Um Parto de Viagem

por Vinicius Carlos Vieira em 06 de Novembro de 2010

Existem alguns diretores que tem o poder de fazer filmes preferidos, não melhores nem maiores, somente preferidos, Todd Phillips é um desses e seu “Um Parto de Viagem” vai se tornar “a melhor comédia dos últimos tempos” para muita gente que vê-la no cinema. Se essas pessoas estão certas ou erradas pouco interessa, já que o que importa é entender que isso se dá graças, unicamente, a habilidade de Phillips em fazer rir.

E não que “Um Parto de Viagem” te faça rir o tempo inteiro, o que ele faz de verdade é criar uma situação estapafurdia e mostrar que no fim das contas aquilo pode ser pior, antes de ficar melhor. Talvez um pouco do jeito com que fez em seu “Se for Beber Não Case”, que faze, em certo momento, que seu espectador praticamente perca o rumo de onde toda aquela loucura possa chegar, mas, mais ainda como fez em seu “Caindo na Estrada”, jogando seus personagens em um road movie maluco que serve de pista de obstáculos para um objetivo que parecia tão claro e fácil.

Aqui, a trama fica por conta do arquiteto vivido por Robert Downey Jr., que só precisa sair de Atlanta e chegar em Los Angeles a tempo de ver o parto de seu primeiro filho, o que ele não contava era com a presença do aspirante a ator vivido pelo hilário Zach Galifianakis, cruzando seu caminho. Em poucos minutos o arquiteto sistemático está banido dos céus dos Estados Unidos depois de quase ser acusado de terrorismo, só lhe restando a carona do ator, que, indiretamente acabou causando tudo isso.

Pois é montando um roteiro muito bem costurado, enxuto, que sabe aonde quer chegar, e como fazer tudo ter sentido que o filme de Phillips sai na frente das maiorias das comédias. Contado separadamente, tudo se tornaria uma sucessão de gags engessadas, juntas, ganham uma unidade incrível, como se cada momento fosse um continuação, o que imprime um ritmo marcante ao filme e não deixa o espectador largar dele por um segundo.

Mas o melhor disso é justamente não depender disso, como seu próprio “Caindo na Estrada” ou ainda lembrando até o clássico “Férias Frustradas”, onde a cada quilometro percorrido tudo parece ficar mais longe ainda, em um acúmulo de situações que só parecem ter a função de levar seus protagonistas ao limite.

Nesse caso, a vítima da vez é Downey Jr., já que, durante todo tempo tudo parece só acontecer com ele, talvez por, justamente, ver tudo “ladeira abaixo” como ele mesmo comenta no primeiro momento que esbarra com o personagem de Galifianakis, que por sua vez olha tudo “ladeira acima”. No fim das contas, Phillips parece preocupado em dar a esses dois personagens uma profundidade muito mais funda que a maioria dos protagonistas de comédias, mas faz isso de modo natural e sem um pingo de melodrama, já que, a qualquer momento, qualquer declaração, ou confissão pode ser simplesmente jogada para o espaço com alguma besteira feita por Galifianakis, que não são poucas.

E talvez a escolha da dupla seja justamente um dos maiores acertos do filme, já que ambos se mostram totalmente confortáveis em seus papeis e estão em momentos de suas carreiras estabilizados o suficiente para não terem medo de serem ridículos. Por um segundo o arquiteto de Downey Jr. é pedante e irritante, chegando ao cúmulo de agredir uma criança em um acesso de raiva, mas aos poucos o espectador vai cada vez mais percebendo que, o que ele quer é justamente só sair daquela armadilha toda e chegar em casa. Assim como do outro lado Galifianakis é um dos maiores estorvos que o cinema já conheceu, sincero, simpático, bonachão e apaixonante, mas com uma inabilidade tremenda para fazer qualquer coisa certa.

Basta a Phillips então saber extrair o melhor de seus atores, coisa que ele sempre faz em seus filmes, principalmente ao apostar, na maioria das vezes, em bons comediantes. Para esse caso, o principal parece justamente arrumar duas pessoas sem a mínima química, criando uma dupla que seria impossível funcionar, mas que aqui provoca risos só pelas suas presenças. Como se não combinassem, mas se encaixassem perfeitamente.

Parte disso é graças a uma ótima caracterização de ambos personagens, tanto do visual espalhafatoso de Galifianakis, com sua calça apertada e seu cachecol, quanto à impecabilidade de Downey Jr. que só existe para se transformar, ao final do filme, em um farrapo humano. Uma direção de arte que faz com que seja fácil se identificar com a dupla.

Mas por trás de tudo isso Phillips faz sim um filme sobre dois caras e um cachorro que precisam atravessar o país, uma para ver seu futuro e outro para deixar o passado para trás. Mas isso, de um jeito tão esculhambado e cara de pau que, quem vai sempre à procura de comédias no cinema, mas dá de frente com enlatados românticos pouco engraçados, vai se divertir a beça, dar muito risada e, como eu falei no primeiro parágrafo, quem sabe até não sair do cinema com seu novo filme preferido.

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Due Date (EUA, 2010), escrito por Todd Phillips e Adam Sztykiel; Alan R. Cohen e Alan Freedland, dirigido por Todd Phillips, com Robert Downey Jr, Zach Galifianakis, Michelle Monaghan, Jamie Foxx, Juliette Lewis e Danny McBride

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