Up - Altas Aventuras Filme

Up – Altas Aventuras

Um exercício interessante para se fazer ao entrar no cinema em um filme da Pixar é dar uma rápida olhada para trás e tentar se preparar para o que vem a seguir. Uma garantia de que irá se surpreender e perceber que, em seu décimo filme Up – Altas Aventuras, o agora braço da Disney dirigido por John Lesseter, não dá pinta de que vá parar de fazer isso com o seu público. A Pixar hoje é, com toda certeza, a grande casa das maravilhas do cinema.

Mas se chamá-los (seus filmes) de “Maravilhosos” pode parecer exagerado (e não é) para Up – Altas Aventuras tal adjetivo se torna menor ainda diante de sua grandiosidade, já que ele não é só mais um acerto da Pixar, mas sim mais uma aula de cinema. Como eles tem feito ano após ano.

Up não tem medo de ser lúdico em um mundo que parece se levar à sério demais. E muito menos tenta esconder seus sentimentos enquanto todos parecem lutar para se desvencilhar de toda e qualquer demonstração de emoção. Up é feito para fazer o espectador rir, chorar e se empolgar. É feito para você sair do cinema feliz por ter acompanhado a grande aventura do velho rabugento Carl Frederikssen e do garotinho escoteiro Russel.

O diretor Peter Docter, que também esteve à frente do ótimo Monstros S.A, não parece preocupado com nada a não ser contar essa história do melhor jeito possível, e para isso cria uma experiência narrativa digna de uma obra-prima cinematográfica. Do mesmo jeito que o Wall-E de Andrew Satanton, UP parece saber que todas ferramentas narrativas do cinema estão aí a disposição, apenas esperando para serem usadas do jeito correto. E ele as usa criando mais um filme rico, mas que não se deixa ser hermético. Bem pelo contrário.

Não uma armadilha para capturar o espectador padrão, mas sim um lugar para qualquer um que entrar no cinema se esbaldar diante do que está vendo. Não economizando em uma linguagem cinematográfica que a cada semana de estreias se mostra mais perdida em blockbusters que não parecem querer “conversar” com o espectador. É lógico que em linhas gerais Carl e Russel viajam para a Venezuela na casa do primeiro, com ela voando presa por balões, e que lá tem que enfrentar a loucura do antigo aventureiro, e herói de infância de Carl, Charles Muntz e seus cães falantes. Para que tudo isso funcione, e não se torne uma aventurazinha despreocupada, é simples: Docter ataca o óbvio, fazendo com que tudo tenha uma razão para estar ali.

A primeira sequência de Up, mostrando a vida de Carl do momento que sai do cinema, após ver seu herói Charlez Muntz, e logo depois conhecer sua futura esposa Ellie, ainda crianças, até o dia que fica viúvo. E isso é uma verdadeira lição de como compôr um personagem e fazer um cinema inteiro ir às lágrimas. Carl não só tem força e profundidade suficiente para levar o filme nas costas, ou içar sua por balões, como se torna um personagem apaixonante. O cinema acompanha, totalmente hipnotizado, o Sr. Frederikessen em sua aventura para (e pelas) florestas da América do Sul, carregando seu passado e tentando dar um último presente para seu grande amor, sem perceber que essa “grande aventura” seria pequena perto da verdadeira “grande aventura”: aquela do prólogo, a da vida. E dá-lhe lágrimas.

Docter podia se “acovardar” e parar por aí, mas parece fazer o contrário e criar uma história onde ninguém percebe que não consegue dar o próximo passo enquanto não se desprender de sua “casa içada por balões”. Muntz ainda está à procura de seu animal pré-histórico, Russel do sorvete de chocolate, Dug, o cachorro, da aceitação de seus companheiros caninos (por favor, nos três exemplos vale um esforcinho para entender as metáforas). Apenas Kevin, o inocente animal pré-histórico, consegue olhar para a frente e grasnar na direção de seus filhotes, sendo o único que consegue achar o caminho de volta daquele labirinto (aqui também continue exercendo aquela interpretação anterior…um ótimo exercício), e com isso, ou por isso, é perseguido por uns e protegido por outros. Up merece ser visto e revisto várias vezes, sendo lido e re-lido em cada uma delas de formas e mais formas que não irão faltar.

O mais importante é que Docter não esfrega nada disso na cara de ninguém de um jeito melodramático, mas sim se preocupa em criar um visual estarrecedor para contar essa história, e, talvez o mais importante, não se envergonha de acalmar o filme (e seu apreço visual), para apostar em ótimos diálogos e cenas que não deixa a graça de fora. Dois fatores obrigatórios em qualquer animação. Ágeis e extremamente bem balanceados, esses dois momentos fazem ainda mais de Up um filme divertido como poucos que dão as caras por aí.

E esse apuro narrativo impressionante não aparece somente na hora de compor suas sequências, ele ainda se apresenta com a mesma força no sentido puramente visual. Em um trabalho completo, empolgante e que parece melhorar à cada filme, a Pixar ainda mostra a todos que, mesmo nadando contra a corrente, nem precisa do 3D, usando as ferramenta que estão aí para enriquecer seu filme, mas que, mesmo sem se três dimensões, faz com que tudo na tela realmente pule aos olhos do espectador. Uma ferramenta, e não aquela mesma muleta, com a qual a maioria dos filmes vem se escorando.

Up – Altas Aventuras é obrigatório, e vai levar o público ao cinema não por causa do 3D, nem pela animação apurada, muito menos por ser muito engraçado, mas sim por ser uma história sensível e emocionante em níveis que parecem esquecidos no cinema atual.


“Up” (EUA, 2009), escrito por Tom McCarty, Pete Docter e Bob Peterson, dirigido por Pete Docter e Bob Peterson