esse novo, e menos “mal”, policial de New Orleans.


The Bad Liutenant: Port of a Call- New Orleans (EUA, 2009) escrito por Willian Filkestein, dirigido por Werner Herzog, com Nicolas Cage, Eva Mendes, Val Kilmer, Xzibit e Brad Dourif