Um Novo Despertar

Um Novo Despertar

Existem filmes que parecem apontar para um lado, mas levam seu espectador para um outro. Não em termos de decepção, nem de reviravoltas, apenas de resultados, como se tivessem a certeza de que, para contar essas histórias, não haveria outro jeito a não ser “pescar” seu espectador nesse outro local e trazê-lo até onde quer. Um Novo Despertar caminha por uma linha traçada entre um drama, e algumas pitadas de um certo humor até, mas na verdade quer mesmo é pintar o retrato trágico do tal Walter Black, como o próprio filme faz questão de começar avisando.

Black é vivido por Mel Gibson, que pela primeira vez aparece nas telas depois do escândalo envolvendo sua mulher (no qual foi acusado de agressão), ainda que na verdade, o filme já estivesse pronto e acabasse por ser adiado até a poeira baixar. Se por um lado isso pouco importa para o filme, por outro talvez ajude a olhar para esse personagem com mais profundidade, esse cara de meia idade em uma enorme depressão, que não consegue conviver com o homem que é, e por isso vai em busca daquele que já foi.

Como resultado disso, Black acaba deixando a família, porém, em uma lata de lixo qualquer, dá de cara com uma marionete em forma de castor de pelúcia, que em sua mão esquerda parece ganhar vida própria e se tornar a voz interior que ele tanto buscava. Por mais absurdo que isso possa parecer.

Dirigido por Jodie Foster, que interpreta a esposa do protagonista, Um Novo Despertar toma o cuidado de não se tornar um filme doentio, com um cara falando através de um castor, mas opta por criar esse personagem triste e convida o espectador a acompanhar essa personalidade esfacelada pela depressão. Muito provavelmente até esse mesmo lado vá incomodar quem entrar no cinema esperando um simples drama e acabe dando de cara com esse filme “para baixo”, mas em nenhum momento Foster parece querer dar a seu espectador nada a não ser isso, por mais pesado que o assunto seja.

Desde o início, Foster não se interessa por atalhos rasos, durante todo tempo que esse castor “fala” é a boca de Gibson que você vê se movendo, como se fizesse questão de mostrar que o que ela tem em mãos é alguém com um sério desvio de personalidade e não uma simples metáfora da situação. Foster então faz escolhas cruas e pouco animadoras, mas tremendamente condizentes com o que seu filme lhe pede.

Por outro lado, talvez demore um pouco para perceber que Um Novo Despertar não é só sobre esse Walter Black, mas sim sobre um pai e um filho, ambos com o mesmo problema, mas lidando com ele de formas que fingem serem diferentes. Enquanto o pai fala através desse animal de pelúcia, seu filho mais velho, vivido por Anton Yelchin, foge da imagem paterna sem perceber que, ao fazer isso, acaba negando sua própria imagem. Na escola, ganha dinheiro fazendo redações pessoais para outros alunos, sendo suas vozes interiores. Sendo o castor na mão desses outros garotos que não conseguem dizer através de palavras aquilo que são.

Um Novo Despertar é então sobre esse filho mais velho que faz de tudo para ser diferente do pai, sem perceber que o próprio pai faz de tudo para não ser ele mesmo. Um filme sobre dois personagens sozinhos em mundos que não querem estar.

O roteiro, escrito por Kyle Killen, só escorrega um pouco ao não conseguir manter essa história em torno só desses personagens e deixá-la ganhar o mundo, permitindo que o personagem de Gibson fique famoso graças a sua espécie de esquizofrenia, o que parece fazer pouco e humilhar demais um personagem já tão esfacelado. Assim como, com isso, deixa o espectador perdido diante da passagem de tempo da história, já que é difícil entender como ela precede e permite que o ritmo fique embaralhado demais, como se tudo acontecesse dia após dia.

Mas de qualquer maneira, Um Novo Despertar acaba sendo um drama interessante que, de modo criativo, não tem medo de tocar em um assunto sério e fazer o espectador pensar a respeito do que está vendo, com um Mel Gibson esforçado, depois de tantos papeis fracos, e que, mesmo diante de um gancho que possa parecer uma espécie de comédia, ainda assim se segura e não perde a mão (difícil fugir da piada) ao rumar para esse drama eficiente.


The Beaver (EUA, 2011), escrito por Kyle Killen, dirigido por Jodie Foster, com Mel Gibson, Jodie Foster, Cherry Jones, Anton Yelchin e Jennifer Lawrence.
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