Universal, AMC e Cinemark fecham acordo histórico


Não se preocupem, o cinema ainda não acabou, nem vai acabar. Mas mudar sim, isso ele vai. Não o cinema em si, mas com certeza o jeito que você o consome. Se essa é uma mudança que irá permanecer, só o tempo e a vacina que imunizará as pessoas do Covid-19 irão dizer. E lógico, dinheiro, tudo depende do dinheiro.

Os cifrões em discussão estão nos bolsos do estúdio Universal e das redes de cinem Cinemark e AMC. As duas são a maior e a quarta maior dos Estados Unidos. A AMC impera nessa lista com 620 cinemas aqui desse lado do Atlântico, com quase oito mil salas. A Cinemark tem 533, com quase seis mil telas.

Primeiro o acordo foi justamente com a AMC, a ideia era encurtar a janela de exibição. Hoje, depois que o filme estreia nos cinemas dos Estados Unidos, precisa de três meses antes de chegar a qualquer tipo de serviço de streaming ou “on demand” (VOD, como Google Play, por exemplo). Antes essa distância era praticamente um dogma sagrado dos exibidores, tamanha que alguns países usam ideias semelhantes como protecionismo de suas salas, como na França.

As conversas da AMC com os estúdios já tinham começado alguns anos atrás, lá por 2015, quando acordaram com a Paramount os “lançamentos curtos” de Atividade Paranormal: Dimensão Fantasma e Como Sobreviver a Ataque Zumbi. A ideia lá atrás era semelhante à de agora: Os filmes estreariam nos cinemas, mas duas semanas depois iriam paras a internet em VOD e a AMC continuaria lucrando com os “alugueis virtuais”. Provavelmente ninguém lembra disso, pois ninguém lembra muitos dos filmes também, então isso acabou não fazendo muito barulho em lugar nenhum.

 Mas isso foi quase meia década antes do Coronavírus.

Alguns meses atrás, lá para o meio de julho, foi a vez da Universal surpreender todo mundo com um acordo envolvendo, mais uma vez, a AMC. Ao invés do “mais ou menos s três meses” (na verdade, 70 dias), a Universal agora irá diminuir a “janela” para 17 dias. A ideia é simples, depois que o filme estrear nacionalmente nos Estados Unidos, “duas semanas corridas depois” (os filmes estreiam na sexta-feira, então seria de sexta a duas sextas depois e ainda o final de semana seguido), ele estaria livre para ser comercializado em VOD. A AMC ficaria então com 20% do dinheiro que entrar desse lado digital.

Para quem não está ligando o nome à pessoa, a Universal é aquele mesmo estúdio que ano que vem deve estrear, tanto o novo 007, quanto o nono Velozes e Furiosos, além dos terrores Candyman e a continuação do novo Halloween. Sem contar, é claro, a franquia Jurassic World e as animações Sing e mais um Minions.

Um outro ponto é que isso levava a crer que, mesmo sem muito detalhes, esses filmes todos estreariam nos cinemas americanos, só em cinemas AMC, o que deixou muita gente brava, inclusive a Cinemark, que deixou bem claro que nunca iria se deixar levar pelas vontades dos estúdios. Até ontem.

O acordo com a Cinemark é um pouco mais complexo, o que leva a crer que isso se estenda também para a AMC. Os filmes então permaneceriam em exibição nos cinemas por mais duas semanas caso o final de semana de abertura dele ultrapassasse a barreira dos US$ 50 milhões. Ainda deve existir uma compensação dos filmes “locados” nesse período, como na AMC, mas os detalhes não foram divulgados.

O problema é que, o que parece ser uma vitória de Cinemark e cia., na verdade é uma ilusão. Ou simplesmente um sinal do desespero das redes de cinema americanas diante do pessimismo dos tempos que estão chegando. Mesmo com uma vacina, o que garante que os americanos não irão “terraplanizar” essa discussão e acabar com índices baixíssimos de vacinados?

Fora isso, em um levantamento feito pelo IndieWire, em 2019, somente 16 filmes iriam ter conseguido “quebrar essas barreiras” dos US$ 50 milhões de abertura. Sem contar que 13 filmes ultrapassaram outra barreira prática, a dos U$100 milhões, mas sem a abertura tão boa, e entre eles se encontram sucessos de público e crítica como Entre Facas e Segredos, Era Uma Vez.. Em Hollywood, As Golpistas e 1917. Consequentemente, todos esses iriam para VOD duas semanas depois de suas estreias.

O texto do IndieWire escrito por Tom Brueggemann ainda levanta um aspecto delicado dessa discussão toda: o quanto os estúdios podem manipular absolutamente tudo isso. Desde redução do número de salas no final de semana de abertura, até um menor número de copias em cada cinema. Sem contar, obviamente, uma simples diminuição do dinheiro no marketing que levaria o público ao cinema e um trabalho posterior quando os filmes chegarem em VOD (ou “Premium VOD”, que resultaria em um precinho um pouco mais caro).

Hoje um estúdio fica com algo entre 50% a 60% do dinheiro que entra pelos ingressos físicos, no VOD isso deve crescer para algo em torno de 80%. Resumindo, mais dinheiro, consequentemente, um esforço maior da Universal para emplacar esse formato.

Por outro lado, isso garante que as salas de cinema voltem a receber grandes filmes, mesmo que seja por um período menor, o que pode salvar muitas empresas de um destino que era pouco otimista. Principalmente, pois estúdios como a própria Universal, Sony e Paramount, não têm acordos fixados com serviços de streamings, então a divulgação nos cinemas acaba sendo algo importante para qualquer sobrevida do filme.

Enquanto isso, Netflix, Warner, Disney e Amazon Prime continuarão fazendo suas próprias regras em seus streamings. Netfilx sem se preocupar muito com as salas de cinema, enquanto as outras mantém seus calendários passando pelas salas físicas e suas telonas. As notícias dos próximos capítulos devem aparecer logo, já que Mulher-Maravilha 1984 continua marcada para estrear em dezembro, mas nada impede da Warner anunciar a ida do filme para VOD ou diretamente para a HBO Max antes do esperado. (O que aconteceu minutos depois de eu acabar de escrever essas linhas. O filme agora irá entrar no serviço de streaming da Warner, HBO Max, na mesma data da estreis nos cinemas e deve ficar disponível para os assinantes por 30 dias).

Os outros estúdios ainda não anunciaram se seguirão o caminho da Universal com a AMC e a Cinemark, assim como esse acordo também não foi confirmado com mais nenhuma rede americana, portanto, novidades ainda devem surgir por aí nos próximos dias. Assim como o pessoal no Brasil deve confirmar ou negar as próximas estratégias das cadeias de cinemas para os próximos meses à partir dessas notícias. Mas não se engane, aquele cinema que você estava acostumado não será mais o mesmo, pelo menos não em termos do tempo em que o filme vai ficar nas telas antes de chegar no seu sofá.

Se isso é bom ou ruim, talvez ainda seja cedo para apontar qualquer conclusão, já que os filmes atrasados e represados pela Covid-19 estão prontos, mas no futuro próximo, os investimentos na produção de filmes podem mudar bastante e os gastos já contarem com essa “mudança de janela”. Mas não se preocupe, o cinema não vai acabar, só mudar um pouquinho.