Vice | Um filme sobre o vício em poder

Vice Filme

Vice é, logo depois de A Grande Aposta, mais um filme escrito e dirigido por Adam McKay tentando dialogar com o público leigo a respeito de detalhes sórdidos da máquina estatal americana. Se no filme anterior o alvo era o sistema financeiro responsável pela crise de 2008 agora vamos um pouco mais para o passado dar de cara com o vice-presidente Dick Cheney durante a era Bush Jr.

Este é um filme sobre bastidores da política, mas diferente da série House of Cards, há um tom bem menos glorioso. Quase todo o filme se passa em lugares apertados e escuros (um jogo de lentes torna todos muito próximos e a profundidade da cena muito menor), com poucas pessoas, e geralmente cabisbaixas e não querendo chamar atenção. Essa é a síntese comportamental do próprio Dick Cheney, que acumulou poderes durante a presidência de Bush Filho ainda que a função de vice-presidente seja considerada praticamente simbólica naquele país.

Mas há motivos para a carreira de Cheney desbancar em uma posição de menos prestígio, e justamente por isso é que a sensação geral do filme é tudo estar sendo feito às escondidas.

A atuação de Christian Bale é tão perfeccionista que é quase como se o ator não estivesse lá. Em seu lugar há uma versão furtiva e devidamente ridicularizada de Cheney. Criação de sua brilhante mulher Lynne, interpretada por uma Amy Adams, que melhora sua desenvoltura dramática a cada novo projeto que pega. É ela quem percebe o potencial amoral de seu marido, ainda que nós mesmos não consigamos enxergar potencial algum. Então, como que um reflexo do voto de confiança de sua esposa, o próprio Cheney começa a aproveitar toda e qualquer oportunidade para subir um novo degrau no jogo de influências de Washington.

Entre elas há a tutela do casca grossa Donald Rumsfeld, que não tem papas na língua e que vira uma incógnita no filme: como alguém tão incompetente em se relacionar se manteve por tanto tempo na Casa Branca? Não importa. Ele foi um trampolim para o futuro vice-presidente, é uma interpretação desperdiçada de Steve Carell e foi o transmissor dos valores que Cheney utilizou sua vida inteira. Quando ele questiona Rumsfeld sobre o que ele deve acreditar sua resposta é uma gargalhada que pode-se ouvir até depois que ele fecha a porta em sua cara. Isso é tudo que você precisa saber sobre os valores políticos como um todo visto no filme.

Adam McKay parece particularmente fascinado pelo seu estilo em explicar conceitos complexos usando analogias do dia-a-dia, como usar um cardápio de restaurante com os itens escusos escolhidos pela equipe de Cheney para conseguir o que quer a todo custo. Trazendo este vício de linguagem de A Grande Aposta, que se sai muitíssimo melhor com as alegorias financeiras, aqui esses momentos de interrupção apenas jogam o espectador para fora do filme. Como o momento em que os créditos iniciais (reais) do filme começam a subir como um final alternativo que poderia ocorrer na vida real. É engraçado, funciona, mas não colabora muito para a narrativa do filme, e arrisca prejudicar toda a história por um capricho estilístico do diretor.

Aliás, o humor constante em todo o filme consegue amenizar as barbaridades que testemunhamos serem cometidas em nome do poder a todo custo. E talvez a maior sacada de todas tenha sido de fato o narrador do filme, interpretado por Jesse Plemons e que se mantém como um personagem-coringa até um momento derradeiro que pega o espectador de sopetão. Se há justiça poética nos filmes mais sombrios, o personagem de Plemons poderia muito bem entrar na categoria.

Porém, McKay não nos deixa nunca esquecer o esquema macabro que se estabelece na Casa Branca ao demonstrar, na primeira decisão governamental vista no filme, o impacto direto do que foi dito por um presidente em camponeses de uma vila do outro lado do mundo sendo massacrados por “decisão estratégica”. Essa dinâmica se repete durante todo o filme, em uma das decisões fortes na trama, que estabelece um peso difícil de esquecer e que nos lembra os momentos que a galera que comenta sobre o “imperialismo norte-americano” têm razão.

Ao mesmo tempo, há um certo sarcasmo implícito na figura dos personagens, pois apesar deles conseguirem galgar os níveis de poder da nação mais poderosa do mundo, e fazer o que muitas pessoas ingênuas a respeito de política duvidariam que pudesse ser de fato feito, Vice nunca nos deixa de lembrar que todas aquelas pessoas, além de seres humanos horríveis, são medíocres no que fazem. E eu não gostaria de assistir um filme comandado pelos verdadeiros profissionais.

Há uma certa rima temática na visão de McKay com Scorsese em O Lobo de Wall Street. Ambos os diretores mantém a diversão em alta ainda que por outro lado haja um olhar de clara reprovação moralista sobre tudo que os personagens de Leonardo Di Caprio e Christian Bale (e suas trupes) fazem nos filmes. Mas enquanto Scorsese parece não ter medo de ir até as últimas consequências da vilania humana, McKay, nos mostrando o lado podre dos republicanos, parece tão tímido que é como se os vilões do filme fossem uma versão mais incompetente dos democratas.

Sim, este é um filme de viés liberal (norte-americano). Mas não porque ele é tendencioso, mas porque ele mostra um pedaço da história que mancha apenas um lado dela. Tirando isso, são apenas fatos; e talvez nem sejam os mais sórdidos. Porém, mesmo assim o diretor/roteirista parece se achar na obrigação de incluir uma cena no meio dos créditos finais que tenta se desvencilhar desta crítica.

Aliás, como crítica política, o filme comete o deslize de ser superficial em alguns momentos onde tenta ligar o abuso da tortura norte-americana durante a campanha de guerra ao terror e a insistência em invadir o Iraque como a causa da criação de movimentos extremistas como o ISIS. Não que isso não seja possível e tenha acontecido de fato, mas a postura do filme é conservadora demais. Em contrapartida os grupos de populares criados para manipular a opinião pública é uma das melhores sacadas no filme, pois consegue unir decisões internas com guinadas à direita da população como um todo.

Vice é um filme sobre um vice-presidente que pode mais que todos os seus antecessores, e pode mais até que os presidentes anteriores. Seu nome não é apenas sobre isso. Significa vício em inglês; vício pelo poder. Vício por controle. Por dinheiro. Por qualquer coisa que suba acima das cabeças de seres humanos medíocres e os faça manipular tudo e todos, matando até alguns nesse processo, para conseguir seus objetivos, sejam eles quais forem. Bom, se você já passou da fase de escolher lados, sabe que basicamente esse é a sinopse de qualquer partido político, não é mesmo?


Vice” (EUA, 2018), escrito e dirigido por Adam McKay, com Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell e Sam Rockwell.

Trailer do Filme – Vice

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