Um Senhor Estagiário Filme

Um Senhor Estagiário

Nancy Meyers ficou famosa um pouco de tempo atrás, em 1980, quando emplacou o roteiro do que se tornaria um enorme sucesso com Goldie Hawn em A Recruta Benjamin. Mas só foi sentar na cadeira de diretor em 1998 com Operação Cupido, e daí até hoje, Meyers mais caiu em sua própria armadilha do que qualquer outra coisa. Um Senhor Estagiário não sai muito disso.

Como se mais uma vez ela assumisse o papel de levar para os cinemas a “verdadeira mulher”, mas acabasse focando seus esforços em encontrar o “homem perfeito”. Ele já foi Denis Quaid, Mel Gibson, Jack Nicholson, já foi até Jack Black e Steve Martin, mas nenhum deles era tão perfeito quanto agora é Robert De Niro. A sorte do filme é que, nesse caso, essa perfeição não vem embrulhada em um romance bobinho.

Um Senhor Estagiário quase não é sobre esse aposentado de 70 anos que decide voltar à trabalhar depois de ficar viúvo e perceber que não tinha mais nada para fazer de sua vida. Ben (De Niro) então consegue uma das vagas de um projeito de “treinee senior” de um e-commerce de roupas femininas que em 18 meses de existência já se tornou um enorme sucesso. Talvez o foco dessa história esteja, justamente, em Jules (Anne Hathaway), criadora e presidente do site. E Meyers, que também escreve o roteiro, até ai acerta na mosca.

Com isso em mãos, a diretor discute a presença das mulheres no mercado de trabalho, discute o preconceito até das próprias mulheres diante disso, ao mesmo tempo em que ainda toca no assunto delicado do quanto os jovens não estão preparados para aproveitar a presença da experiência daqueles que já passaram pela “vida adulta”. Mas tudo isso de modo superficial demais e só o suficiente para que sua história chegue até o final, pois qualquer olhada um pouco mais profunda o que salta aos olhos é uma lambança enorme.

De cara, será que todo e qualquer velhinho do mundo ainda não sabe o que é um “e-commerce”? Ou ligar um computador? Ou mais tarde descobrir que não sabe dirigir um carro (nesse caso pior ainda, já que talvez seja porque ela é uma mulher)? Ou será que o “senior treinee” negro, vestido exatamente como o De Niro, não merece ter seu terno notado? E isso pode parecer mais um grito sem eco do “politicamente correto”, mas na verdade é mais uma pergunta: De que serve cobrir o corpo se isso deixa os pés descobertos?

E tantas perguntas assim só permitem que questionamentos maiores sejam feitos e ai se percebe, mais uma vez, que ainda que tenha criado uma enorme empresa de comercio na internet, dona de um prédio, de uma armazem e 220 funcionários, uma menina ainda precisa de um menino. E para quem começa essa história tão feminista e forte, isso é um verdadeiro tiro no pé.

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Jules é influenciada pelos homens a seu redor de modo até a aceitar que o melhor para ela seja “dar” sua empresa não mão de alguém com um nome que fique melhor nas reuniões, e não surpresa que em nenhum momento seja citada a possibilidade de uma CEO, nem por indicação dela, nem por indicação de ninguém. Do mesmo jeito que é sua vida como mulher forte que sonha com voos mais altos que permite que seu marido (e ela) entendam que uma traição seja algo perdoável. Até porque, ao invés de uma armadura e um cavalo branco, quem surge para salvar a vida de Jules é um “cara oldschool” de terno e gravata que se barbeia todos os dias, mas não se importa de segurar seu cabelo enquanto ela vomita.

Pelo menos sobra para o papel de De Niro equilibrar um poucos as coisas e, como ele próprio diz, “ser feminista”, ainda que, bem verdade, isso pouco tenha a ver com feminismo, mas sim só com a coisa certa a ser feita.

Essa personalidade meio desequilibrada de Um Senhor Estagiário só não atrapalha mais, pois Meyers continua sendo uma ótima roteiristas de filmes leves e que passam rápido. Uma leveza que não deixa ele ser sensível e profundo demais para torná-lo um um drama, e nem engraçadinho demais só pra ser uma comédia (o que torna a sequencia na casa da mãe de Jules um espasmo de imbecilização). Uma decisão que acerta o público cansado desse cinema que parece mais preocupado com o gênero do que com a história.

O que fica ainda melhor com a presença sempre cativante de Hathaway, completamente no controle da personagem, encantadora, sensível e que sabe caminhar muito bem entre os risos e as lágrimas. Isso enquanto De Niro paga seu aluguel com mais um papel no piloto automático (com direito até ao sempre presente olhos cerrados e boca torta), o que ajuda mais ainda que o trabalho dela se sobressaia (sem contar a presença quase amadora de um tal de Anders Holm, no papel de seu marido).

De qualquer modo, mesmo leve e cheio de lições de vida, Um Senhor Estagiário começa bem, mas se perde enquanto tenta ser relevante e não percebe o quanto cai sem sua própria armadilha.


“The Intern” (EUA, 2015), escrito e dirigido por Nancy Meyers, com Robert De Niro, Anne Hathaway e Rene Russo.


Trailer – Um Senhor Estagiário

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