Uma Noite de Crime: Anarquia

Uma Noite de Crime: Anarquia | Explora melhor essa noite de assassinatos


Depois de desperdiçar uma boa premissa com uma típica trama de uma família que tem sua casa invadida, o diretor e roteirista James DeMonaco faz em Uma Noite de Crime: Anarquia o que deveria ter feito no longa original: explora como a noite anual em que todos os crimes são liberados afetam pessoas comuns, que não tem a opção de se abrigar em casas blindadas e com sistemas de alarme de última geração.

Ambientado em 21 de março de 2023 – um ano depois do primeiro filme -, a sequência começa algumas horas antes do início da noite de crime em que, anualmente, todos os crimes são liberados entre as 19h e as 7h da manhã seguinte. Durante estas doze horas, polícia, bombeiros e hospitais são desativados. Mais uma vez, somos informados de que a medida foi criada pelos Novos Fundadores dos Estados Unidos, governo focado na erradicação do crime e que, para isso, institui essa data para que as pessoas “liberem” seus instintos criminosos e, assim, comportem-se no resto do ano. Além da redução da criminalidade, agora praticamente inexistente, o evento também é creditado como responsável pela redução da população que vive abaixo da linha de pobreza e do desemprego, agora abaixo de 5%. Afinal – e isso, obviamente, os vídeos oficiais do governo não informam – os habitantes pobres do país são os principais alvos de quem quer matar na noite de crime.

Ao invés de uma família rica ativando suas dezenas de alarmes e proteções para passar a noite em segurança, como no primeiro filme, aqui acompanhamos um grupo de trabalhadores de uma lanchonete, preocupados com a demora para o encerramento do expediente com o início do evento se aproximando. Eva (Carmen Ejogo) está ansiosa para chegar em casa, onde vive com sua filha, a jovem Cali (Zoë Soul), e com o pai doente (John Beasley). Para a família, não há outra opção além de trancar as janelas e portas, manter uma arma por perto e esperar as doze horas terminarem. Nesse período, também conhecemos o casal Shane (Zach Gilford) e Liz (Kiele Sanchez) que, chegando à cidade naquele dia, ficam presos nas ruas quando seu carro quebra pouco antes das 19h.

Com isso, claro, começam as fraquezas do roteiro: em um país acostumado com a noite anual de crime – os colegas de trabalho dizem “fique em segurança” um ao outro com naturalidade ao se despedirem -, o que leva alguém a dirigir para outra cidade no dia do evento? Se eles absolutamente precisam estar naquela cidade naquela data, por que não chegar com pelo menos alguns dias de antecedência? Como o casal poderia esperar que um mecânico aceitasse consertar o carro deles ou, pior ainda, que alguém desse uma carona a dois estranhos meia hora antes de todo crime ser liberado? Para piorar, Shane e Liz não são estabelecidos como pessoas estúpidas, tornando ainda mais absurda a decisão de estarem na estrada tão próximo do anoitecer.

Felizmente, porém, os personagens centrais de Uma Noite de Crime: Anarquia são pessoas inteligentes que, apesar de estarem lidando com situações inesperadas e assustadoras e de estarem circulando pelas ruas repletas de pessoas cheias de vontade de matar, fazem, em sua maioria, decisões racionais. Os personagens da sequência, portanto, mostram-se pessoas capazes de sobreviver e de lutar por suas vidas – ao contrário dos protagonistas do longa original, que dependiam de soluções absurdas e da tendência dos assassinos de adiarem o ato até exatamente o momento em que suas vítimas conseguiam escapar.

Destacando a ideia dos Estados Unidos como “Uma Nação Renascida” com a ascensão dos Novos Fundadores ao poder, DeMonaco acerta ao explorar mais profundamente as perversidades cometidas pela classe alta – pessoas que podem se dar ao luxo de pagar centenas de milhares de dólares para satisfazerem sua sede de sangue da segurança de suas casas, tirando proveito da falta de dinheiro dos doentes e pobres, ou de organizar leilões de vítimas especialmente selecionadas para a elite. A iluminação etérea e a trilha sonora dessas sequências, aliás, as transformam em cenas saídas de um pesadelo, em algo absurdo e deslocado da realidade.

Além disso, ao contrário das caricaturas do primeiro filme, os “vilões” aqui são os cidadãos de bem que, na noite de crime, extravasam seus desejos mais profundos sem consequências – exatamente a intenção da data. Assim, as máscaras utilizadas para assustar vítimas em potencial (utilizadas mesmo antes do começo do evento) são logo retiradas, e a sinceridade com que um deles explica o objetivo do grupo é muito mais desconcertante assim. Da mesma forma, vimos um vizinho de Eva e Cali prestes a estuprar e matar as duas – não é difícil imaginar a quantidade de homens que aproveitariam a data para abusar de mulheres, e é mérito de DeMonaco que ele não utilize a premissa de seu filme para glorificar a violência contra mulheres, não trazendo nenhuma cena gráfica ou sequer insinuação de abuso sexual (o tal vizinho não chega nem perto de concretizar seus planos).

Uma Noite de Crime: Anarquia

Apesar de as mulheres serem tratadas da mesma forma que os personagens masculinos – igualmente capazes (de sobrevivência ou de violência, dependendo do caso) e sofrendo os mesmos tipos de crime (os dois filmes, afinal, focam na vontade de matar da população) –, os personagens de Uma Noite de Crime: Anarquia não são, como um todo, muito bem explorados, dependendo mais dos esforços de seus intérpretes para conquistar a atenção do público. Sim, eles tem personalidades distintas e motivações que tornam suas ações compreensíveis mas, principalmente no final do segundo ato e no terceiro, o filme prefere focar na violência e no tiroteio do que na luta daquelas pessoas pela sobrevivência – o que é uma pena, pois é justamente isso o que, desde o início do longa, diferencia e eleva a sequência em relação à obra original.

Acrescentando uma organização que busca aproveitar o caos do evento para – ignorando as regras da noite de que certos tipos de armamento não são permitidos – atingir a elite e mostrar para a população as reais intenções do governo na criação da data, o filme infelizmente escolhe não aproveitar muito este novo elemento – na esperança, provavelmente, de que possam fazer isso em um terceiro filme. Anarquia, assim, sofre com essa intenção não muito realizada de comentário social, pois é justamente essa discussão levantada entre o público que torna esta “série” tão interessante. Afinal, o assunto é cada vez mais atual – apenas nos últimos meses, quantos policiais norte-americanos nós já vimos assassinando homens negros sem consequência alguma?

Assim, é uma imagem mostrada logo no início dos créditos finais a mais perturbadora de todo o filme: um pai ensina seu filho pequeno a atirar. Algo comum, real e legal nos Estados Unidos, um “direito” defendido e aceito por muitos, um absurdo que acontece sem a necessidade de um evento como o mostrado em Uma Noite de Crime.

DeMonaco, porém, jamais consegue realmente se aprofundar nessas discussões que, apesar de mais bem trabalhadas aqui, continuarão principalmente nos diálogos entre quem assiste ao filme. O que, claro, é algo muito, muito importante – qualquer filme que gere discussão e conflito de opiniões é bem-vindo – mas, considerando o potencial do que vimos ao longo de 1h45, a impressão que fica é de que, com um roteiro mais bem trabalhado e sem a preocupação com sequências, o próprio cineasta poderia colocar na tela uma obra ousada e memorável.


“The Purge: Anarchy” (EUA, 2014), escrito e dirigido por James DeMonaco, com Ethan Hawke, Lena Headey, Rhys Wakefield, Adelaide Kane, Max Burkholder e Edwin Hodgeo.


Trailer – Uma Noite de Crime: Anarquia